''A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado.
Era uma tarde cinzenta, daquelas em que o ar parece pesado, carregado de presságios. O quarto estava escuro, exceto pela luz mortiça que atravessava as persianas mal ajustadas. No leito, meu tio Edgar, homem de feições outrora austeras, agora apenas um vulto consumido pela doença, respirava com dificuldade.
Eu, sentado ao seu lado, mantinha-me em silêncio. Não era um homem afetuoso, nem mesmo agradável; sempre fora duro, distante, um poço de segredos e silêncios. Mas ele fora a figura mais próxima de um pai que conheci, e algo em sua fragilidade me compelira a estar ali.
“Arthur,” sua voz soou como o ranger de uma porta velha, baixa e entrecortada. Inclinei-me para ouvi-lo. “Preciso... contar algo. Algo que guardei por muitos anos. É importante.”
Meu coração acelerou. A confissão de um moribundo é sempre um peso; um segredo oferecido no limite entre o mundo dos vivos e o dos mortos. O que poderia ser tão importante que ele sentisse necessidade de liberar, tão próximo do fim?
“Diga, tio,” falei, tentando soar calmo. “Foi em 1972...” Ele parou, a respiração irregular, como se cada palavra lhe custasse um pedaço da alma. “Alice... sua mãe...” Meu corpo enrijeceu. Alice, minha mãe, que havia morrido quando eu era apenas uma criança. Ela era um fantasma em minha vida, uma ausência mais sentida que qualquer presença.
“Ela não morreu como você pensa,” ele continuou, seus olhos brilhando com um terror estranho. “O que quer dizer? Ela morreu num incêndio, não foi? O jornal...” “Não!” Ele se ergueu num rompante, para logo cair novamente, exaurido. “Eu... eu a matei, Arthur. Eu matei sua mãe.”
Senti o chão se abrir sob mim. A mente humana é curiosa nesses momentos; em vez de dor ou fúria, minha reação inicial foi incredulidade. Meu tio, aquele velho severo, mas nunca violento, agora dizia ter cometido o ato mais hediondo que um homem poderia perpetrar. “Você está delirando,” murmurei, tentando encontrar lógica onde não havia nenhuma.
“Não estou,” ele insistiu, cada palavra como um peso esmagador. “Foi uma briga... Ela queria levar você embora, começar uma nova vida longe de mim, longe de tudo. Eu não podia deixar. Perdi a cabeça. Quando vi, ela estava morta.” Houve um silêncio terrível entre nós. Eu não sabia o que dizer. A confissão estava ali, nua e crua, como um cadáver deixado ao relento. Mas então ele continuou.
“Eu forjei o incêndio. Fiz parecer um acidente. E nunca... nunca contei a ninguém. Mas não posso levar isso comigo para o túmulo.” De repente, tudo na minha vida parecia um quebra-cabeça que nunca encaixara direito. O distanciamento de meu tio, seu olhar pesado quando falava de minha mãe, os silêncios carregados de culpa. Agora fazia sentido. Mas ao mesmo tempo, era insuportável.
Aproximei-me dele, fitando-o diretamente. “Por que revelar isso agora?”“Porque,” ele murmurou, a voz quase inaudível, “você merece conhecer a verdade.”Antes que eu pudesse reagir, ele foi acometido por uma última convulsão. Suas pálpebras cerraram-se, e o som gorgolejante de sua respiração cessou. Meu tio Edgar estava morto, levando consigo todos os pormenores que eu jamais descobriria.
Os dias seguintes foram um nevoeiro. Enterro, condolências, uma enxurrada de perguntas sem respostas. Não sabia o que fazer com o que ouvira. Deveria contar a alguém? Ir à polícia? Mas qual seria o propósito? Todos os envolvidos já estavam mortos, e a verdade só causaria mais dor.
Então, uma semana depois, enquanto revistava seus pertences, encontrei uma carta. Era dirigida a mim, com sua caligrafia tremida. Sentei-me, hesitante, e abri o envelope.
“Arthur,
Se está lendo isto, significa que não tive coragem de contar tudo. Mas você merece a verdade completa. Eu disse que matei sua mãe, mas não foi bem assim. A verdade é mais terrível. Ela me obrigou. Ela... Alice, sua mãe, era um perigo. Ela... matou seu pai. Eu descobri tarde demais, mas quando soube, ela ameaçou fazer o mesmo comigo e com você. Eu fiz o que fiz para protegê-lo. Para proteger a mim mesmo.
Por favor, entenda: minha culpa é enorme, mas não sou o monstro que você deve pensar. Ela já havia cruzado uma linha que eu nunca teria coragem de cruzar. Lamento por tudo. Espero que um dia me perdoe.
Tio Edgar.”
Larguei a carta com as mãos trêmulas. Nada mais fazia sentido. Minha mãe, a mulher que por anos idealizei, agora surgia diante de mim como algo que eu jamais poderia imaginar. E meu tio... um assassino, sim, mas talvez também um herói distorcido.
O que fazer com uma verdade dessas? A quem contar? O dilema pesava sobre mim como uma montanha. Por fim, guardei a carta no fundo de uma gaveta, onde ninguém jamais a encontraria. Alguns segredos, pensei, devem morrer com quem os guarda.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, um homem é chamado ao leito de morte de seu tio, um parente distante e misterioso que guarda segredos profundos sobre o passado da família. Em seus últimos momentos, o velho faz uma confissão inesperada, mudando para sempre a percepção do narrador sobre sua própria história. Envolto em dilemas éticos e emocionais, ele precisa decidir o que fazer com a verdade que lhe foi confiada. Um conto de mistério e moralidade em tons vitorianos. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Adorei o texto. Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirInteressante enredo e reviravolta no leito de morte.
ResponderExcluirÓtimo texto!
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