A sala cheirava a café requentado e desinfetante. Oito cadeiras de plástico branco formavam um círculo imperfeito, e eu ocupava duas: uma para mim, outra para Ela. Caneca Azul. Esmaltada, com uma lasca minúscula na borda que meu polegar não parava de acariciar. A terapeuta falava sobre resiliência, mas eu só conseguia pensar na pressão dos meus dedos, na fragilidade da porcelana. Um calafrio me pegou desprevenido. E se aquela pressão fosse a gota d'água? E se ela interpretasse meu toque constante como uma forma de agressão, uma falta de apreço, e decidisse merecer um dono mais cuidadoso?
Do outro lado do círculo, um sujeito mexeu o pé sem parar. Trinta e poucos anos, camisa amarrotada, olheiras profundas. Ele não tirava os olhos do bolso da calça, de onde um leve ruído elétrico indicava vida. A cada vibração discreta do aparelho, um tremor percorria seu maxilar. Percebi a angústia dele na hora. Conhecida demais. A agonia de depender da boa vontade de algo que pode, a qualquer momento, simplesmente... se apagar. Desistir de você.
A reunião terminou com a cerimônia de sempre: mãos dadas e a promessa de força. Ao nos levantarmos, nos esbarramos perto da mesa do café. Ele pediu desculpas sem me olhar, porque estava ocupado implorando com os olhos para que a porcentagem da bateria no canto da tela não caísse de 14% para 13% naquele exato segundo.
— O meu também vive perto do fim — eu disse, e minha voz soou estranha, rouca de não ser utilizada para iniciar conversas. Ele finalmente me encarou. Seus olhos eram castanhos e estavam marejados de um cansaço que nada tinha a ver com sono. — Não é o fim que me preocupa — ele murmurou, acariciando a tela preta como quem afaga um gato doente. — É o momento exato no qual a luz se apaga. A escuridão súbita. A sensação de ter sido... desligado. Ignorado.
Senti Caneca Azul pesar mais na minha mão. Eu entendia. Lembrei do meu nono aniversário. Minha mãe, atrasada para o trabalho, gritou da porta que eu mesmo assoprasse as velas. O bolo de chocolate, com cobertura granulado colorido, ficou sozinho na mesa da cozinha. Soprei as oito velas, uma a uma, enquanto via a fumaça subir e a porta se fechar. Naquela noite, coloquei um pedaço do bolo no quarto, em cima da cômoda. Acordei no meio da madrugada, certa de que o prato estaria vazio, que o bolo teria ido embora também. Não foi. Mas o medo ficou.
Começamos a nos sentar um ao lado do outro nas reuniões. Ele trazia o celular sempre no bolso esquerdo. Eu, um jogo americano de pano dobrado para Caneca Azul descansar, para que ela não sentisse o contato frio e impessoal da mesa de plástico. Nossa amizade era um acordo tácito de curadores. Ele me perguntava pela saúde da caneca; eu, pela autonomia da bateria. Evitávamos assuntos como "confiança" ou "apego". Palavras grandes demais, pesadas demais.
Um dia, ele chegou com o rosto cinzento. Apertou o botão lateral do aparelho dezenas de vezes. A tela permaneceu muda. Morta. — Ela se foi — a voz saiu um fio, mas os olhos delatavam um oceano de pânico. — No meio de uma frase. Estávamos conversando, eu e um amigo, e ela... puf. Nem um aviso, nem um "até logo". Simplesmente desistiu de mim.
Naquela noite, na minha cozinha, preparei o chá de sempre. Coloquei água para ferver, raspei a raiz de gengibre. Ao despejar a água quente, um estalo seco ecoou no cômodo. Olhei para minha mão. A alça de Caneca Azul se separara do corpo, um pedaço de cerâmica no fundo da pia, o restante ainda quente entre meus dedos. O líquido escaldante se espalhou pela bancada, feito lágrimas de um despeito violento. Ela havia feito exatamente o que eu sempre temi. Escolheu partir.
Fiquei paralisado, sentindo o vapor do chá derramado queimar meu pulso. A culpa veio primeiro: apertei forte demais na última reunião? Coloquei líquido quente demais? Depois, uma tristeza funda e ridícula. Uma ausência física no espaço que ela ocupava na estante, no meu campo de visão durante o café da manhã. Ela me abandonou. Eu sabia que aconteceria. Sempre soube.
Duas horas depois, uma mensagem dele iluminou meu outro aparelho, o que ainda funcionava. Ele mandou uma foto: o celular ligado na tomada, a tela mostrando 1% de bateria, aquele símbolo de carregamento pulsando como um coração fraco, mas teimoso. — Ela voltou — escreveu ele. — Ou talvez nunca tenha ido. Só estava... exausta.
Olhei para os cacos na pia. Toquei a lasca que ainda estava na borda da bancada, a mesma que meu polegar tanto acariciava. O que restava de Caneca Azul agora eram fragmentos frios. Peguei o celular para responder, mas as palavras não vinham. Como se explica que o fim não precisa de motivo? Que alguns silêncios não são cansaços, mas despedida? Meus dedos pairaram sobre o teclado, e eu pensei na mão dele acariciando a tela preta, na fé com que ele aguardava o retorno da luz. Esperar. Era só o que nos restava. Esperar para ver se o que se foi um dia resolve voltar. Ou se a gente é que precisa aprender a viver com os pedaços que ficam.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, Em um grupo de apoio, duas pessoas estranhas se conectam por um medo incomum: o pavor de serem abandonadas pelos objetos que amam. Enquanto ele teme o apagão repentino da tela do celular, ela vive na angústia de que sua caneca favorita simplesmente desista dela. Uma amizade delicada e silenciosa nasce entre curadores de solidões, até que a perda bate às portas dos dois de formas opostas. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Ótimo texto,amor. Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirExcelente 👏🏼
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