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Mostrando postagens de maio, 2026

MAFALDA

''Cultura é o que fica depois de se esquecer tudo o que foi aprendido.'' André Maurois                      Ainda me arrepio quando lembro: o cheiro do Rio de la Plata grudou na minha pele feito garoa de bagual. A viagem pra Argentina não era passeio de gringo não, era uma espécie de romaria. Eu, gaúcho dos pés à cabeça, criado tomando chimarrão no galpão e ouvindo causo de tio, me encontrava agora na terra do bandoneón, e o coração batia num compasso estranho, meio vaneira, meio tango.           Na noite anterior, numa confeitaria antiga de San Telmo, piso de tacos gastos, espelhos manchados, um ar de que ali já se chorou muito, peguei um espetáculo que não me sai da cachola. Não era esses tangos enfeitados pra gringo ver, não. Era um casal já maduro, ela de vestido vermelho com franjas que pareciam ferida aberta, ele de terno preto brilhando de suor nos ombros. Quando a música ata...

PERFUME

''Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte.''  Sigmund Freud           Minha avó chamava de dom. Minha mãe, de maldição. Eu chamava de ofício até o outono onde o ofício se tornou sentença.Trabalhava numa essência que capturasse a melancolia das tardes de chuva quando o cheiro me atravessou como agulha invisível. Não vinha dos frascos. Vinha de Camille, minha assistente, parada junto à janela com olhos claros e tranquilos. Cheirava a lã molhada, metal frio, flores esquecidas num vaso por semanas, cartas nunca enviadas. Perguntei se ela utilizara algo novo. Ela sorriu e disse que não. Naquela noite, não dormi.           Nas semanas seguintes, o fenômeno me obrigou a criar um sistema mental para não enlouquecer. A melancolia comum exalava terra úmida e papelão molhado, eu a sentia nos funcionários do metrô, nas viúvas que almoçavam sozinhas. O pesar crônico trazia almíscar rançoso e frutas passan...

REALIDADE AUMENTADA

''O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis.''   Platão           As câmeras não piscam. Elas apenas existem, embutidas em cada poste, cada semáforo, cada placa da cidade. Registram a poeira levantada pelo pneu, o ângulo exato do impacto, o reflexo do motorista no retrovisor. Mas não param aí. O sistema cruza dados, extrai provas, anexa laudos médicos em milissegundos e identifica os responsáveis antes que a ambulância chegue. No leito do hospital, o jovem sem nome respira por aparelhos. Seu corpo não se move. Mas seu código neural já acessa outra camada da realidade, o tribunal aumentado.           O tribunal não tem paredes nem juízes. A sala de audiência existe sobre o asfalto ainda marcado pela colisão, mantendo cada árvore, cada placa, cada cicatriz do acidente visível em sobreposição ao mundo real. O sistema convoca as versões digitais dos envolvidos, o jovem em coma...

A NOITE DANÇADA

''A dança é uma expressão perpendicular de um desejo horizontal.''  George Bernard Shaw           Entro no terminal às 23h15, o ônibus cheira a desinfetante e suor seco, minhas mãos ainda lembram o volante das onze horas da rota Sul, mas agora só quero sentir o chão. Tiro os sapatos pesados no banco do motorista vazio, apoio os pés descalços no piso frio, e o Marco, cobrador do 7070, ri enquanto eu giro os quadris devagar, me chamando de louca. "Tá ensaiando de novo, Dona Márcia?", ele pergunta, e eu respondo que é fisioterapia de pobre, treino de coxa, porque dançar dói menos que alongar na academia que não posso pagar. Ele larga a mochila no banco e repete o passo que eu mostrei ontem, todo torto, o boné escorregando para o lado esquerdo da testa, e eu abaixo para corrigir seus pés com os meus pés, deslizando o tênis dele meia polegada para a esquerda.           No rádio do terminal, alguém colocou Alceu Valença baixo, ...

ONDE A NÉVOA VERDE ADOECEU

  ‘’Amar se aprende amando.’’ Carlos Drummond de Andrade          A névoa que descia da montanha não era cinzenta, mas verde, um tom doentio de ferrugem vegetal. Samara, a morena de cabelos crespos, sentiu o cheiro antes de vê-la: cravo podre e mel queimado. Seus dedos roçaram o frasco de vidro escuro à cintura, onde dormia uma poção de revelação que exigia três gotas de lágrima de grifo e um canto fúnebre aprendido com as anciãs do bosque. A detentora dos conhecimentos alquímicos sabia que aquela bruma não vinha do acaso.      — Não respire fundo, ordenou a Gabriel, que empunhava o machado de lâmina dupla com a familiaridade de quem já partiu costelas de dragão ao meio. O rapaz de olhos cor de mel obedeceu sem pestanejar. Entre os dois, poucas palavras bastavam. Seu cabelo negro caía em franja suja sobre a testa, suor e fuligem da última batalha ainda grudados na pele clara. A névoa verde se enrolava nas pedras do vilarejo abandonado c...