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INVISÍVEL

''O governo, mesmo quando perfeito, não passa de um mal necessário; quando imperfeito, é um mal insuportável.'' Thomas Paine



    Desde pequeno, Binho aprendeu que a vida era uma questão de sobrevivência. Ele cresceu entre os becos apertados e os morros do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Não conhecia pai, mãe ou qualquer parente próximo; o que tinha era o carinho e a lealdade de seus amigos, que, como ele, viviam sem documentos, sem registros, sem rastros. Invisíveis para o Estado. Nas estatísticas, o rapaz não existia, e talvez fosse melhor assim.

    Seu apelido, Binho, era a única identidade que possuía, herdado sabe-se lá de onde. Sem CPF, sem certidão, sem acesso a escola ou hospital, ele cresceu como podia. Ainda criança, foi aos poucos entendendo as regras não ditas que sustentavam a favela. As leis não vinham de Brasília; eram ditadas pelos que mandavam com um fuzil nas mãos. Desde cedo, ele viu que havia apenas dois destinos para quem não aceitava essas regras: o cemitério ou a vala do esquecimento.

    Foi ali, com uns quatorze ou quinze anos, que o garoto pegou seu primeiro fuzil. A arma parecia pesada demais para seus braços magros, mas a sensação de poder e respeito que sentiu ao segurá-la pela primeira vez era algo que nunca tinha experimentado. De alguma forma, ali ele deixava de ser invisível. Os olhares de aprovação de outros jovens da comunidade o validavam, o faziam sentir-se parte de algo maior, mesmo que soubesse que o preço era alto. Ele agora tinha uma "família", que o acolhia e lhe ensinava o que significava ser homem em um mundo onde a violência era a única língua compreendida.

    Durante a noite, o adolescente patrulhava os becos e observava o movimento lá embaixo, na cidade, com suas luzes cintilantes e seus prédios altos, uma realidade que parecia distante e inalcançável. Às vezes, se pegava imaginando como seria atravessar o túnel, sair dos morros, viver uma vida normal. Mas ele sabia que, para ele, essa era uma fantasia reservada para aqueles que tinham um nome, um documento, que existiam para o mundo. Não para ele, que era apenas mais um "menor" na contagem de muitos outros, nascidos e esquecidos pelo sistema.

    Aos dezessete anos, o jovem já era conhecido entre os seus pela frieza com que lidava com situações de risco. Conquistou seu espaço e, junto dele, a confiança dos chefes. Já tinha aprendido a esconder o medo, a desviar dos olhares suspeitos dos vizinhos e das armadilhas montadas pela polícia. Mas não havia como desviar do destino que aguardava quem vive assim, sobre a mira dos inimigos e da própria comunidade. O seu maior inimigo, contudo, sempre foi o tempo, que inevitavelmente cobrava o preço de uma vida que ele sabia que podia se encerrar em qualquer momento.

    Em uma tarde abafada, enquanto montava guarda no beco principal da comunidade, avistou o carro preto da polícia. Já havia se acostumado com as abordagens repentinas, mas aquela parecia diferente. O silêncio repentino no rádio, os passos apressados de seus parceiros tentando cobrir as áreas de fuga... Ele sentiu que algo estava errado.

    Quando os tiros começaram, tudo aconteceu rápido demais. O som dos disparos ecoava pelo morro como uma tempestade de ferro e pólvora. Binho, cercado, tentou escapar pela viela, mas não teve tempo de correr. Sentiu o impacto no peito antes de ver o sangue manchar sua camisa. Caiu no chão de terra batida, a arma ainda firme nas mãos. Não houve despedidas, nem um último olhar. Ele era apenas mais um.




INSPIRAÇÃO

 



    A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, Em uma viela sombria do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, um jovem sem identidade oficial, conhecido apenas como Binho, vê-se preso ao ciclo da violência, armado e solitário. Inspirado pelas temáticas cruas de Cidade de Deus e Tropa de Elite, o conto explora a invisibilidade daqueles esquecidos pelo sistema, sem documentos e sem futuro, vivendo à sombra de um Estado que não os reconhece e inspirado em uma reflexão de um professor da faculdade. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT, digitei ''Criar imagem realista "Em uma viela estreita e sombria de uma favela no Rio de Janeiro, um jovem conhecido apenas como Binho segura um fuzil com um olhar determinado e sombrio. Ele veste roupas simples, aparenta ter uma vida dura e um passado pesado. Ao seu redor, há paredes de tijolos com grafites e sinais de abandono, enquanto luzes fracas iluminam a cena, refletindo a atmosfera tensa e perigosa. Ao fundo, vê-se as luzes da cidade, distantes e inatingíveis, sugerindo o contraste entre a favela e o mundo lá fora. A cena transmite um ambiente de realismo e tragédia urbana." e obtive esse resultado.  

 


Comentários

  1. Bruno Diniz (Inspire.se.bruno)7 de novembro de 2024 às 08:56

    Excelente texto como sempre, meu amigo. Parabéns pela fluidez nas palavras que nos faz imaginar exatamente a imagem que vemos no final dos textos ratificando o pensamento. Parabéns mesmo!

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  2. Ótimo texto, reflexivo e impactante!

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