Pular para o conteúdo principal

A INQUILINA

 ''Estamos todos condenados à prisão solitária dentro de nossa própria pele, por toda a vida.'' Tennessee Williams


        O despertador tocou e Clara abriu os olhos. O teto do hospital era o mesmo de sempre, branco com uma mancha úmida no canto. Ela virou o rosto e viu a mãe dormindo na poltrona, o pescoço torto, o rosto marcado pelo vinco do travesseiro de viagem. Clara sentiu algo que deveria ser amor, mas era apenas uma constatação: aquela mulher cuidou de mim.

        Os médicos comemoraram sua recuperação. Falaram em milagre, em sorte, em vontade de viver. Clara ouvia e acenava, mas não entendia o entusiasmo. Claro, o acidente foi grave, o coma durara meses, mas agora ela estava acordada. Ponto. Não havia motivo para lágrimas.

        A primeira vez que percebeu foi no elevador. Um homem entrou com um cachorro no colo, um pinscher minúsculo que rosnava mostrando os dentes. O homem sorriu, sem graça, pediu desculpas. Clara olhou para o cachorro, para os olhos pretos e brilhantes, para os dentes minúsculos, e não sentiu nada. Nem aceleração do coração, nem vontade de recuar. O elevador desceu seis andares e ela apenas observou o animal como observaria uma planta.

        No apartamento, assistiu a um filme de terror. No auge, quando o assassino aparecia atrás da porta, Clara pegou o celular e respondeu a mensagens. A tela do computador mostrava pessoas gritando, mas dentro dela era só silêncio. A sombra apareceu três noites depois.

        Clara acordou com sede e foi até a cozinha. A luz da rua entrava pela janela, e no chão, projetada contra a parede, uma silhueta se movia. Não era a dela, o braço direito de Clara estava engessado, mas a sombra movia os dois braços livremente. Era uma silhueta feminina, do seu tamanho, mas que caminhava em círculos lentos, como uma fera reconhecendo o território. Clara acendeu a luz. A sombra sumiu. 

        Nas noites seguintes, ela voltava. Sempre no mesmo horário, sempre andando em círculos. Certa vez, Clara deixou a luz apagada e apenas observou. A sombra parou de andar. Virou-se devagar, como se sentisse o olhar, e encarou ela com o rosto vazio. Então ergueu a mão direita e tocou a parede com a palma. O movimento era estranho, artificial, como quem aprende a usar o corpo pela primeira vez.

        No outro dia, o braço engessado de Clara coçava. Mas não o braço inteiro, apenas a mão, a palma, exatamente onde a sombra tocara a parede. Começou a ver mais. A sombra a seguia pelos cômodos, sempre nos cantos dos olhos, sempre desaparecendo quando Clara virava o rosto. No espelho do banheiro, por um instante, viu seu reflexo mexer a boca como se fosse falar, mas nenhum som saiu. E o reflexo parecia com medo. Os olhos do reflexo estavam arregalados, as pupilas dilatadas, o corpo tenso.

        Clara, em pé diante do espelho, sentia apenas curiosidade. Na madrugada de sábado, acordou com o colchão afundando ao lado. Alguém estava sentado na cama. Não conseguia mexer o corpo, apenas os olhos, e viu uma silhueta escura inclinada sobre ela. A silhueta tinha rosto agora, o nariz, a boca, os olhos de Clara. Mas os olhos estavam molhados, e lágrimas escorriam pela face escura e caíam sobre o travesseiro.

        A coisa inclinou a cabeça e encostou a testa na testa de Clara. Pela primeira vez desde o acidente, o coração de Clara acelerou. O estômago gelou. A pele se arrepiou.  Ela sentiu medo. Mas o medo não era dela.

        O ser abriu a boca num gemido silencioso e começou a empurrar. Clara sentiu a pressão, como se algo estivesse sendo forçado para dentro do seu peito, algo que não cabia, algo que lutava. Ela quis gritar, mas a boca não abria. Quis empurrar de volta, mas os braços não obedeciam. A coisa empurrava, empurrava, cada vez mais fundo.

        Quando o sol nasceu, Clara acordou sozinha. Levantou-se e foi até a cozinha preparar café. No caminho, passou em frente ao espelho do corredor e parou. Algo estava diferente. Levantou a mão direita, e o reflexo levantou a esquerda. Ergueu a esquerda, e o reflexo levantou a direita. Por um instante, seus olhos encontraram os olhos do espelho.

        O reflexo sorriu. Clara, de pé no corredor, sentiu o canto da própria boca se curvando para cima. 

        Não era ela que estava sorrindo.

 

 


INSPIRAÇÃO


 

A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, Clara acordou do coma e descobriu que algo essencial havia ficado para trás. Não era a memória, nem a capacidade de falar ou andar. Era algo mais profundo, algo que deveria estar ali e não estava. Os médicos celebraram sua recuperação, mas Clara sabia que havia perdido uma parte de si, uma parte que agora a observava dos cantos, que tocava sua pele enquanto dormia, que tentava, desesperadamente, voltar para casa. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
    A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEEART digitei “4K Ultra HD, top quality, masterpiece, ultra high resolution, Uma mulher jovem em pé diante de um espelho de corredor, iluminação fria de amanhecer entrando por uma janela ao fundo. Ela levanta a mão direita, mas seu reflexo no espelho levanta a esquerda. O reflexo sorri levemente, enquanto o rosto da mulher permanece inexpressivo. Atmosfera de suspense psicológico, tons azulados e cinza, estilo cinematográfico, foco nítido, composição simétrica.  " e obtive esse resultado.

 

 


 


Comentários

Postar um comentário

TEXTOS MAIS LIDOS

CARTA DE AMOR

"Apai xonar-se por você é como pisar em uma mina terrestre. " - King Theta    Pensei ter chegado atrasado naquela palestra na faculdade, para a minha sorte ainda não tinha começado. Antes de sentar reparei em uma bela mulher, jovial, mas não foi a parte física que me atraiu nela, mas no que diz relação a sua beleza interna (intelectual), pois notei, enquanto ela esperava iniciar o evento, lia uma obra, que examinando melhor a capa após ela fechar para checar o seu celular, notei que era o grande clássico nacional, Dom Casmurro, nesse instante verifiquei que tinha que falar com ela.  Após cerca de duas horas, terminou, fui logo ao seu encontro, me apresentei de forma rápida, debatemos de forma breve sobre literatura, mas era difícil me concentrar nas suas palavras, enquanto de forma indireta contemplava ela. Morena; cabelo cacheado; olhos castanhos; pelo jeito que utilizava diferentes termos na conversa, observei que apresenta um vocabulário bastante rico; pelo seu colar, ...

Texto especial - CURIOSIDADE DOS GRANDES ESCRITORES

"Nenhum escritor é bom a não ser que tenha sofrido.'' - Henry Miller   Acredito que todos quando lemos uma obra nos questionamos o que inspirou determinado escritor ou escritora para elaborar determinada obra, isso é bastante normal, no texto de hoje essa é minha meta, apresentar alguns autores famosos e demonstrar por qual razão escreveu certa obra, ou focando em determinada característica literária dele.   Quem escreve utiliza um grande ramo de inspirações para criar uma obra, podendo ser eventos positivos ou negativos que dão conteúdo e forma para um simples texto, que ao passar de dias, semanas, meses e por fim ano, irá ganhar formas de uma livro. Há autores que se inspiram em outras obras famosas de um tema similar do que deseja abordar, como é o caso das distopias, cada uma trata sobre uma trama quase "idêntica'', mas o que a torna essa nessa categoria é a cereja do bolo.    Edgar Allan Poe escritor do século XIX, quem lê seus contos atualme...

Pandemia - Dificuldades na Quarentena

 "A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido." - H.P. Lovecraft     Quem esperava que o ano de 2020 iria "presentear a humanidade'' com esse vírus? Que teve início na China, em poucos meses por meio da Globalização levou as maiores cidades do mundo a entrar em estado de alerta, obrigando cada um deles para evitar a alta contaminação e por conta disso decretar o fechamento de instituições comerciais, educação em todos os níveis, entretenimento e outras diversas ramificações possíveis no que dita meio de obtenção de capital financeiro, ou seja, estamos vivendo um fato que irá mudar a forma como vivíamos antes do vírus. Acredito que o principal sentimento de todos é ansiedade, querendo ou não ela aumentou nesse período, casos de violência contra a mulher, e como vemos em muitos sites de notícia, a redução da economia ao nível mundial, e outras questões subjetivas, mas muito imp...