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O ÚLTIMO SALTO



''O homem nasceu para lutar e a sua vida é uma eterna batalha.''
Thomas Carlyle

 


        O avião tremeu como um animal ferido quando o fogo antiaéreo o alcançou, e o soldado sentiu o cheiro de metal queimado invadir a cabine antes mesmo de ver a luz vermelha piscar sobre a porta de salto. O sargento gritou qualquer coisa que o rugido dos motores engoliu, mas o dedo apontado para a escuridão lá fora dispensava tradução: "Saltem, saltem agora". O jovem de cabelo castanho cortado rente viu o companheiro à sua frente desaparecer pela abertura como um boneco engolido pela noite, e então seu corpo se moveu sozinho, as botas impulsionando-o para o vazio antes que o cérebro pudesse calcular o absurdo daquela decisão. O vento o estapeou com uma violência que nenhum treinamento na Carolina do Norte jamais simulou, e por um segundo interminável o rapaz de olhos claros foi apenas um coração batendo no meio do nada, suspenso entre um avião em chamas e um chão que ele rezava para ainda existir.
        A Holanda se abriu sob ele como um mapa rasgado, manchas escuras de floresta e prata de canais sob a luz pálida da lua, e então os primeiros traçadores subiram, agulhas laranja costurando a noite em sua direção. O paraquedista americano puxou a corda e o tranco do velame abrindo pareceu arrancar sua espinha pela nuca, mas ao menos agora ele flutuava em vez de cair, um alvo lento e previsível para qualquer artilheiro alemão com olhos bons. Ao seu redor, outros paraquedas floresciam como cogumelos cinzentos, mas alguns homens passavam por ele sem que nada se abrisse, seus corpos retos e rígidos como lanças cravando-se na terra escura. O filho de Thomas McCall tentou contar os que caíam assim, mas desistiu no terceiro; havia algo naquele silêncio (um corpo caindo não grita, apenas desaparece) que doía mais do que o barulho dos canhões.
        O vento o arrastou para longe da zona de pouso marcada nos mapas que ele decorara na Inglaterra, mapas que agora não passavam de papel inútil em seu bolso, e o soldado ferido viu a mancha da floresta se aproximar rápido demais, galhos erguidos como dedos querendo agarrá-lo. O impacto com as árvores foi uma explosão de ramos quebrando, algo duro raspando sua costela, o paraquedas enroscando nos galhos mais altos e deixando-o pendurado a dois metros do chão como um presunto num gancho. Ele cortou as cordas com a faca de combate, caiu de mal jeito sobre o ombro e ficou imóvel por um minuto inteiro, ouvindo a própria respiração e o distante latido de metralhadoras. Nenhum som de ingleses ou americanos; apenas o farfalhar do vento nas folhas e, em algum lugar à sua direita, o ruído inconfundível de botas pisando a terra com ritmo militar.
        A floresta era um labirinto de sombras e silêncios pontuados por estalos que podiam ser raposas ou soldados, e o jovem de maxilar tenso descobriu em poucos minutos que todo o seu treinamento de orientação dependia de pontos de referência que simplesmente não existiam ali. O mapa dizia "campanário da igreja visível a noroeste", mas as copas das árvores formavam um teto cerrado que não deixava ver nada além de fragmentos de céu, e o rio que deveria correr paralelo à sua rota não passava de uma vala seca que o mapa ignorava. Ele se agachou junto a um tronco caído e abriu a bússola com dedos que tremiam apesar do suor frio, a agulha girando preguiçosa enquanto o rapaz de ombros largos tentava decidir se o rumor de água que ouvia era real ou apenas seu cérebro fabricando o que precisava encontrar.         Os alemães podiam estar em qualquer direção, e pela primeira vez o sobrevivente da 82ª Divisão entendeu o verdadeiro significado da palavra "extraviado": não era apenas estar perdido, era perceber que cada escolha errada de caminho não terminava numa nota baixa de treinamento, mas numa bala na nuca.
        A primeira noite ele passou num celeiro abandonado, o cheiro de feno podre e esterco antigo enchendo suas narinas enquanto ouvia uma patrulha alemã passar na estrada de terra a menos de cinquenta metros. Eram quatro soldados, suas vozes baixas trocando palavras que o americano não entendia, o tilintar de equipamento e o ranger de couro novo (botas de oficiais, provavelmente, o que significava que havia mais tropas por perto do que a inteligência aliada previra). Ele segurou a respiração até os pulmões queimarem, a mão direita fechada sobre o coldre da pistola, e foi nesse silêncio forçado que puxou do bolso interno o relógio do pai. A caixa de prata estava morna contra sua palma, o vidro rachado numa linha diagonal que o velho Thomas McCall recebera em 1916 nas trincheiras do Somme, no mesmo dia em que o relógio simplesmente parara: 4h17 da manhã, hora francesa, o momento exato em que um estilhaço de artilharia alemã abrira seu peito. O órfão de olhar duro encostou o relógio no ouvido, como fazia desde criança, como fazia antes de cada salto, como faria até o último dia de sua vida: nenhum tique-taque, apenas o silêncio do mecanismo morto e a voz do pai que ele nunca conhecera, reduzida a uma fotografia amarelada e um objeto que se recusava a voltar a funcionar.
        Na manhã seguinte, movendo-se por entre sebes e valas de drenagem, o fugitivo avistou a primeira casa holandesa: uma construção de tijolos com um telhado de duas águas e uma bicicleta caída no jardim, tão pacífica que por um instante ele quase esqueceu que havia uma guerra. A porta dos fundos abriu e uma mulher de meia-idade saiu com um balde, mas antes que o paraquedista pudesse decidir se revelava sua presença ou recuava, o ronco de um motor blindado encheu a rua. Uma semi-lagarta alemão apareceu na esquina, sua metralhadora montada girando lentamente como um inseto farejando o ar. O jovem de cicatriz na sobrancelha direita se jogou atrás da vala, a lama fria infiltrando-se em suas roupas, e viu a mulher holandesa erguer os olhos para o veículo com uma expressão que ele conhecia bem: a resignação de quem vivia sob ocupação havia quatro anos. O blindado alemão parou por um instante, tempo suficiente para que o coração do americano batesse com tanta força que ele teve certeza de que os alemães o ouviriam; então o motor acelerou de novo e a máquina seguiu seu caminho, deixando para trás apenas o cheiro de diesel e o gosto de terra na boca do soldado escondido.
        A ferida na costela, onde o galho o atingira durante a aterrissagem, latejava num ritmo surdo que se sincronizava com seus passos, e o homem ferido sabia que algo estava errado: sangue seco grudava sua camisa na pele, e a cada movimento brusco uma pontada aguda lhe roubava o fôlego. Encontrou um celeiro isolado no fim da tarde e permitiu-se examinar o ferimento, um corte longo e superficial mas infectado nas bordas, a pele avermelhada e quente ao toque. Bebeu um gole da água barrenta de seu cantil e comeu metade da ração de emergência, calculando que tinha forças para mais um dia de marcha, talvez dois. O relógio do pai estava em sua mão outra vez, e o filho do veterano do Somme o encostou no ouvido com uma urgência quase supersticiosa: se o relógio voltasse a andar, ele sobreviveria; se continuasse parado... Não completou o pensamento. Apenas guardou o objeto de volta no bolso, sobre o coração, e deixou que o peso familiar da prata o acalmasse como um amuleto.
        A patrulha o encontrou no segundo dia, não por acaso, mas porque alguém na fazenda vizinha o denunciara em troca de cigarros ou talvez apenas por medo (o combatente jamais saberia a razão, e isso não faria diferença de qualquer modo). Eram três soldados, muito jovens, o uniforme limpo demais para veteranos, as armas apontadas para ele com aquela hesitação de quem ainda não se acostumara à ideia de matar. O americano de mãos calejadas ergueu os braços devagar, a pistola ainda no coldre, e viu o alemão da frente (um garoto de talvez dezoito anos, sardas no rosto pálido) gritar ordens numa língua que ele não entendia. "American", disse o prisioneiro, a palavra soando estranha e inútil em sua boca, "Airborne". O garoto alemão franziu a testa e repetiu "Luftlandetruppen" para seus companheiros, e houve um murmúrio de reconhecimento: sabiam o que significavam os paraquedistas aliados, sabiam que a invasão viera por cima e por terra, e o medo nos olhos deles era o espelho do medo nos olhos do homem encurralado.
        Revistaram-no com brutalidade desnecessária, mãos arrancando seus pertences, e foi quando um dos soldados encontrou o relógio de prata que tudo mudou: o filho do soldado caído viu o objeto brilhar na mão suja do alemão e algo dentro dele se rompeu. "Devolva", ele disse, primeiro em inglês, depois num alemão atravessado que aprendera nos panfletos de propaganda: "Geben Sie zurück". O soldado riu, um riso curto e nervoso, e fez menção de guardar o relógio no próprio bolso. O herdeiro da caixa de prata deu um passo à frente antes que pudesse pensar, as mãos ainda erguidas mas o corpo movendo-se por vontade própria, e o garoto das sardas ergueu a pistola. Havia apenas uma bala no tambor daquela arma (o americano não sabia disso, não podia saber), mas o que ele sabia, com uma certeza que lhe gelou a espinha, era que o relógio estava agora na mão direita do alemão, balançando pela corrente partida, e que seu pai morrera sem nunca ouvir o próprio filho pronunciar seu nome.
        A decisão veio num instante, rápida como o puxar de uma corda de paraquedas: o jovem de olhos cinzentos se lançou contra o soldado que segurava o relógio, não pela arma, não pela liberdade, mas pelo objeto que continha o único pedaço de seu pai que ainda pulsava neste mundo. O tiro disparou, abafado e seco, e o filho de Thomas McCall sentiu o impacto no ombro esquerdo antes de sentir a dor: uma dor branca, imensa, que o fez cair de joelhos na terra molhada enquanto seus dedos se fechavam sobre a caixa de prata. Os alemães gritavam, botas correndo ao seu redor, mas o moribundo só conseguia ouvir uma coisa: o silêncio do relógio encostado em seu ouvido, o mesmo silêncio de sempre, o silêncio que seu pai levara para o túmulo e que agora o acompanharia até o seu. A última coisa que o soldado caído viu foi o céu holandês, cinza e indiferente, e pensou que talvez, afinal, o relógio nunca tivesse precisado voltar a funcionar: talvez a única forma de fazê-lo andar fosse justamente parar o seu próprio coração junto com o dele.
 
 


 


 

 
 
 

INSPIRAÇÃO

 

A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, Setembro de 1944. Um jovem paraquedista da 82ª Divisão Aerotransportada salta sobre a Holanda ocupada durante a Operação Market Garden. Separado de sua unidade após uma aterrissagem violenta em território hostil, ele precisa atravessar sozinho uma região repleta de patrulhas inimigas. No bolso, carrega um relógio de bolso que pertenceu ao pai, morto na Primeira Guerra Mundial, um objeto que parou no exato instante da morte paterna e que o filho acredita estar misteriosamente ligado ao seu próprio destino. Enquanto tenta reencontrar as linhas aliadas, ele descobre que a guerra cobra escolhas para as quais nenhum treinamento prepara um soldado. 
  Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
    A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEEART digitei “Jovem paraquedista americano caindo no céu noturno sobre a Holanda em 1944, paraquedas abrindo acima dele, tiros traçantes cortando linhas alaranjadas na escuridão, avião em chamas ao fundo, iluminação cinematográfica, fotorrealista, atmosfera da Segunda Guerra Mundial 4k 8k fotografia foto realista como uma imagem real " e obtive esse resultado.


 

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