‘’O amor é o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração.’’ Marcel Proust O medo era uma sombra que se alongava pelas aldeias, anunciado pelo bater de asas que escurecia o sol. Eu, Samara, que sempre encontrei conforto no simples aroma das ervas e na ordem serena do meu pequeno jardim de cura, via agora o caos personificado tingir o horizonte de brasa. Das entranhas da terra, onde a luz não ousa penetrar, um mal ancestral emergira sob a forma de um dragão de escamas rubras, convocado pela feitiçaria de uma alma corrompida. Ainda assim, no peito, a lembrança de um olhar terno e promessas sussurradas ao pé da fogueira me mantinha firme, como uma chama que nenhum vendaval poderia extinguir. Aquele com quem divido meus sonhos, Gabriel, conhecido pela força descomunal de seus braços e por sua índole impetuosa, jamais hesitaria diante de tamanha ameaça. Lembro-me da primeira vez que o vi, sua pele clara contrastando com a madeira escura do machado que manuseava...
''Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte.'' Sigmund Freud O primeiro era um homem de cinquenta e três anos, enfarte do miocárdio. Nada de especial. Abri o tórax, pesei os órgãos, coletei fluidos. Quando cheguei ao rosto, parei. Os músculos faciais contraíram de um modo que a morte não explica. Rigor mortis não produz serenidade. Não produz aquilo. As pálpebras meio cerradas, os cantos da boca erguidos numa fração que não chegava a sorriso, os sulcos da testa completamente apagados. Alguém que tivesse visto aquele homem no caixão diria que ele parecia em paz. Eu sabia que não era paz. Era reconhecimento. Como se nos últimos segundos, entre o início da isquemia e o apagamento definitivo, ele tivesse visto algo que esperava há muito tempo. Documentei como "expressão atípica pós-óbito" e arquivei. O segundo veio três semanas depois. Mulher, quarenta e um anos, afogamento ...