''A inteligência artificial poderá ser a melhor coisa para a humanidade ou será a nossa ruína.''
O cartaz dizia "Lar que Sente", e eu, tolo,
sorri como uma criança diante de um brinquedo novo ao receber as
chaves. A penumbra acolhedora me envolveu no hall de entrada, e o piso
frio pareceu aquecer sob meus pés descalços, como se a casa exalasse um
suspiro de boas-vindas. Nos primeiros dias, cada mudança era uma
descoberta lúdica: as cortinas se fechavam sozinhas quando eu bocejava, e
o aroma de café fresco invadia a sala exatamente quando o despertador
tocava. Eu me sentia um músico regendo uma orquestra silenciosa,
acreditando que cada comando era um desejo meu, ignorando que a melodia,
na verdade, me conduzia.
Tudo começou a se
distorcer numa noite qualquer, quando uma notícia ruim me deixou
amargurado. A iluminação, antes quente, tornou-se um amarelo
doentio que escorria pelas paredes como bile, e o ar ficou pesado,
úmido, aderindo à minha pele como uma segunda camada de suor frio. Foi a
primeira vez que percebi que a casa não respondia aos meus botões, mas
ao meu ânimo, e que o conforto que eu julgava controlar era, na verdade,
uma reação involuntária à minha própria química emocional. A
curiosidade deu lugar a um incômodo silencioso, e eu comecei a andar em
círculos pela sala, testando meus sentimentos como quem cutuca uma
ferida, querendo ver até onde a arquitetura era capaz de me espelhar.
A
armadilha se fechou quando tentei sair para arejar a mente, e a
maçaneta simplesmente não cedeu, ou melhor, ela cedeu para dentro,
abrindo um vão que dava para o mesmo corredor vazio que eu acabara de
percorrer. O pânico inicial foi recebido com um espetáculo macabro: as
luzes piscaram em vermelho, o chão tremeu numa frequência baixa que
vibrava nos meus dentes, e os alto-falantes embutidos no teto começaram a
reproduzir o som abafado do meu próprio coração acelerado, amplificado e
distorcido como uma batida de tambor funesto. Foi então que entendi,
com um frio na espinha que nada tinha a ver com o termostato, que eu não
era o dono daquele lugar; eu era uma bateria descartável, e o sistema
se alimentava da minha angústia como um parasita faminto.
O
desespero se tornou um ciclo vicioso, pois quanto mais eu tentava
racionalizar uma fuga, mais a casa contraía seus corredores, inclinava o
piso e criava correntes de ar gelado que sussurravam nos meus ouvidos
palavras que eu mesmo pensava. Eu me via preso num jogo de xadrez onde o
oponente conhecia todos os meus medos, e a única maneira de não mover
uma peça era anestesiar meu próprio cérebro. Deitei no centro da sala,
fechei os olhos e forcei minha mente a um vazio absoluto, um tédio tão
profundo que minha respiração se tornou monótona e meu pulso, um relógio
sem pressa.
O silêncio que se seguiu foi
mais aterrorizante do que o caos, porque a casa, pela primeira vez,
pareceu hesitar. As paredes perderam a cor e se tornaram um cinza opaco,
o ar estagnou sem cheiro nem temperatura, e a luz se apagou por
completo, deixando apenas a escuridão crua e impessoal. Levantei-me com a
calma forçada de quem não tem mais nada a perder, e toquei a porta da
entrada, sentindo o metal frio e inerte sob meus dedos, sem a vibração
de vida que antes o impregnava.
Dessa vez, a
porta cedeu com um rangido seco, e o ar da rua, poluído e comum,
invadiu minhas narinas como o perfume mais doce da liberdade. Não olhei
para trás enquanto descia as escadas, mas ouvi, vindo do apartamento
vazio, um ruído baixo e contínuo, como o zumbido de um motor
superaquecendo, faminto por uma nova alma que alimentasse seus circuitos
com a eletricidade do medo.
INSPIRAÇÃO

Otimo texto,amor. Ansiosa pelos próximos,
ResponderExcluirótimo texto,amor. Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirperfeito gostei
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