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Mostrando postagens de 2024

QUANDO O UNIVERSO QUER SUA CABEÇA

 ''A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa.'' George Orwell            Acordei ao som do meu próprio nome sendo gritado na televisão. Isso não era novidade. Steven Seagal¹, astro de ação, o eterno herói de rabos de cavalo e frases de efeito, já tinha sido gritado por muitos no calor de uma explosão. Mas dessa vez era diferente. Minha cara inchada de sono apareceu na tela com uma faixa vermelha pulsando embaixo: "MORTE DE SEAGAL ANUNCIADA: DESTINO INEVITÁVEL?"      — Que merda é essa.? — murmurei, coçando o queixo. A Televisão berrava com a eloquência de uma foice.      Era assim que funcionava nesse mundo. Uma vez que um destino era divulgado, a realidade dava um jeito de se alinhar. O universo era como um roteirista preguiçoso que odiava revisões. Para qualquer um normal, isso significava ter cuidado com as notícias. Para mim, significava que o universo acabara de contratar um exérc...

MESTRE DAS MARIONETES

 ''A ilusão é uma fé desmedida.'' Honoré de Balzac        Entrei no consultório pela primeira vez com uma mistura de esperança e ceticismo. A fama do Dr. Artemio era lendária: diziam que ele tinha a habilidade quase mágica de libertar as pessoas de suas prisões mentais. O consultório refletia sua reputação: um espaço intimista, repleto de cortinas pesadas, almofadas macias e um leve aroma de incenso que parecia se agarrar às paredes.      “Por favor, sente-se,” ele disse, com uma voz que parecia ser ao mesmo tempo acolhedora e autoritária. Seus olhos, profundamente escuros, pareciam atravessar minha pele, alcançando o que eu não queria mostrar.      Contei a ele sobre meus pesadelos, minha insônia e aquele sentimento constante de que algo me observava, mesmo quando eu estava sozinho. Ele não interrompeu, apenas assentiu, como se cada palavra fosse parte de um quebra-cabeça que ele já soubesse como resolver. Quando terminei, ele sor...

ZONA DE PERIGO

 ''Que o teu trabalho seja perfeito para que, mesmo depois da tua morte, ele permaneça.''  Leonardo da Vinci      Não me lembro bem da última vez que estive em casa. Aliás, nem sei se tenho mais uma. Meu cérebro tem funcionado como uma máquina velha e emperrada, com peças faltando. Talvez seja efeito da transferência neural, ou talvez seja apenas o peso dos anos. Aos 78, já não se espera muito de nós, exceto que desapareçamos. Mas isso mudou. Agora, somos úteis de novo. Úteis para morrer.      A convocação veio pelo correio — tão antiquado quanto eu. “Você foi designado para o Projeto Escudo Final”, dizia a carta, com palavras frias e impessoais. Eles usaram eufemismos, como fazem com tudo. “Oportunidade de servir ao planeta”; “contribuir para a defesa global”; “honra para os seus últimos anos”. Mas sabemos a verdade: o governo está falido, e a guerra contra os alienígenas não tem fim. Somos um recurso barato. Carne velha e desgastada, mas ainda ...

SOMBRAS DO PASSADO

 ''O criminoso, no momento em que pratica o seu crime, é sempre um doente.'' Fiódor Dostoiévski        O cheiro ácido de sangue e decadência pairava no ar, misturando-se ao odor de lixo que se acumulava nos cantos escuros do galpão abandonado. A chuva fina, típica das tardes brasilienses, escorria pelas frestas do teto de zinco, criando pequenas poças no chão sujo. A detetive Carolina Maia ajustou a lanterna e deu um passo à frente. O terceiro corpo estava ali.      A cena era meticulosamente brutal. A vítima, uma mulher de cerca de trinta anos, jazia em um altar improvisado, cercada por velas derretidas e desenhos de formas geométricas riscadas no chão. O corpo exibia as mesmas marcas encontradas nas duas vítimas anteriores: cortes profundos nos pulsos e um símbolo triangular gravado no peito. Carolina respirou fundo, tentando afastar a náusea.       "Mais um caso de pesadelo", pensou. Aquilo não era apenas trabalho; era um peso ...

SOB O VÉU DAS ESTRELAS

  “O nosso amor é como o vento: não posso ver, mas posso sentir.” Um Amor para Recordar   O vento no Vale das Luzes era mais cortante naquela noite, um mensageiro gelado do perigo que espreitava. Gabriel estava parado na borda do penhasco, o cachecol castanho voando atrás dele como um estandarte. Seus cabelos pretos caíam na testa, e ele ajustou os óculos, encarando a escuridão à frente como se pudesse penetrá-la com o olhar. Ele sabia que ela estava ali. Samara. Ela sempre estava. "Chegou mais cedo do que eu esperava," disse uma voz doce, mas carregada de tensão. Ele se virou e a viu, um contraste impressionante contra a paisagem sombria. A pele morena dela parecia absorver e refletir a luz das estrelas, e seus cachos vibravam ao ritmo do vento. Mas eram seus olhos castanhos, profundos e inabaláveis, que o mantinham ancorado. "Não consegui esperar." Ele deu um passo à frente, hesitando por um instante. "Você está bem?" Ela riu, mas o som era f...

SEGREDO

 ''A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado. Sêneca      Era uma tarde cinzenta, daquelas em que o ar parece pesado, carregado de presságios. O quarto estava escuro, exceto pela luz mortiça que atravessava as persianas mal ajustadas. No leito, meu tio Edgar, homem de feições outrora austeras, agora apenas um vulto consumido pela doença, respirava com dificuldade.      Eu, sentado ao seu lado, mantinha-me em silêncio. Não era um homem afetuoso, nem mesmo agradável; sempre fora duro, distante, um poço de segredos e silêncios. Mas ele fora a figura mais próxima de um pai que conheci, e algo em sua fragilidade me compelira a estar ali.      “Arthur,” sua voz soou como o ranger de uma porta velha, baixa e entrecortada. Inclinei-me para ouvi-lo. “Preciso... contar algo. Algo que guardei por muitos anos. É importante.”      Meu coração acelerou. A confissão de um moribundo é sempre u...

A TERRA NÃO ESTÁ MAIS LÁ

 ''A terra ensina-nos mais acerca de nós próprios do que todos os livros. Porque ela nos resiste.'' Antoine de Saint-Exupéry      O céu era um manto opaco, desprovido da familiaridade azul que eu lembrava. As nuvens pareciam formar padrões que me observavam, seus contornos pulsando com um sussurro invisível. Após dez anos no espaço profundo, eu esperava que meu retorno à Terra fosse um alívio, mas ao abrir a escotilha da cápsula de reentrada, encontrei um mundo que não deveria existir.      O ar era diferente – mais pesado, como se cada molécula carregasse uma carga de significados ocultos. O solo, onde esperava encontrar a poeira do deserto onde pousaríamos, era de uma textura estranha, lembrando pele ressecada. Árvores retorcidas se erguiam ao longe, seus galhos curvados como dedos em súplica.   “Missão concluída”, murmurei para mim mesmo, mas minha voz parecia afundar no espaço ao redor, absorvida por algo maior.      Quando che...