''O governo, mesmo quando perfeito, não passa de um mal necessário; quando imperfeito, é um mal insuportável.''
Desde pequeno, Binho aprendeu que a vida era uma questão de sobrevivência. Ele cresceu entre os becos apertados e os morros do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Não conhecia pai, mãe ou qualquer parente próximo; o que tinha era o carinho e a lealdade de seus amigos, que, como ele, viviam sem documentos, sem registros, sem rastros. Invisíveis para o Estado. Nas estatísticas, o rapaz não existia, e talvez fosse melhor assim.
Seu apelido, Binho, era a única identidade que possuía, herdado sabe-se lá de onde. Sem CPF, sem certidão, sem acesso a escola ou hospital, ele cresceu como podia. Ainda criança, foi aos poucos entendendo as regras não ditas que sustentavam a favela. As leis não vinham de Brasília; eram ditadas pelos que mandavam com um fuzil nas mãos. Desde cedo, ele viu que havia apenas dois destinos para quem não aceitava essas regras: o cemitério ou a vala do esquecimento.
Foi ali, com uns quatorze ou quinze anos, que o garoto pegou seu primeiro fuzil. A arma parecia pesada demais para seus braços magros, mas a sensação de poder e respeito que sentiu ao segurá-la pela primeira vez era algo que nunca tinha experimentado. De alguma forma, ali ele deixava de ser invisível. Os olhares de aprovação de outros jovens da comunidade o validavam, o faziam sentir-se parte de algo maior, mesmo que soubesse que o preço era alto. Ele agora tinha uma "família", que o acolhia e lhe ensinava o que significava ser homem em um mundo onde a violência era a única língua compreendida.
Durante a noite, o adolescente patrulhava os becos e observava o movimento lá embaixo, na cidade, com suas luzes cintilantes e seus prédios altos, uma realidade que parecia distante e inalcançável. Às vezes, se pegava imaginando como seria atravessar o túnel, sair dos morros, viver uma vida normal. Mas ele sabia que, para ele, essa era uma fantasia reservada para aqueles que tinham um nome, um documento, que existiam para o mundo. Não para ele, que era apenas mais um "menor" na contagem de muitos outros, nascidos e esquecidos pelo sistema.
Aos dezessete anos, o jovem já era conhecido entre os seus pela frieza com que lidava com situações de risco. Conquistou seu espaço e, junto dele, a confiança dos chefes. Já tinha aprendido a esconder o medo, a desviar dos olhares suspeitos dos vizinhos e das armadilhas montadas pela polícia. Mas não havia como desviar do destino que aguardava quem vive assim, sobre a mira dos inimigos e da própria comunidade. O seu maior inimigo, contudo, sempre foi o tempo, que inevitavelmente cobrava o preço de uma vida que ele sabia que podia se encerrar em qualquer momento.
Em uma tarde abafada, enquanto montava guarda no beco principal da comunidade, avistou o carro preto da polícia. Já havia se acostumado com as abordagens repentinas, mas aquela parecia diferente. O silêncio repentino no rádio, os passos apressados de seus parceiros tentando cobrir as áreas de fuga... Ele sentiu que algo estava errado.
Quando os tiros começaram, tudo aconteceu rápido demais. O som dos disparos ecoava pelo morro como uma tempestade de ferro e pólvora. Binho, cercado, tentou escapar pela viela, mas não teve tempo de correr. Sentiu o impacto no peito antes de ver o sangue manchar sua camisa. Caiu no chão de terra batida, a arma ainda firme nas mãos. Não houve despedidas, nem um último olhar. Ele era apenas mais um.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, Em uma viela sombria do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, um jovem sem identidade oficial, conhecido apenas como Binho, vê-se preso ao ciclo da violência, armado e solitário. Inspirado pelas temáticas cruas de Cidade de Deus e Tropa de Elite, o conto explora a invisibilidade daqueles esquecidos pelo sistema, sem documentos e sem futuro, vivendo à sombra de um Estado que não os reconhece e inspirado em uma reflexão de um professor da faculdade. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Excelente texto como sempre, meu amigo. Parabéns pela fluidez nas palavras que nos faz imaginar exatamente a imagem que vemos no final dos textos ratificando o pensamento. Parabéns mesmo!
ResponderExcluirÓtimo texto, reflexivo e impactante!
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