‘’Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados.’’ A Culpa é das Estrelas
A mensagem luminosa piscava no meu pulso há quinze minutos, insistente igual mosquito sobre carne viva. Regulagem emocional instável. Busque o posto mais próximo. Penalidades por descumprimento incluem rebaixamento social e recolhimento do chip para análise. A aliança de silicone no meu dedo anelar, comprada num camelô da Zona Cinza, já não escondia mais os sinais vitais alterados. O rapaz de óculos escuros e cabelo cor de azeviche pilotava a moto voadora com uma mão só, a outra apertando minha cintura como se eu fosse desaparecer em fumaça a qualquer instante. O vento noturno bagunçava os fios cacheados da moça morena que ia na garupa, eu mesma, Samara, tentando lembrar como era a vida antes do implante obrigatório aos doze anos.
O problema começara três semanas antes, num banheiro químico da estação central. Gabriel, o tal rapaz de óculos que eu mal conhecia do curso técnico, tinha entrado atrás de mim para fugir de uma blitz emocional. Seu suor misturado ao meu, respirações ofegantes na escuridão apertada, e de repente nossas bocas se encontraram sem planejamento algum. Meu chip apitou uma vez, duas, e então silenciou completamente. Pela primeira vez desde a infância, não ouvi nenhuma voz sintética dizendo o que eu deveria sentir. Houve apenas o gosto salgado da pele dele e um tremor nas pernas que nenhum médico ensinou a diagnosticar.
Agora cavalgávamos pela estrada abandonada que levava ao Deserto de Silício, uma região onde as torres de transmissão não alcançavam. Os drones policiais patrulhavam em formação de ganso lá atrás, seus feixes azuis varrendo o asfalto rachado em busca de corações fora da curva. O dono dos olhos escuros, que eu aprendera a chamar de meu porto escondido, reduziu a velocidade ao avistar as primeiras barracas de lona cinza. A Zona Morta se espalhava diante de nós como uma ferida aberta no mapa clean da cidade: sem câmeras, sem vigilância, sem chips funcionando direito. Crianças descalças corriam atrás de ratos mutantes enquanto mulheres de rosto encapuzado trocavam latas de comida por cigarros artesanais.
O moço de cabelo liso arrancou os óculos e limpou as lentes na barra da camisa, ato tão humano e inútil que quase me fez sorrir. Dentro da zona proibida, seus dispositivos óticos não tinham conexão com a nuvem, funcionavam apenas como vidro e plástico comuns. Percebi que ele tremia, não de frio, mas de algo mais profundo. Suas mãos, que já haviam digitado códigos de invasão com precisão cirúrgica, agora se enrolavam nas minhas como videiras desesperadas por sol. O medo estampado em seu rosto magro não era daqueles regulados, com dose controlada para situações específicas. Tratava-se de um pavor cru, primitivo, desses que fazem o estômago revirar e os joelhos amolecerem sem autorização de nenhuma central de segurança.
Uma mulher de dreads brancos se aproximou, seus olhos claros examinando nossos rostos sujos de poeira eletromagnética. Seu olhar experiente pousou nas têmporas de Gabriel, onde a pele estava levemente inchada sobre o chip defeituoso. Ela fungou, cuspiu no chão e sussurrou algo sobre o Beco dos Circuitos Queimados, um lugar onde ex-técnicos do sistema faziam cirurgias clandestinas de remoção. O rapaz de lábios trêmulos segurou minha mão com tanta força que senti os ossos estalarem, e naquele aperto desproporcional entendi algo que nenhum manual afetivo ensina. Ele não tinha medo da operação, nem dos risos de infecção ou sangramento. Seu pavor verdadeiro, aquele que fazia sua pupila dilatar igual buraco negro, era me perder durante o procedimento.
Caminhamos por vielas onde o esgoto corria a céu aberto e placas de metal enferrujadas anunciavam terapia sem chip em letras trêmulas. Uma menina de seis anos nos ofereceu flores feitas de fios de cobre, e Gabriel trocou por um pouco da água que carregávamos na mochila. O gesto me atingiu em cheio, porque nenhum chip ensina generosidade espontânea. No mundo lá fora, todo ato de bondade é calculado por algoritmos que pesam benefícios e custos antes de liberar o impulso. Aqui, na pobreza extrema da zona morta, humanos sem regulação se ajudavam por puro instinto de manada, coisa feia e bonita ao mesmo tempo, como uma ferida que cicatriza sozinha.
Chegamos ao Beco dos Circuitos Queimados quando o sol artificial começava a nascer no horizonte laranja. Um homem de jaleco manchado de sangue nos atendeu na porta, suas ferramentas de corte penduradas no cinto igual açougueiro medieval. Ele pediu para ver nossos chips expostos, e ao tocar minha nuca com dedos grossos de calos, assobiou baixo. A moça de cabelos enrolados que um dia fora Samara sentiu seu estômago embrulhar quando o técnico disse que meu dispositivo já havia derretido parcialmente, fundido com o tecido nervoso ao redor. Gabriel puxou o capuz sobre a cabeça e recuou dois passos, suas costas batendo na parede úmida com um som surdo de carne contra cimento.
O homem de jaleco explicou que a remoção levaria horas e exigiria anestesia local, mas ele só tinha estoque para um dos dois. O rapaz de olhos castanhos, aquele que digitava códigos de invasão enquanto eu vigiava os corredores, não hesitou um segundo sequer. Seu dedo indicador apontou para mim, depois para a maca improvisada no canto, e ele sussurrou algo sobre esperar do lado de fora mesmo que doesse. Naquele instante, deitada na cama fria enquanto o bisturi se aproximava de minha nuca, entendi o verdadeiro significado da palavra confiança. Não era acreditar que o outro não vai te trair. Era entregar seu corpo frágil nas mãos dele sabendo que, se algo der errado, não haverá chip para anestesiar a dor da perda.
INSPIRAÇÃO

Adorei o texto, amor.
ResponderExcluirAnsiosa pelos próximos.
Obrigada Gabriel muito bom
ResponderExcluirGostei muito do texto. Ele passa uma emoção forte e faz a gente refletir sobre o que é confiança de verdade....
ResponderExcluirQue emocionante, muito bom.
ResponderExcluirObrigada Gabriel muito bom
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