''Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte.''
O primeiro era um homem de cinquenta e três anos, enfarte do miocárdio. Nada de especial. Abri o tórax, pesei os órgãos, coletei fluidos. Quando cheguei ao rosto, parei. Os músculos faciais contraíram de um modo que a morte não explica. Rigor mortis não produz serenidade. Não produz aquilo. As pálpebras meio cerradas, os cantos da boca erguidos numa fração que não chegava a sorriso, os sulcos da testa completamente apagados. Alguém que tivesse visto aquele homem no caixão diria que ele parecia em paz. Eu sabia que não era paz. Era reconhecimento. Como se nos últimos segundos, entre o início da isquemia e o apagamento definitivo, ele tivesse visto algo que esperava há muito tempo. Documentei como "expressão atípica pós-óbito" e arquivei.
O segundo veio três semanas depois. Mulher, quarenta e um anos, afogamento em piscina residencial. Afogamento seco, segundo a perícia. Quando a removemos da água, ainda apresentava a mesma máscara. Testei a hipótese de espasmo cadavérico, mas espasmo não explica a simetria. Espasmo não explica a delicadeza daquele arco nas sobrancelhas, como se ela tivesse acabado de resolver uma questão que a perturbava desde a infância. Comecei a fotografar os rostos antes da incisão principal. Não por protocolo. Porque precisava comparar.
Cheguei ao vigésimo terceiro, caso dois anos depois. Vinte e três mortes. Vinte e três causas. Acidente de trânsito, suicídio por intoxicação medicamentosa, hemorragia subaracnoide, pneumonia em imunossuprimido, queda de escada, choque anafilático. As vítimas não se conheciam. Moravam em bairros diferentes, classes sociais diferentes, não frequentavam os mesmos lugares, não compartilhavam médicos, dentistas, farmácias. Nenhum padrão demográfico. Nenhum vetor de contágio. Apenas vinte e três rostos congelados na mesma revelação silenciosa.
Foi quando localizei os familiares que comecei a ouvir a mesma frase. No início, ouvia "ele estava bem", "ela reclamava de nada", "sem histórico de depressão". Mas quando eu perguntava sobre os últimos meses, algo emergia. O filho do primeiro homem me contou que o pai, nos últimos seis meses de vida, começou a falar sobre uma pessoa que via na rua. Vizinho ou conhecido, ele descartava. Era alguém que ele jurava ter visto antes, mas sem saber onde. "Ele dizia ser como reconhecer uma música que você não ouvia desde criança", o filho me disse. "Conseguia descrever o rosto? Ele tentava, mas quando olhava diretamente, a pessoa já tinha virado a esquina."
A mulher do afogamento, nas últimas semanas, parou de sair de casa. Medo não a movia. O marido utilizou a palavra "expectativa". Ela dizia estar esperando alguém. Quem ou quando, ignorava. Só sabia que reconheceria quando visse. Sentava na varanda olhando o portão, sem ansiedade, com uma paciência que o marido descreveu como "a coisa mais estranha que já vi nela". Ela nunca reclamou. Nunca chorou. Apenas esperava. Hoje vi a figura pela primeira vez.
Espectro ou assombração, descarto. Foi um movimento no reflexo do balcão de inox enquanto eu lavava as mãos após a necropsia de número vinte e quatro. Alguém atrás de mim. Alguém parado a dois metros, imóvel, observando. Girei. Sala vazia. Os corpos nos refrigeradores, o chão de epóxi brilhando sob as lâmpadas fluorescentes. Voltei ao balcão. Meu reflexo, sozinho. Mas algo aconteceu no intervalo entre virar e olhar novamente, uma certeza instalada na nuca, no ângulo morto que o olho humano alcança com dificuldade. Medo? Medo eu conheço. Medo acelera o coração, dilata a pupila, contrai o abdômen. Aquilo era diferente. Era um reconhecimento. Uma nota musical ouvida antes de nomeá-la. Algo dentro de mim disse é você, e eu desconhecia o que era esse "você".
Agora entendo a hipótese que formulei sobre a mesa de trabalho às três da manhã, cercado por vinte e três fotografias de rostos idênticos. Entidade, descarto. Presságio, também. É um encontro. Em algum momento, sem aviso, cruzamos com algo que nos conhece, algo que descobrimos? Não. Algo que sempre esteve lá, esperando que chegássemos ao ponto certo do mapa para que pudéssemos finalmente vê-lo. E depois desse encontro, a vida continua. Continua igual em tudo, exceto que você sabe. Sabe que em algum lugar, em algum momento, aquilo que te reconheceu vai querer te ver de novo. E você foge? Talvez queira. Mas quando o momento chegar, você vai parar. Vai sentir os músculos faciais se ajustarem sozinhos. E vai perceber, no último segundo de consciência, que esperava por aquilo desde antes de saber que havia algo para esperar.
Registrar a ocorrência de hoje no prontuário? Deixei de lado. Apenas retirei as fotografias dos vinte e três da pasta e as espalhei sobre minha mesa, olhando cada rosto, buscando algo que ainda sei nomear. Lá fora, o corredor do IML permanece em silêncio. Mas silêncio vazio? Longe disso. É um silêncio que me aguarda. E eu, estou reconhecendo o formato de uma sombra no batente da porta, a curva de um ombro que deveria estar ali? Não. A pausa de uma respiração que é minha? Também não. Virar agora? Ainda não. Porque quando eu virar, saberei que a partir de agora toda a minha vida será apenas o intervalo entre este momento e o próximo encontro.
INSPIRAÇÃO

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