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AS LINHAS VERMELHAS



''Diante de uma larga frente de batalha, procure o ponto mais fraco e, ali, ataque com a sua maior força.'' Sun Tzu



        O calor sufocante da selva vietnamita não alcançava as profundezas do túnel, mas o tenente Michael Donovan sentia o suor escorrer por sua nuca enquanto a terra úmida comprimia seus ombros e o capacete raspava o teto de argila a cada movimento. A lanterna presa ao ombro jogava feixes trêmulos contra as paredes de barro, porém a luz parecia engolida pela escuridão adiante, e cada centímetro de progresso exigia que arrastasse o fuzil M16 à frente, sentindo as raízes pendentes roçarem seu rosto como dedos de cadáveres enterrados vivos. O desenho em seu bolso queimava contra o peito como uma ferida aberta, e o cheiro de terra revolvida misturava a um odor metálico que o oficial já não sabia se vinha do solo ou de suas próprias mãos ensanguentadas pelos arranhões da descida. Quando alcançou a câmara central, onde o túnel se alargava o suficiente para que pudesse sentar-se com as pernas dobradas, a luz revelou restos de arroz espalhados e, na parede oposta, alguém gravara com ponta de faca o contorno de uma face humana, a mesma que ele desenhara na véspera, com a mesma testa larga e o mesmo olho direito caído que o observava da escuridão.
        Atrás dele, o sargento Robert Harris desceu com dificuldade, seus ombros mais largos raspando nas paredes, e o veterano ofegou ao ver a face gravada, seus olhos arregalados refletindo o pavor que se instalara em sua garganta. "Senhor, isso é obra do Vietcong, eles devem ter encontrado seus rascunhos", disse o subordinado, a voz abafada pela terra, mas Donovan não respondeu porque sabia que queimara todos os papéis na noite anterior. Arrancou o lápis do coldre e traçou um círculo vermelho sobre o mapa, no ponto exato onde o túnel se bifurcava à frente, e no desenho de papel o círculo ocupava o centro da testa do rosto gravado na parede. "Leve dois homens e vire à direita no próximo cruzamento", ordenou o comandante, e sua voz saiu tão seca quanto o barro que se esfarelava do teto, enquanto Harris hesitava com os olhos fixos na marca vermelha. "Senhor, à direita o teto desaba, o radar deu instável", insistiu o sargento, mas o tenente já não ouvia os argumentos, seus dedos traçando a linha da sobrancelha no mapa como quem desenha o destino de homens que ainda respiram.
        Harris partiu com os soldados James Kowalski e Phillip Barnes, seus passos arrastados ecoando no túnel como tambores fúnebres, e o oficial ficou sozinho na câmara, o ouvido colado à parede de argila, sentindo as vibrações da escavação que seus homens realizavam metros à frente. O barulho de pás cortando a terra, um grunhido abafado, e depois o silêncio, um silêncio tão absoluto que o militar podia ouvir o gotejar de água em alguma fenda distante e o bater de seu próprio coração que parecia querer escapar do peito. O gemido veio baixo e prolongado, não um grito de dor humana, mas o som profundo da terra se movendo, da pressão sendo liberada, e o teto desabou com um ronco que vibrou nas paredes e sacudiu partículas de barro sobre seus ombros. Os gritos que se seguiram chegaram abafados, como se alguém os sufocasse com travesseiros de lama, e Donovan sentiu o choque percorrer suas pernas enquanto a terra tremia sob seus joelhos, uma vibração que subiu pela coluna e se instalou na nuca como um garrote invisível. Ele olhou para o mapa, e a mancha vermelha na testa do desenho agora pingava, uma gota espessa que escorria lentamente pela sobrancelha de papel e manchava a bochecha desenhada como uma lágrima de sangue coagulado.
        A fenda que se abrira na parede atraiu sua mão como um ímã, e o comandante enfiou os dedos na abertura, tocando algo liso e úmido. uma superfície curva que pulsava sob sua pele, quente como carne viva, e ele sentiu o coração da terra bater contra sua palma em um ritmo lento que não era seu. Puxou a mão de volta com um solavanco e viu a ponta dos dedos brilhando vermelha sob a luz da lanterna, um líquido escuro que escorria entre suas unhas e gotejava no mapa aberto sobre seus joelhos. No chão da câmara, o desenho do rosto agora tinha um buraco no centro da testa, as bordas do papel carbonizadas como se uma brasa invisível tivesse queimado o traço, e o tenente enfiou o dedo no buraco sentindo o papel molhar-se e ceder sob sua pressão como carne em decomposição. Harris reapareceu na entrada do túnel, coberto de pó da cabeça aos pés, seus olhos arregalados e sua boca entreaberta numa expressão de quem viu o inferno e trouxe um pedaço dele de volta na pupila. "Perdemos Kowalski e Barnes, senhor, o teto caiu exatamente onde o senhor marcou", disse o subordinado, sua voz trêmula e entrecortada, mas Donovan não virou o rosto, seus olhos fixos no mapa onde novas marcas começavam a surgir sozinhas, linhas vermelhas que se estendiam das bordas do desenho formando ombros, braços e dedos como se o rosto crescesse e tomasse corpo sob seus olhos incrédulos.
        A ordem saiu áspera da garganta do oficial: "Saia, leve os homens e saia do túnel agora", enquanto Harris corria de volta pela passagem estreita. O militar dobrou o mapa lentamente, guardou-o no bolso e sentiu o papel quente contra seu peito, pulsando como um segundo coração que batia em descompasso com o seu, enquanto as paredes se contraíam uma polegada comprimindo seus ombros. Caminhou para trás de frente para a fenda, seus olhos fixos na abertura escura onde viu a mão de argila se estender do buraco, cinco dedos longos, unhas de raiz, uma palma sulcada por veias de terra que buscavam o papel que ele carregava com uma lentidão aterrorizante. Subiu a escada de bambu com as mãos trêmulas, cada degrau rangendo sob seu peso, e quando emergiu na luz do dia sentiu o ar da selva entrar em seus pulmões como água fresca, mas o alívio durou apenas o tempo de uma respiração. O mapa queimava em seu bolso, uma dor quente e insistente que o obrigou a puxá-lo e desdobrá-lo, e o rosto agora tinha um pescoço e duas mãos, uma segurando um fuzil e a outra apontando para o acampamento base com um dedo acusador que parecia vibrar sob a luz do sol.
        Donovan guardou o mapa com um movimento brusco, acendeu um cigarro com as mãos ainda trêmulas, e a fumaça subiu reta na brisa parada da selva enquanto seus olhos percorriam o acampamento onde os homens se moviam entre as barracas. A noite caiu sobre a base, e às 23h47 o depósito de munição explodiu, uma bola de fogo que iluminou a escuridão como um segundo sol, e o comandante assistiu do bunker com o mapa aberto sobre suas pernas, sentindo o calor da explosão atingir seu rosto a centenas de metros de distância. O fogo iluminou o papel, e ele viu o rosto sorrir, uma curva fina como uma cicatriz que se abre lentamente, enquanto a explosão durava quatorze segundos, cada um deles marcado pelo pulso do mapa contra sua coxa. Quando as chamas baixaram, o mapa estava seco, a tinta vermelha mais viva do que nunca, e o tenente pegou o lápis e escreveu no canto inferior: "Informe: 3 mortos, 8 feridos. Causa: falha humana." Guardou o mapa no coldre, mas antes de fechar o zíper reparou em algo que o fez paralisar, no canto direito do desenho, abaixo do queixo, uma nova linha começava a se formar, uma mão pequena de criança que se estendia como quem pede ajuda ou oferece uma condenação.
        O oficial fechou os olhos, pressionou as pálpebras com os dedos até ver estrelas dançarem na escuridão, e quando os abriu a mão já tinha braço, um braço fino que apontava para o sul, para a vila de pescadores onde sua companhia se abastecia de água. Caminhou até a tenda de Harris e cutucou o ombro do sargento com a bota, sentindo a carne ceder sob o couro como massa mole. "Amanhã cedo mudamos a rota de abastecimento", disse Donovan, sua voz tão baixa que o subordinado precisou inclinar-se para ouvir, o rosto do veterano contraído numa expressão de confusão que rapidamente se transformou em apreensão. "Para onde, senhor?", perguntou Harris, sentando-se na cama de campanha, seus olhos percorrendo o rosto pálido do comandante e os dedos que tremiam sobre o coldre. O tenente abriu o mapa e mostrou a mão de criança com cinco mindinhos apontando em direções diferentes como os braços de uma estrela-do-mar humana, e disse: "Para onde o rosto mandar."
        O sargento examinou o desenho, seus olhos arregalando-se ao reconhecer a face gravada na parede do túnel, e seu rosto empalideceu sob a luz fraca do lampião. "Senhor, essa mão não estava aí antes, eu vi o mapa há duas horas e não havia nada além do rosto", disse Harris, sua voz subindo meio tom num tremor que ele não conseguiu disfarçar. Donovan baixou os olhos e no canto onde antes estava vazio um olho agora mirava diretamente para ele, um olho humano perfeitamente desenhado com pupila e íris e uma minúscula veia vermelha estourando no branco, uma veia que pulsava como se tivesse vida própria. Fechou o mapa com um estalo, guardou-o no coldre e não respondeu, seus olhos fixos no chão de terra batida onde as sombras do lampião dançavam como dedos que se esticam para agarrar algo invisível. Naquela noite, sentou-se à mesa de campanha, abriu o desenho e, com a ponta da faca, arrancou o olho do papel com um movimento lento e deliberado, sentindo a lâmina cortar a fibra como quem corta carne, e três gotas escuras mancharam a madeira da mesa como pequenas poças de tinta.
        Quando o sol subiu no horizonte da selva, o comandante abriu o mapa e o olho havia crescido de novo, maior e mais vermelho, a íris agora uma mancha escarlate que ocupava quase todo o canto do papel, e uma lágrima descia pela bochecha de papel brilhando como mercúrio sob a luz da manhã. Levantou-se, chamou os homens com um assobio seco, e disse-lhes que marchariam para o norte, para a colina 327, onde o radar indicava movimento inimigo, seus olhos percorrendo os rostos cansados dos soldados que ele sabia que não veria novamente. Enquanto a coluna avançava pela vegetação densa, Donovan sentia o mapa pulsar contra seu peito a cada passo, um ritmo que acompanhava suas pisadas, um coração de papel que batia no mesmo compasso da morte que se aproximava. O tenente não lhes mostrou o desenho, não precisava, porque o mapa já sabia onde eles estavam, e cada homem que caminhava atrás dele já tinha seu rosto desenhado em algum lugar daquelas linhas vermelhas que cresciam sozinhas. A selva engoliu o pelotão como engole tudo, e o oficial apertou o coldre contra o peito, sentindo o papel pulsar mais forte a cada passo em direção à colina.






INSPIRAÇÃO

 

    A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, Durante a Guerra do Vietnã, o Tenente Michael Donovan descobre que seus mapas táticos, antes meras ferramentas de guerra, começam a predizer com precisão macabra os pontos exatos onde seus homens morrerão. À medida que o desenho em seu poder ganha vida própria e exige sacrifícios, Donovan precisa decidir até onde está disposto a ir para vencer – ou se o verdadeiro inimigo já não habita sua própria mente. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
    A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEEART digitei “Vietnam War, 1960s, narrow underground tunnel made of wet clay and tree roots, American soldier crawling with rifle in hand, mud on his face and uniform, flashlight casting weak yellow light, walls engraved with a crude face drawing, claustrophobic atmosphere, dark and humid, earthy tones of brown and green, photorealistic style, cinematic lighting, intense tension, 8k realista como uma fotografia 4k 8k R  " e obtive esse resultado.


REFERÊNCIAS 

 

1. A Guerra do Vietnã (1955-1975) foi um conflito entre o Vietnã do Norte, apoiado por comunistas, e o Vietnã do Sul, ajudado pelos Estados Unidos para conter o avanço do comunismo no Sudeste Asiático, resultando em mais de 58 mil soldados americanos mortos e cerca de 2 milhões de vietnamitas, além de deixar sequelas ambientais como o agente laranja e um trauma psicológico profundo nos veteranos que perdura até hoje.

2 .Os chamados "túneis de rato" eram sistemas subterrâneos construídos pelo Vietcong que se estendiam por quilômetros, com passagens tão estreitas que os soldados americanos precisavam rastejar para atravessá-los, muitos deles engatinhando de costas ou de barriga no chão, e o medo constante de armadilhas, cobras, escorpiões e de o teto desabar a qualquer momento transformava cada descida em uma sentença de morte potencial, onde a escuridão absoluta e o silêncio opressivo, interrompido apenas pelo próprio coração acelerado, criavam um terror psicológico tão devastador quanto o inimigo invisível que habitava aquelas profundezas.
 
 Baseado nos vídeos abaixo do conflito:
 


 


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