''O criminoso, no momento em que pratica o seu crime, é sempre um doente.''
O cheiro ácido de sangue e decadência pairava no ar, misturando-se ao odor de lixo que se acumulava nos cantos escuros do galpão abandonado. A chuva fina, típica das tardes brasilienses, escorria pelas frestas do teto de zinco, criando pequenas poças no chão sujo. A detetive Carolina Maia ajustou a lanterna e deu um passo à frente. O terceiro corpo estava ali.
A cena era meticulosamente brutal. A vítima, uma mulher de cerca de trinta anos, jazia em um altar improvisado, cercada por velas derretidas e desenhos de formas geométricas riscadas no chão. O corpo exibia as mesmas marcas encontradas nas duas vítimas anteriores: cortes profundos nos pulsos e um símbolo triangular gravado no peito. Carolina respirou fundo, tentando afastar a náusea.
"Mais um caso de pesadelo", pensou. Aquilo não era apenas trabalho; era um peso constante que ela carregava nos ombros. — Hora da autópsia para confirmar, mas parece que é o mesmo modus operandi — disse Jonas, seu parceiro, enquanto tirava fotos da cena. Carolina assentiu em silêncio. A sensação de deja vu era sufocante. As semelhanças entre os casos não eram apenas técnicas; havia algo de pessoal na maneira como os corpos eram dispostos, como se o assassino quisesse passar uma mensagem que apenas ela deveria entender.
Na delegacia, o quadro de investigação estava repleto de fotos das três vítimas. Elas não tinham relação aparente entre si, exceto por uma coincidência perturbadora: todas frequentaram a mesma escola na adolescência, o Colégio Estadual do Norte, palco de um trágico massacre há quinze anos. Carolina lembrava vagamente daquele caso — um aluno de dezesseis anos havia levado uma arma para a escola, matando cinco colegas e se suicidando em seguida. O caso foi abafado rapidamente pelas autoridades da época, mas ela sabia que o trauma havia ficado.
"Essa ligação não é coincidência", ela pensou, enquanto examinava os arquivos antigos. Naquela noite, Carolina não conseguiu dormir. As imagens dos corpos e as marcas deixadas pelo assassino revisitavam sempre que ela fechava os olhos. Levantou-se da cama e foi para a cozinha preparar um café, tentando dissipar a sensação de que algo escapava ao seu controle.
Enquanto mexia mecanicamente a colher na xícara, lembrou-se de algo. Uma das vítimas, a segunda, havia mencionado antes de falecer que recebeu mensagens anônimas dias antes do crime. Carolina pegou o celular e enviou uma mensagem ao perito digital, solicitando que verificasse os dispositivos das três vítimas em busca de mensagens ou padrões semelhantes.
Dois dias depois, a confirmação veio: todas as vítimas haviam recebido e-mails misteriosos contendo uma única palavra, “Reparar”, e uma foto de turma do colégio. No canto da imagem, estava um rosto que Carolina conhecia bem — Jonas, seu parceiro de investigação.A revelação foi um soco no estômago. Como não havia percebido antes? Jonas também frequentou o mesmo colégio, estava na mesma sala das vítimas e, pior, era amigo do atirador do massacre. Ele nunca mencionou isso em todos os anos em que trabalharam juntos.
Carolina lutava contra a ideia enquanto folheava o arquivo do caso antigo. Jonas era uma criança na época, mas seu nome aparecia em um depoimento esquecido. Ele havia alertado os professores sobre o comportamento violento do atirador semanas antes do massacre. Ninguém o ouviu. Naquela noite, ela confrontou Jonas. A delegacia estava vazia, e ele parecia exausto, como sempre.
— Você sabia o que estava acontecendo com elas — disse ela, deixando um envelope com as fotos das vítimas sobre a mesa. Jonas olhou para as imagens, seu rosto endurecendo.
— Não sabia que elas iriam morrer — respondeu calmamente. — Eu tentei... Reparar.
— Reparar? É isso que você chama de assassinato? — Carolina não conseguiu conter a raiva.
Jonas a encarou. Pela primeira vez, ela viu algo em seus olhos que não reconhecia — uma mistura de dor e frieza calculada.
— Eles destruíram vidas, Carolina. Não eram apenas vítimas. Cada um deles estava ligado ao massacre, direta ou indiretamente. Alunos que humilharam o garoto, professores que ignoraram os sinais... Todos têm sangue nas mãos. Eu estou apenas fechando o ciclo.
Ela recuou um passo, sentindo o coração disparar. A arma em sua cintura pesava como chumbo. Jonas não fez menção de resistir, mas seu olhar a desafiava.
— E agora? Vai me matar também? Porque você também faz parte disso.
A frase ficou ecoando em sua mente. Ela fazia parte disso? Carolina sabia que havia falhado, que havia ignorado as pistas que estavam diante dela desde o início. Mas Jonas subestimou sua vontade de buscar justiça. Em silêncio, ela ergueu as mãos, gritando para que ele entregasse a arma antes que fosse tarde.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, uma série de assassinatos brutais abala Brasília, deixando a detetive Carolina Maia imersa em uma investigação que parece mais pessoal a cada nova pista. Com corpos dispostos em cenas meticulosamente perturbadoras e uma conexão obscura com um evento traumático do passado, Carolina se vê em uma corrida contra o tempo para desvendar os segredos que ligam as vítimas e impedir que o ciclo de violência continue. Em meio a mistérios, simbolismos enigmáticos e dilemas morais, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria e próxima do que jamais imaginou. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Interessante caso de violência punitiva que está sendo silenciada.
ResponderExcluirParabéns pelo texto.
ResponderExcluirÓtimo texto, instigante e assombroso .
ResponderExcluir