''A terra ensina-nos mais acerca de nós próprios do que todos os livros. Porque ela nos resiste.''
O céu era um manto opaco, desprovido da familiaridade azul que eu lembrava. As nuvens pareciam formar padrões que me observavam, seus contornos pulsando com um sussurro invisível. Após dez anos no espaço profundo, eu esperava que meu retorno à Terra fosse um alívio, mas ao abrir a escotilha da cápsula de reentrada, encontrei um mundo que não deveria existir.
O ar era diferente – mais pesado, como se cada molécula carregasse uma carga de significados ocultos. O solo, onde esperava encontrar a poeira do deserto onde pousaríamos, era de uma textura estranha, lembrando pele ressecada. Árvores retorcidas se erguiam ao longe, seus galhos curvados como dedos em súplica. “Missão concluída”, murmurei para mim mesmo, mas minha voz parecia afundar no espaço ao redor, absorvida por algo maior.
Quando cheguei à primeira cidade – ou ao que pensei ser uma cidade – percebi que os edifícios não respeitavam mais as geometrias que eu conhecia. Eram tortuosos, com ângulos que pareciam escorrer um para dentro do outro, em uma arquitetura que desafiava a compreensão. Homens e mulheres – se ainda podiam ser chamados assim – perambulavam em silêncio. Suas peles eram lisas e brilhantes, quase translúcidas, e seus olhos não tinham íris, apenas abismos negros onde eu sentia que algo me observava de volta.
Tentei falar com um deles. Me aproximei de uma figura que parecia um vendedor em uma banca, mas as palavras que saíram da minha boca encontraram apenas sons estranhos em resposta. Ele falou em uma língua que não era nenhuma das que eu estudara era uma melodia dissonante, carregada de significados tão antigos que minha mente doía ao tentar compreendê-los.
Tentei explicar quem eu era, mas a palavra "Terra" foi recebida com risos guturais de vários ao redor. Meu coração afundou. Quando a lua – ou o que parecia ser uma lua, deformada e coberta de cicatrizes vermelhas – subiu no céu, me refugiei em uma estrutura vazia. As paredes pareciam pulsar ao toque, como se o próprio prédio estivesse respirando. Fechei os olhos, mas as imagens vieram como um ataque.
Vi a Terra como ela deveria ser, mas algo estava errado. A Torre Eiffel desmoronava sob ondas de um oceano cinza. Nova York estava envolta em névoa, mas uma névoa que se movia com propósito, cobrindo e devorando tudo. Em algum lugar, no vazio do espaço, um olho colossal se abriu, sua superfície repleta de constelações que piscavam como se fossem pensamentos.
E depois… o silêncio. Mas o pior veio em seguida. Vi eu mesmo. Estava em algum lugar no passado – em minha infância, correndo pelas colinas de minha cidade natal – mas tudo parecia contaminado por uma distorção. Meu pai, ao longe, acenava, mas quando me aproximei, percebi que seus olhos estavam repletos da mesma escuridão que os habitantes desta "nova Terra".
Uma voz – ou algo que se fingia de voz – começou a ecoar na minha mente. Ela chamava meu nome, mas não como um som. Era como uma intrusão em meu cérebro, um pensamento que eu não queria ter. “Você voltou, mas voltou errado.”
Eu tentei ignorar. Caminhei mais pela cidade, mas ela parecia estar mudando enquanto eu andava. As ruas não levavam aos mesmos lugares; o horizonte se retorcia como se eu estivesse dentro de uma pintura sendo apagada e refeita. As pessoas olhavam para mim com mais intensidade, suas bocas começando a sussurrar palavras que pareciam formar meu nome, embora não houvesse som.
Por fim, alcancei algo que parecia um templo. Suas colunas se estendiam infinitamente para cima, desaparecendo na escuridão. Contra minha vontade, meus pés me levaram para dentro. No centro do templo, flutuava uma esfera – um globo pulsante, feito de luz e sombras que se contorciam como criaturas vivas. Olhei para ele e entendi.
Eu não tinha voltado à Terra. Eu havia ultrapassado algum limite no espaço profundo, algum limiar que a humanidade nunca deveria ter cruzado. Meu retorno não foi para o lar que eu conhecia, mas para um reflexo do que poderia ter sido, um futuro onde a Terra havia sido consumida por forças que existiam além do tempo e da compreensão humana.
E a voz… aquela voz era deles. Eles me chamavam de "portador". Eu trazia algo comigo – algo que absorvi durante minha missão, algo que havia sido implantado em mim enquanto eu dormia na cápsula. Eu era o elo entre este mundo e o antigo, e agora eles queriam que eu completasse a transição.
"A Terra não está mais lá," disse a voz final em minha mente, e pela primeira vez, ela parecia ter uma forma física. Olhei ao meu redor e percebi que não havia mais cidade, nem habitantes, nem céu. Apenas escuridão. E um par de olhos colossais, tão grandes quanto galáxias, me encarando. Fui engolido pela eternidade.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, Um astronauta retorna à Terra após uma missão longa no espaço profundo. Contudo, ao chegar, percebe que o planeta está diferente: os continentes mudaram, as pessoas falam uma língua desconhecida e ninguém o reconhece. A tensão aumenta quando ele começa a ver flashes de seu passado misturados com imagens de um futuro apocalíptico Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
REFERÊNCIAS
3. O Planeta dos Macacos (1968), dirigido por Franklin J. Schaffner, é um clássico de ficção científica onde um astronauta, após um acidente, encontra um planeta dominado por macacos inteligentes que subjulgaram os humanos. O filme explora temas de poder, identidade e o destino da humanidade. Sua reviravolta final é uma das mais memoráveis do cinema.

Adorei o texto e à alusão ao fim do mundo.
ResponderExcluirParabéns pelo texto,amor.
ResponderExcluirÓtimo texto, instigante e reflexivo!
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