‘’O amor é o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração.’’ Marcel Proust
O medo era uma sombra que se alongava pelas aldeias, anunciado pelo bater de asas que escurecia o sol. Eu, Samara, que sempre encontrei conforto no simples aroma das ervas e na ordem serena do meu pequeno jardim de cura, via agora o caos personificado tingir o horizonte de brasa. Das entranhas da terra, onde a luz não ousa penetrar, um mal ancestral emergira sob a forma de um dragão de escamas rubras, convocado pela feitiçaria de uma alma corrompida. Ainda assim, no peito, a lembrança de um olhar terno e promessas sussurradas ao pé da fogueira me mantinha firme, como uma chama que nenhum vendaval poderia extinguir.
Aquele com quem divido meus sonhos, Gabriel, conhecido pela força descomunal de seus braços e por sua índole impetuosa, jamais hesitaria diante de tamanha ameaça. Lembro-me da primeira vez que o vi, sua pele clara contrastando com a madeira escura do machado que manuseava, os cabelos negros como a asa do corvo caídos sobre os olhos decididos. Ele enxergava no perigo iminente não apenas uma fera a ser abatida, mas um desafio à paz que juráramos construir. Enquanto as mulheres e crianças buscavam abrigo nas capelas de pedra, entoando cânticos antigos aos céus por proteção, meu amado já fustigava os guerreiros da região, não com a espada, mas com ideias que a muitos parecia loucura. Mas eu conhecia o brilho em seus olhos quando uma daquelas ideias insensatas começava a fazer sentido.
Na quietude da noite que antecedia a batalha, enquanto preparava unguentos e ataduras para os feridos que viriam, toquei minha lira suavemente. As notas ecoaram na pequena cabana, uma prece silenciosa que subia aos céus como incenso. A música sempre fora minha ponte para o divino, uma forma de ordenar o mundo interior quando o exterior se despedaçava. Meus cabelos crespos e escuros caíam sobre os ombros enquanto eu inclinava a cabeça sobre o instrumento, deixando que a melodia embalasse minhas angústias. Foi então que Gabriel chegou, não com a habitual braveza, mas com a mansidão de quem busca conforto antes da tormenta. Sentei-me a seu lado e, sem palavras, nossos dedos se entrelaçaram, e naquele aperto de mãos havia mais força do que em qualquer exército.
Sua estratégia, forjada na teimosia e na observação dos vales, era simples em sua essência: usar o próprio terreno contra a criatura alada. Falou-me de desviar o curso de um rio para criar um lamaçal onde o fogo perderia sua força, de utilizar os ecos das montanhas para confundir os sentidos do monstro. Enquanto ele detalhava seu plano, ouvia-se ao longe o rugido profundo que fazia tremer as fundações da terra, um lembrete brutal do poder das trevas que enfrentaríamos. Ofereci-lhe uma poção calmante para as dores de batalhas passadas, preparada com as ervas que eu mesma cultivava, e Gabriel aceitou, selando o gesto com um beijo em minha testa, ungindo-me com sua coragem.
Ao alvorecer, partiram os homens, uma pequena hoste guiada pela audácia do meu noivo. Fiquei para trás, no improvisado hospital de campanha armado dentro da igreja da aldeia. O sino badalava lento, um lamento de bronze que chamava os fiéis à oração. A imagem esculpida do Salvador na cruz parecia contemplar nosso desespero com olhos de eterna compaixão. Ali, entre o cheiro de cera e sangue, eu curava corpos e ouvia confissões murmuradas, cada ferida um testemunho do mal que precisava ser extirpado, cada palavra de fé uma seta contra a escuridão. Em cada soldado que chegava, procurava ansiosa por sua face clara entre os feridos, temendo encontrá-la a qualquer momento.
O combate foi longo e ouvimos seus ecos durante todo o dia. O rugir do dragão se misturava aos gritos dos homens e ao estranho silêncio que se segue a uma explosão de fogo. Rezamos, eu e as outras mulheres, com uma fé que movia montanhas, ou ao menos, que movesse o coração do Altíssimo para proteger aqueles que amávamos. Em cada alma que partia desta vida, eu via a face da guerra e amaldiçoava em silêncio a bruxa que abrira as comportas do inferno sobre nós. Meus dedos, habituados a extrair melodia da lira, agora apenas extraíam flechas e sujavam-se de sangue alheio.
Então, no crepúsculo, o silêncio desceu sobre o vale. Um silêncio pesado, diferente do rugido que o precedera. O coração me apertou no peito, uma mistura de esperança e medo que quase me impedia de respirar. Corri para a porta da igreja, o hábito manchado de sangue e ervas, e observei a linha do horizonte. Gradualmente, figuras começaram a surgir na neblina, caminhando em nossa direção. Eram nossos homens, exaustos, cobertos de cinzas, mas vivos.
No meio deles, reconheci a silhueta do meu amado. Caminhava com a cabeça erguida, e em seu rosto sujo de fuligem, onde a pele clara agora mal se distinguia da cinza, havia um sorriso cansado, mas vitorioso. Os cabelos negros, em desalinho, colavam-se à testa suada, mas seus olhos brilhavam com a chama daqueles que venceram. Não carregava a cabeça do dragão como troféu, mas trazia nos olhos a certeza de que o mal fora derrotado. A força bruta de seu braço desviara a atenção da fera, mas fora sua ideia, aquela que todos julgaram louca, de utilizar o barro do rio para cegar a visão da criatura e levá-la a um desfiladeiro, que selara o destino do monstro.
Naquela noite, a aldeia não dormiu. Celebrando, fomos à pequena capela para um culto de ação de graças. Ajoelhados lados a lado, diante do altar, Gabriel segurou minha mão. Seus dedos, grossos e calejados, entrelaçaram-se aos meus, morenos das longas horas ao sol colhendo ervas. Trocamos um olhar que dizia mais do que qualquer palavra. Havíamos enfrentado o próprio abismo, e a luz que nos unia se provara mais forte. O amor que cultivávamos, simples e puro como o pão que partilhávamos, fora nosso verdadeiro escudo contra as chamas do dragão e as artimanhas do inferno.
INSPIRAÇÃO

Adorei o texto!
ResponderExcluirObrigada, meu amorzinho.