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O SORRISO NA DOBRA DO ARMÁRIO

Medo e terror não são a mesma coisa. O medo impulsiona o homem a agir e a ser criativo. O terror paralisa o corpo e bloqueia o fluxo de pensamento, tornando-o menos humano." Dmitry Glukhovsky

 


         A primeira vez que ele notou a silhueta, achou que o problema fosse o cansaço. Eram seis da manhã, olho remelento, café frio. Uma forma alta e desengonçada se encolhia no canto da cozinha, logo além do batente da porta. Quando piscou, ela já não estava mais ali. Na semana seguinte, as chaves do carro desapareceram. Ele revirou gavetas, rasgou o sofá, praguejou sozinho. Horas depois, encontrou as chaves dentro do forno, cobertas por uma fina camada de cinza. O eletrodoméstico permanecia frio.
         Leonardo, sim, ele possuía um nome, mas não há necessidade de gravá-lo, pois em breve o homem perderá qualquer traço de identidade que ainda lhe restasse, começou a desconfiar de si próprio. Seriam lapsos de memória? Estresse? A terapeuta sugeriu um diário do sono. Ele adquiriu um caderno de capa dura e registrou tudo minuciosamente por três noites seguidas. Na quarta noite, o bloco apareceu com as páginas arrancadas e mastigadas. Restaram apenas farelos de papel e uma marca de mordida humana no couro da capa. Uma mordida pequena. Dentes de criança.
         A entidade passou a imitar vozes. O primeiro telefonema veio de um número inexistente: a secretária do emprego dos sonhos confirmando uma entrevista para as nove da manhã. Ele acordou cedo, passou ferro na camisa, chegou ao endereço indicado. O prédio estava abandonado havia três anos. Cimento trincado, pichações, urina de cachorro. No lugar da recepção, um espelho quebrado pendia da parede. O reflexo mostrou, por um segundo, algo parado atrás dele. Algo com o pescoço excessivamente longo. Quando se virou, não havia nada.
        A sabotagem ganhou intimidade com sua rotina. O ser aprendeu o horário do despertador e o silenciou no dia da prova da faculdade. Descobriu a senha do computador e enviou e-mails obscenos para a coordenadora do curso. Abriu a torneira do gás enquanto ele dormia; o cheiro o acordou às três da madrugada, e ele encontrou a janela da cozinha trancada por dentro com uma fita adesiva que jamais compraria.
        A primeira aparição física plena aconteceu num domingo chuvoso. Ele voltava do mercado com duas sacolas. Ao entrar no apartamento, o ar mudou, ficou denso, como se respirasse dentro de um travesseiro. No fundo do corredor, a silhueta agora possuía textura. Pele acinzentada, úmida, igual à de um afogado semanas após a morte. Olhos fundos que não refletiam a luz da sala. E o sorriso: uma coisa deslocada, alegre demais, que esticava a boca até as orelhas sem emitir nenhum som. O sorriso não combinava com o rosto. Parecia colado ali, como uma máscara de carnaval sobre uma ferida exposta.
        O homem tentou gritar. O ar não saiu. Seu próprio pulmão se recusava a colaborar, ou talvez o ser tivesse aprendido a comprimir sua traqueia à distância. A figura deu um passo à frente. As juntas dos dedos estalaram em sequência, como palmas lentas. Então desapareceu.
        Nos dias seguintes, ele começou a encontrar bilhetes grudados no box do banheiro, escritos com letra de criança em papel de caderno: "Você nem notou que eu existia." Outro, dentro do sapat,: "Eu sentava atrás de você na aula de história. Terceira fileira. Janela." Outro, enrolado no tubo de pasta de dentes: "Meu nome começa com A. Tenta adivinhar."
        A memória dele começou a sangrar. Lembranças que não eram suas surgiam completas: uma menina de cabelo preso, sempre de suéter azul, que aparecia no fundo das fotos da formatura, nas bordas das selfies no parque, atrás do balcão da padaria que ele frequentava havia dez anos. Ela estava em todos os lugares. Ele nunca a vira.
        Uma noite, o homem acordou com o colchão afundando ao seu lado. Não havia peso visível, mas as molas rangiam como se alguém se sentasse ali. O ser falou pela primeira vez, não com voz, mas com uma vibração direta no osso do crânio: "Você passou por mim cento e quarenta e sete vezes. Eu contei. Cada vez, o seu coração acelerava um pouco. O meu parava por completo." Ele tentou acender a luz. A lâmpada explodiu. Estilhaços de vidro desenharam um arco-íris no escuro, e por um segundo ele viu o rosto dela refletido em cada caco. Não o rosto atual, mas o de quinze anos atrás, quando ela ainda possuía esperança.
        Na manhã seguinte, ele encontrou o próprio passaporte cortado em tiras na caixa de cereais. O diploma da faculdade apareceu flutuando na água sanitária do vaso sanitário. A carteira de trabalho, que ele guardava numa pasta trancada, amanheceu no interior do micro-ondas, com todos os números riscados a faca. Mas o pior ainda estava por vir.
        O homem tentou fugir. Pegou o carro, rodou duzentos quilômetros, alugou um quarto de motel com outro nome. Na primeira noite, acordou com a televisão ligada exibindo um canal fora do ar. A estática branca formava, por frações de segundo, o contorno de um rosto. O sorriso ainda estava lá. Mais largo agora. Ele desligou a TV na tomada. A imagem permaneceu.
        O ser passou a aparecer em todos os reflexos. No espelho do banheiro, atrás do seu ombro. Na poça d'água da calçada. Na colher de sopa enquanto ele tentava comer um iogurte. Sempre o mesmo sorriso descolado, sempre os olhos que não piscavam. Na terceira noite no motel, ele sentiu uma mão gelada apertar a sua enquanto dormia. Quando abriu os olhos, ela estava deitada ao seu lado, de costas para ele. O suéter azul encharcado, como se tivesse acabado de sair de um rio. Os cabelos grudavam no travesseiro formando letras: A. M. R.
        As iniciais não significavam absolutamente nada para ele. Nada mesmo. Foi isso o que quebrou o homem por completo: saber que alguém dedicou uma existência inteira a ele, aprendeu seus hábitos, guardou seu cheiro, contou suas passadas, e ele jamais retribuiu com um único segundo de atenção. Nem para dizer não. Nem para dizer sai daí. Nada.
        A criatura agora não precisa mais se esconder. Aparece no meio da sala enquanto ele come, mastiga com ele, imita cada movimento da mandíbula com um segundo de atraso. Quando ele chora, ela ri baixinho, um som que parece vir do ralo da pia. A última vez que alguém viu o homem, ele caminhava em direção ao lago nos arredores da cidade, falando sozinho, respondendo a perguntas que ninguém havia feito. Duas pegadas na lama. Depois, apenas uma.
 

 
 

 

INSPIRAÇÃO



    A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é antiga, 
 Leonardo percebe que não está sozinho em casa. Chaves aparecem dentro do forno, bilhetes com letra de criança surgem onde não deveriam e uma silhueta de pele acinzentada o observa de todos os reflexos. A criatura não quer matálo. Ela quer que ele finalmente lembre que ela existiu. E está disposta a destruir sua sanidade para conseguir.  Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
    A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT digitei “ um quarto de motel escuro durante a madrugada, iluminado por tons frios de azul, onde um homem está sentado na beira da cama de costas para a câmera, encarando uma televisão antiga à sua frente que exibe apenas estática, um ruído branco granulado, formando de maneira sutil e perturbadora o contorno de um rosto humano com um sorriso exageradamente largo; apesar de a TV aparentar estar desconectada da tomada, com o cabo visivelmente fora do plugue, ela continua ligada, intensificando o clima sobrenatural, enquanto o ambiente simples e levemente desorganizado inclui uma mesa de cabeceira com alguns objetos indistintos e um relógio digital marcando cerca de 3:15 da manhã, tudo com uma textura propositalmente granulada que enfatiza os detalhes da estática e reforça a atmosfera tensa, misteriosa e inquietante." e obtive esse resultado.

 


REFERÊNCIAS


1.    No filme tailandês Shutter (lançado em 2004, dirigido por Banjong Pisanthanakul e Parkpoom Wongpoom) acompanha um jovem fotógrafo que, após atropelar uma mulher e fugir do local, começa a ver silhuetas fantasmagóricas reveladas apenas pelas lentes de sua câmera, abordando temas como culpa, segredos do passado, assombração fotográfica e a impossibilidade de escapar das próprias ações.

 

 


    2. O livro Os Condenados (escrito por Andrew Pyper e lançado em 2015) apresenta Danny, um homem que morre clinicamente por breves instantes e desperta com a habilidade perturbadora de interagir com espíritos, descobrindo que sua irmã gêmea falecida na infância está aprisionada em uma dimensão infernal, o que o leva a uma jornada pelos subterrâneos sombrios de Detroit enquanto explora temas como luto não resolvido, vínculo entre gêmeos, culpa familiar, terror psicológico e a linha tênue entre redenção e condenação eterna.





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