''A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa.''
Acordei ao som do meu próprio nome sendo gritado na televisão. Isso não era novidade. Steven Seagal¹, astro de ação, o eterno herói de rabos de cavalo e frases de efeito, já tinha sido gritado por muitos no calor de uma explosão. Mas dessa vez era diferente. Minha cara inchada de sono apareceu na tela com uma faixa vermelha pulsando embaixo: "MORTE DE SEAGAL ANUNCIADA: DESTINO INEVITÁVEL?"
— Que merda é essa.? — murmurei, coçando o queixo. A Televisão berrava com a eloquência de uma foice.
Era assim que funcionava nesse mundo. Uma vez que um destino era divulgado, a realidade dava um jeito de se alinhar. O universo era como um roteirista preguiçoso que odiava revisões. Para qualquer um normal, isso significava ter cuidado com as notícias. Para mim, significava que o universo acabara de contratar um exército de assassinos para garantir minha morte.
Me joguei da cama como se ela tivesse pegado fogo, o chão frio me lembrando que eu ainda estava vivo. Maldito seja quem inventou esse sistema de profecias midiáticas.Liguei para meu agente, Doug. O telefone tocou uma, duas, três vezes antes de sua voz engasgada atender:
— Steven! Cara, eu... eu ia te ligar. Sabe, essa coisa toda na TV...
— Cala a boca, Doug. Quem soltou isso? Quem quer me matar agora?
— Olha, isso veio do Nada. O Nada de sempre! O tabloide ‘Realidade Antecipada’ publicou e... bom, você sabe como é. Virou profecia.
— Profecia uma ova. Isso virou um contrato de morte.
Do outro lado da linha, Doug suspirou com o peso de quem preferia estar em qualquer outro emprego.
— Certo. Vamos ser racionais. Já entrei em contato com alguns dos seus velhos amigos. Sabe, caras que podem ajudar...
— Que tipo de ‘amigos’?
O silêncio de Doug me deu todas as respostas que eu precisava. Mercenários. Ex-fuzileiros. Gente que você não quer encontrar em um beco, e que, geralmente, nem sobrevive nos filmes.
Desliguei antes de ouvir mais desculpas. O telefone parecia mais pesado do que nunca, como se carregasse o peso do absurdo. Olhei para o espelho no banheiro e vi o homem que todos queriam morto: a barba rala, os olhos cansados, e o rosto que já tinha levado mais socos do que uma piñata. O destino estava tramando algo, e eu precisava estar preparado. — Eles estão vindo.—
A primeira tentativa foi patética, para dizer o mínimo. Uma van preta estacionou do lado de fora da minha casa, e três caras saíram vestindo ternos baratos e mais clichés do que um vilão de filme B. Tinham armas automáticas, mas também algo pior: confiança.
Me escondi atrás da porta com uma frigideira. Claro, podia ter usado as espadas samurais que colecionava ou as armas de verdade guardadas no porão, mas algo no simbolismo de uma frigideira me pareceu adequado. O primeiro entrou sem avisar e, antes que pudesse apontar a arma, a panela se encontrou com seu rosto. Ele caiu como uma pedra.
Os outros dois demoraram para perceber estarem em desvantagem. O segundo tropeçou no corpo do primeiro, e o terceiro decidiu que seria esperto jogar uma granada. Eu não sabia o que ele esperava, mas o resultado foi um buraco na minha parede e três caras desmaiados no meu gramado.
Não era a primeira vez que minha casa se tornava um campo de batalha, mas já estava ficando velho para limpar explosões. — Vai piorar.—
A segunda tentativa veio na forma de um drone armado. Foi como lutar contra um videogame, exceto que o jogo queria muito me matar. Peguei um arco e flecha que tinha guardado (porém, nunca usado) e, incrivelmente, derrubei o desgraçado no terceiro tiro. Foi um momento bonito. Lembrei de Robin Hood e, por um breve instante, quase senti orgulho. Depois percebi estar apenas adiando o inevitável.
No terceiro dia, as coisas ficaram sérias. Alguém contratou um esquadrão de ex-marines para me pegar em um restaurante de sushi. Tudo porque eu queria uma refeição decente antes de morrer. A luta que se seguiu foi um desastre coreografado: cadeiras quebradas, sashimis voando, e um chef gritando em japonês algo que eu esperava não ser um insulto.
Eu sobrevivi, mas o restaurante não. Adicionei mais um lugar à lista de “locais que eu não posso mais visitar”. — O que acontece se eu viver?—
Sentado na cozinha destruída de casa, a pergunta me atingiu. O universo parecia empenhado em me apagar, mas e se eu simplesmente... vivesse? Será que quebraria as regras? Ou talvez o próprio universo quebrasse primeiro? Não era algo que eu podia responder sozinho, mas uma coisa era certa: se queriam me morto, teriam que trabalhar muito mais para isso. Afinal, Steven Seagal sempre teve uma regra: nunca abaixar a guarda, nem mesmo contra o destino.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, em uma sociedade distópica onde jornais conseguem transformar suas manchetes em realidade, Steven Seagal, astro lendário de filmes de ação, é declarado morto antes mesmo de sua hora. Agora, ele deve enfrentar um mundo que conspira contra sua sobrevivência, com assassinos, mercenários e até o destino em si determinado a garantir que a profecia se cumpra. Armado apenas com suas habilidades, humor e uma dose de improvisação, ele embarca em uma luta implacável para desafiar a morte e reescrever sua própria história. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
1. Steven Seagal é um ator, produtor, músico e especialista em artes marciais americano, conhecido por sua carreira nos filmes de ação. Seus longas são marcados por tramas sombrias e diretas, com personagens geralmente ex-militares ou agentes de elite que enfrentam sistemas corruptos e organizações criminosas. Mestre em aikido, Seagal entrega cenas de luta eficientes e brutais, enquanto seus protagonistas seguem um rígido código de honra. Ele alcançou grande sucesso nos anos 1980 e 1990 com filmes como Above the Law e Under Siege, embora suas produções posteriores tenham enfrentado críticas por repetitividade e qualidade decrescente.

Ótimo texto, parabéns.
ResponderExcluirExcelente! Adorei 👏
ResponderExcluirO texto é uma narrativa criativa e envolvente, que mistura humor e ação de maneira divertida. A ideia de um universo onde profecias midiáticas determinam o destino das pessoas é intrigante e oferece um pano de fundo interessante para a história. A personalidade é retratada de forma caricata, mas cativante, mostrando um herói improvável que enfrenta o destino com uma combinação de coragem e humor. A linguagem é dinâmica e mantém o leitor envolvido, enquanto o enredo oferece reviravoltas emocionantes e cenas de ação bem descritas. No geral, é uma leitura divertida e cheia de imaginação.
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