''A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado.''
Encaro o baú como quem encara um caixão fechado há tempo demais. Minhas mãos tremem ao levantar a tampa. Lá dentro, centenas de envelopes amarelados repousam em camadas irregulares, testemunhas mudas de uma vida inteira de hesitações.
Pego o primeiro espécime. Meu avô nunca foi dado a afetos. Nem abraços, nem conversas demoradas. Mas ali, naquela caligrafia miúda e nervosa, ele derrama palavras que jamais ousou pronunciar ao vivo. Para uma antiga paixão: Sei que você me odiaria menos se soubesse que nunca a esqueci. Para o patrão que o humilhou: A promoção que me negaram veio de outro jeito, mas o senhor nunca saberá como.
Demoro dias para organizar a coleção por destinatários. Alguns endereços ainda existem. Nomes repetem-se em certas correspondências: Adelaide, Francisco, Júlio. Uma caixa menor chama minha atenção. Fechada com fita adesiva velha. Arrombo sem cerimônia.
Lá dentro, quinze missivas endereçadas ao mesmo homem. Seu Gonçalves. Meu avô trabalhava para ele nos anos sessenta. Li apenas a primeira e precisei sentar. Não era sobre dívidas financeiras. Era sobre uma garota que desaparecera. Minha tia-avó, que ninguém na família explica por que sumiu do mapa.
A centésima trigésima sétima carta menciona um porão. Um depósito na antiga fábrica. Diz: O corpo não está mais lá, mas a verdade, essa ninguém desenterra. Passei duas semanas entregando correspondências. Velhinhas choraram. Um senhor quase me agrediu. Outro me agradeceu com lágrimas nos olhos. Mas as quinze para Gonçalves ficaram na minha bolsa. Resolvi visitá-lo. Encontrei um octogenário frágil, usando pantufas e tomando chá. Mostrei a primeira carta. Ele empalideceu.
— Isso tudo é mentira — gaguejou. — Seu avô tentou me chantagear na época. A garota fugiu com um caminhoneiro. Mostrei a sétima carta. Ele suou. Mostrei a décima segunda. Ele pediu para eu sair. Então li a última, em voz baixa. Ali, meu avô confessava ter ajudado a enterrar alguém. Não a minha tia-avó. Outra moça. Uma funcionária grávida. Gonçalves ordenara. Meu avô obedecera. Arrependeu-se a vida inteira e nunca teve coragem de denunciar.
— O senhor matou aquela mulher? Ele não respondeu. Apenas apontou para a porta. Saí com as cartas no bolso. Chove lá fora. Não sei se vou à polícia, se rasgo tudo ou se procuro primeiro a família da vítima. Mas algo me corrói: meu avô escreveu tudo. Nunca enviou. Preferiu carregar o peso sozinho e me deixar este baú — não como herança, mas como um tipo venenoso de permissão.
A fábrica ainda existe. Dizem que o porão foi murado há décadas. Amanhã vou lá com uma lanterna. Ou talvez queime as provas no quintal. O que faria você?
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, herdar um baú de cartas nunca enviadas parece apenas uma curiosidade familiar. Mas quando a narradora começa a entregar as correspondências do avô, descobre que uma delas contém a confissão de um crime enterrado há décadas. Agora, ela precisa decidir entre revelar a verdade ou manter o silêncio que seu antepassado escolheu carregar até o fim. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Ótimo texto,amor.
ResponderExcluirParabéns.
Ansiosa pelos próximos.
Excelente 👏
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