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KATANA

      ''Toda a descoberta da ciência pura é potencialmente subversiva; por vezes a ciência deve ser tratada como um inimigo possível.''Aldous Huxley

 

    

        O visor do Comunicador Pessoal marca 14h47 quando o Assistente de Bem-Estar sorri de dentro da tela e autoriza a visita de Marcella ao Depósito. A jovem jornalista ajusta os óculos no rosto, guarda o dispositivo na bolsa ao lado da câmera fotográfica analógica e atravessa os corredores imaculados do Ministério do Equilíbrio pensando na ironia: está autorizada a contemplar o porão da miséria humana justamente quando sua taxa emocional apresenta números exemplares. Na recepção, entrega a identificação para a atendente de cabelos perfeitamente penteados, dessas que passaram por reajustes tantas vezes que esqueceram a própria sombra, e aguarda a liberação do acesso com a mesma curiosidade que tinha quando criança, quando investigava cada canto da casa do pastor durante as visitas com os familiares.
        A porta de metal se abre com um silvo hidráulico e o cheiro atinge a visitante primeiro: suor velho, lágrimas secas, algo metálico que ela reconhece dos dias em que tentava escrever sobre aquele homem dentro da bolha gigante socando as paredes transparentes com os punhos fechados. A repórter iniciante caminha pelos corredores estreitos observando as portas numeradas, cada uma escondendo um absorvedor, desses dissonantes crônicos que carregam o sofrimento que a Rede de Ânimo Coletivo dilui no resto da população para manter a tão propagandeada harmonia social. A mão esquerda da fotógrafa coça e ela lembra da pequena katana amarela tatuada no pulso, homenagem à personagem ágil de Cyberpunk 77 que preferia ataques rápidos a confrontos diretos, exatamente como a estratégia que usava na infância para observar os adultos sem ser notada.
        A sala 47 revela através do vidro uma figura feminina mais esquálida que a visitante, deitada em cama estreita com os olhos abertos fixados no teto, eletrodos finos como fios de cabelo conectando seu sistema nervoso à máquina que extrai suas emoções negativas e as transforma em lastro para o equilíbrio coletivo. A documentarista amadora aproxima o rosto da superfície fria, os óculos quase tocando o vidro, e sente aquela pontada incômoda no peito que os Assistentes chamariam de princípio de dissonância se estivessem monitorando. Abre a bolsa com dedos trêmulos, retira a câmera e começa a registrar cada detalhe, o clique mecânico ecoando no silêncio do corredor, cada quadro roubando um pedaço da verdade que a Comunhão de Aethel insiste em esconder atrás da retórica do bem-estar coletivo e da eliminação do sofrimento individual.
        A absorvedora não reage aos flashes, permanece imóvel, e a moeda percebe que seus olhos não piscam, como se até o reflexo de lubrificá-los tivesse sido desviado para alimentar a tal harmonia que os discursos oficiais celebram como maior conquista da civilização pós-colapso. A jovem encosta a testa no vidro e recorda da tarde distante no fliperama, quando desafiou o melhor amigo para um x1 no jogo de luta e ele escolheu um personagem amarelo ágil que dançava pela tela enquanto ela batia os botões com raiva. A pipoca salgada esquecida no balcão, o refrigerante gelado formando círculos de suor na madeira, os olhares atentos das outras crianças formando plateia silenciosa, e a derrota humilhante que não a impediu de voltar para casa com o coração acelerado, planejando estratégias para a revanche, alimentando aquela chama de competição que o sistema atual consideraria ruído emocional perigoso.
        A porta da sala se abre e uma Assistente de Bem-Estar surge ao lado da intrusa com o sorriso padronizado que todos aprendem a temer desde a Sintonia obrigatória aos dezesseis anos. A funcionária do Ministério informa que a visita já dura quarenta e cinco minutos e que o Comunicador Pessoal indica pequenas oscilações na taxa emocional da cidadã, seria prudente encerrar por hoje. A escritora aspirante concorda automaticamente, o treinamento de dezoito anos na Comunhão falando mais alto que qualquer impulso dissonante, mas seus pés não obedecem de imediato e ela continua parada, observando a paciente que agora parece mover levemente a cabeça na sua direção. A autoridade coloca a mão no ombro da investigadora com firmeza suave e a conduz corredor afora, e a moça vai sem resistência, porque é isso que cidadãos exemplares fazem, é isso que mantém as taxas baixas e os acessos liberados e a vida confortável dentro da bolha perfumada de Aethel.
        Antes de atravessar a porta de saída, porém, a garota vira o rosto e vê a reclusa da sala 47 sentada na cama, os olhos finalmente piscando, os lábios formando uma palavra silenciosa que seu cérebro traduz automaticamente como ajuda, e naquele instante algo se reorganiza dentro dela como as peças de um quebra-cabeça que finalmente encontra o encaixe. Passa as duas semanas seguintes elaborando estratégias, porque se tem algo que a menina que perdeu no fliperama mas voltou para a revanche aprendeu é que derrota só existe quando você aceita as regras do jogo sem questioná-las. Enquanto participa das sessões de Sintonia obrigatórias, enquanto grava áudios enormes para os amigos contando teorias conspiratórias disfarçadas de piadas, enquanto simula que sua taxa emocional continua exemplar, sua mente funciona igual naquela tarde distante, analisando o oponente, mapeando as fraquezas do sistema, calculando o momento exato de expor a verdade que o Ministério do Equilíbrio mantém selada atrás de portas numeradas.
        Na terceira semana, a cronista envia para seus contatos não um áudio alegre sobre as últimas atualizações de Cyberpunk 77, mas um arquivo compactado com as fotografias da sala 47, da figura imóvel, dos eletrodos, do vidro que separa o sofrimento sacrificial do conforto da maioria. Inclui também um texto, daqueles que começou e terminou pela primeira vez na vida, contando a história não de um homem socando uma bolha, mas de uma sociedade inteira construída sobre a premissa de eliminar a dor individual às custas da existência de uma classe invisível de absorvedores. Os interlocutores ficam mudos por dois dias, e quando respondem é com mensagens cifradas, códigos que aprenderam jogando juntos, referências a personagens ágeis e batalhas épicas, e a moeda entende que a rede subterrânea que suspeitava existir é real, que outros dissonantes disfarçados de cidadãos exemplares apenas esperavam um clique, um flash, uma fagulha para questionar a suposta harmonia.
        Seis meses depois, a ativista amadora acorda com uma notificação coletiva no Comunicador Pessoal: o Ministério do Equilíbrio anuncia reformas na Política de Dissonância, e o Depósito será gradualmente desativado, com os absorvedores reintegrados à sociedade através de programas de assistência. Na tela, a imagem sorridente do Assistente que autorizou sua visita promete uma Comunhão mais forte justamente por abraçar suas imperfeições emocionais, e a moça desliga o dispositivo pensando na linguagem cuidadosamente escolhida, nas palavras que transformam concessão em benesse, que escondem a verdade incômoda de que o sistema só cedeu porque alguém apontou uma câmera na direção certa. Olha para o volume de Jogos Vorazes com as páginas gastas de tanto reler, para a passagem em que Katniss voluntaria no lugar da Prim, e entende que alguns atos de rebeldia começam pequenos, quase imperceptíveis, como uma criança que perde uma partida mas já planeja a revanche.
        No fim da tarde, a dissidente recebe uma mensagem de número desconhecido com apenas uma foto: a ex-absorvedora da sala 47, agora com roupas comuns, sentada em um banco de praça, alimentando pombos com um sorriso verdadeiro nos lábios. Abaixo da imagem, um texto curto: obrigada por me ensinar que perder uma batalha não significa perder a guerra, guardei a katana que você deixou no vidro. A idealizadora do arquivo secreto lê e relê a mensagem enquanto seus dedos coçam para responder com um áudio enorme, contando sobre aquele dia no fliperama, sobre o personagem amarelo que a venceu, sobre como a menina que perdia mas voltava para a revanche finalmente cresceu e entendeu que alguns combates exigem armas diferentes, mais silenciosas, mais precisas. Em vez disso, responde apenas com uma foto da tatuagem no pulso esquerdo, a katana amarela brilhando sob a luz do entardecer, e vai até a cozinha preparar pipoca enquanto pensa nos próximos passos, nas próximas imagens que precisa registrar, nos próximos textos que finalmente conseguirá terminar.
        Naquela noite, porém, a insone não consegue dormir. Levanta da cama, liga o computador e começa a escrever não um texto, mas uma série deles, relatos detalhados sobre a visita ao Depósito, sobre a mulher de olhos que não piscavam, sobre os corredores numerados e o cheiro de sofrimento transformado em lastro. Inclui as fotografias, organiza os arquivos, cria pastas com títulos inofensivos para despistar qualquer monitoramento. Pela primeira vez na vida, a redatora termina cada texto que começa, e quando o sol raia no horizonte de Aethel, a conspiradora tem diante de si um dossiê completo sobre o preço oculto da tão aclamada harmonia coletiva. Envia tudo para os amigos da rede subterrânea, mas desta vez com instruções claras: compartilhem com quem merecer confiança, com quem já demonstrou sentir incômodo quando os Assistentes elogiam demais sua taxa emocional exemplar.
        Nas semanas seguintes, a mentora do projeto Katana percebe mudanças sutis ao seu redor. Nos áudios que recebe dos contatos, as piadas sobre teorias conspiratórias diminuem e dão lugar a perguntas diretas: como descobrir se alguém próximo foi levado para reajuste, como identificar os sinais de que um conhecido virou absorvedor, como agir quando a dúvida sobre o sistema aperta o peito. A arquivista responde cada mensagem com paciência, ensinando o que aprendeu na casa do pastor quando criança, quando investigava cada objeto sem fazer barulho, quando observava os adultos sem ser notada para depois juntar as peças do quebra-cabeça sozinha. Organiza encontros discretos em locais públicos, sempre com a câmera pendurada no pescoço como disfarce, e nesses encontros conhece outras pessoas como ela: um engenheiro que projeta as máquinas do Depósito e começou a ter dúvidas, uma ex-Assistente de Bem-Estar demitida por questionar reajustes excessivos, um adolescente prestes a completar dezesseis anos e desesperado para escapar da Sintonia obrigatória.
        No aniversário de um ano da visita ao Depósito, a estrategista reúne o grupo em um apartamento emprestado e anuncia que está na hora de ampliar o alcance. Mostra um plano meticulosamente desenhado, digno da menina que perdia no fliperama mas voltava com estratégias melhores: vão criar um arquivo digital impossível de rastrear, um repositório de testemunhos, fotografias, documentos e relatos que qualquer cidadão possa acessar se souber onde procurar. Vão batizar o arquivo de Katana, em homenagem à tatuagem amarela no pulso esquerdo da idealizadora, e vão espalhar sua existência pelos mesmos canais que antes usavam apenas para trocar teorias conspiratórias disfarçadas de piadas. Quando os outros perguntam sobre os riscos, a articuladora aponta para a câmera pendurada no pescoço e lembra que uma imagem vale mais que mil discursos do Ministério, que um clique pode revelar o que a burocracia passa décadas tentando esconder.
        Nas madrugadas silenciosas, enquanto a cidade de Aethel dorme anestesiada pela falsa sensação de harmonia, a cronista escreve os textos que nunca conseguira terminar antes. Não são mais sobre homens dentro de bolhas gigantes socando paredes transparentes, mas sobre pessoas reais, com nomes e rostos, que tiveram suas dores transformadas em lastro para o conforto alheio. Termina cada relato com uma pergunta: se nossa paz exige o sofrimento invisível de alguns, que paz é essa? Se nossa felicidade depende do amortecimento forçado de emoções, que felicidade é essa? Quando os amigos perguntam se não tem medo das consequências, a rebelde responde com um áudio enorme, falando sem parar sobre o dia no fliperama, sobre a derrota humilhante e a revanche planejada, sobre o personagem amarelo ágil que a venceu mas ensinou que velocidade e precisão vencem qualquer força bruta. No final do áudio, sua voz sai mais firme do que nunca: "Eles acham que controlam nossas emoções, que podem extrair nossa dor e nos deixar vazios, mas esqueceram de uma coisa. A katana no meu pulso não é só enfeite, e eu aprendi desde cedo que perder uma batalha só significa que você precisa treinar mais para a próxima."


 


INSPIRAÇÃO


 

A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, Em uma sociedade distópica que extrai emoções negativas de cidadãos "absorvedores" para manter a harmonia coletiva, uma jovem fotógrafa com taxa emocional exemplar recebe autorização para visitar o Depósito onde eles são mantidos. O que encontra por trás do vidro da sala 47 transforma sua percepção da realidade e a leva a questionar o preço oculto do equilíbrio propagandeado pelo Ministério. Movida pela mesma persistência que tinha quando criança ao perder partidas de fliperama, ela descobre que alguns atos de rebeldia começam pequenos, como um clique de câmera. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
    A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEEART digitei “Close no pulso esquerdo de uma jovem com tatuagem delicada de katana amarela, luz do entardecer dourada incidindo sobre a pele, desfoque suave ao fundo sugerindo ambiente urbano, atmosfera de esperança silenciosa, composição intimista, cores quentes com contraste suave, estilo fotográfico artístico" 4K Ultra HD, top quality, masterpiece, ultra high resoluti " e obtive esse resultado.


 






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