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Mostrando postagens de abril, 2026

O SORRISO NA DOBRA DO ARMÁRIO

Medo e terror não são a mesma coisa. O medo impulsiona o homem a agir e a ser criativo. O terror paralisa o corpo e bloqueia o fluxo de pensamento, tornando-o menos humano." Dmitry Glukhovsky             A primeira vez que ele notou a silhueta, achou que o problema fosse o cansaço. Eram seis da manhã, olho remelento, café frio. Uma forma alta e desengonçada se encolhia no canto da cozinha, logo além do batente da porta. Quando piscou, ela já não estava mais ali. Na semana seguinte, as chaves do carro desapareceram. Ele revirou gavetas, rasgou o sofá, praguejou sozinho. Horas depois, encontrou as chaves dentro do forno, cobertas por uma fina camada de cinza. O eletrodoméstico permanecia frio.           Leonardo, sim, ele possuía um nome, mas não há necessidade de gravá-lo, pois em breve o homem perderá qualquer traço de identidade que ainda lhe restasse, começou a desconfiar de si próprio. Seriam lapsos de memória? ...

O PULO DO CORAÇÃO LENTO

 ''O mais importante na comunicação é ouvir o que não foi dito. ''  Peter Drucker           A nave voltou. Eu voltei. Mas não do jeito que imaginavam. Meu coração bate uma vez a cada quarenta segundos. Minha respiração dura dois minutos inteiros. Quando tentei dizer "estou em casa", a frase levou dezoito segundos para sair. Os médicos na Estação Gateway acham que sofri algum dano. A Dra. Helena Voss passa horas me olhando como quem examina um relógio quebrado. Ela não entende que não estou quebrado. Estou ajustado.           No caminho para Barnard, no meio do nada interestelar, encontramos uma mancha quente. Não uma estrela, não um planeta. Uma região do espaço que pulsava como uma geleira derretendo. Ciclos de 47 mil anos. Meus colegas de tripulação chamaram de anomalia e seguiram viagem. Eu fiquei. Tranquei-me no módulo de comunicações e comecei a enviar pulsos no mesmo ritmo. Levei meses para perceber que...

BÁU DAS CONFISSÕES

 ''A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado.''  Sêneca      Encaro o baú como quem encara um caixão fechado há tempo demais. Minhas mãos tremem ao levantar a tampa. Lá dentro, centenas de envelopes amarelados repousam em camadas irregulares, testemunhas mudas de uma vida inteira de hesitações.      Pego o primeiro espécime. Meu avô nunca foi dado a afetos. Nem abraços, nem conversas demoradas. Mas ali, naquela caligrafia miúda e nervosa, ele derrama palavras que jamais ousou pronunciar ao vivo.      Para uma antiga paixão: Sei que você me odiaria menos se soubesse que nunca a esqueci. Para o patrão que o humilhou: A promoção que me negaram veio de outro jeito, mas o senhor nunca saberá como.      Demoro dias para organizar a coleção por destinatários. Alguns endereços ainda existem. Nomes repetem-se em certas correspondências: Adelaide, Francisco, Júlio. Uma c...

O CANTO E A CHAMA

    ‘’O amor é o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração.’’ Marcel Proust   O medo era uma sombra que se alongava pelas aldeias, anunciado pelo bater de asas que escurecia o sol. Eu, Samara, que sempre encontrei conforto no simples aroma das ervas e na ordem serena do meu pequeno jardim de cura, via agora o caos personificado tingir o horizonte de brasa. Das entranhas da terra, onde a luz não ousa penetrar, um mal ancestral emergira sob a forma de um dragão de escamas rubras, convocado pela feitiçaria de uma alma corrompida. Ainda assim, no peito, a lembrança de um olhar terno e promessas sussurradas ao pé da fogueira me mantinha firme, como uma chama que nenhum vendaval poderia extinguir. Aquele com quem divido meus sonhos, Gabriel, conhecido pela força descomunal de seus braços e por sua índole impetuosa, jamais hesitaria diante de tamanha ameaça. Lembro-me da primeira vez que o vi, sua pele clara contrastando com a madeira escura do machado que manuseava...