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O TEMPLO

 

"Quando se está preso, o pior é não poder fechar-se a porta.'' - Stendhal


    Pilotava um avião bimotor, sobrevoava uma densa floresta, em questão de poucos minutos, fui informado pelo controlador de tráfego aéreo que seria estava indo para uma enorme tempestade, tudo corria conforme esperado. Faltavam quarenta minutos até chegar ao meu destino, toda a fuselagem começou a tremer quando entra em uma forte turbulência, o manche trepidava, exigia muita força para controlar o avião mesmo com o piloto automático ligado, em uma brevidade temporal pequena, eu já estava com minha roupa coberta de suor, ou seja, não era uma atividade nada esperada, sintonizei o rádio com a Torre mais próxima, tentei mandar uma mensagem, mas ouvi apenas ruídos e um barulho estranho do outro lado.

    A chuva se intensificou de forma gradativa, até que olhei para os lados em uma tentativa de enxergar um modo de contornar a tempestade, avistei lá em baixo, três sinais de fumaça, ouvi dizer que poderia ser de um povo que vivia recluso com o contato humano, todavia, por qual razão conectando cada sinal de fogo, eu poderia formar um enorme triângulo? Teóricos da conspiração apenas iriam associar algo com o governo americano ou sociedade secreta, no final tudo conversa para boi dormir, pensei.

    Não lembro de muita coisa quando despertei, apenas me encontrava com uma forte dor de cabeça, e alguns ferimentos leves para minha sorte, meu avião caiu no meio do nada, meu grande azar que todas as formas de contato com o exterior seriam impossíveis, engoli em seco, pois aquilo aumentou o meu temor, comecei a respirar com mais frequência que o normal, corri o mais rápido na aeronave para retirar qualquer suprimento que poderia ser útil, desconhecia quantos dias iria passar ali, ou seja, deveria iniciar o racionamento de comida e água. Me senti uma das crianças da obra, o Senhor das Moscas.

    Olhando atentamente para o chão, notei pegadas, aquilo reativou minhas esperanças de ser salvo, até tirou um sorriso do meu rosto, fato mais árduo que tudo que seria acessível naquele momento, todos os sinais de passo conduziam para um único local, caminhei devagar, observando atentamente o chão com receio de cair em uma armadilha e me tornar uma vítima como no filme holocausto canibal,  um ar frio fez com que todos os pelos do meu corpo se levantassem, especialmente dos braços e nuca, sentia que no meio do mato existiam alguém me observando, sentia impotente no meio de todo esse ambiente desconhecido.

    Após caminhar cerca de dois quilômetros, encontrei um lugar amplo, aberto, indicação de uma civilização antiga, supostamente um antigo vilarejo ali já abrigou uma enorme população, cada "residência'' constava com teias e muita poeira, fazia décadas ou séculos até que eu encontrasse esse local. Mas o que ocorreu com todos? Essa dúvida não saia da minha cabeça...

    Olhei um possível templo religioso, percebi isso por conta das inscrições na parede, e conforme foi projeto os degraus permitiam que água ou um determinado líquido enchesse pequenas aberturas no chão, que dava acesso até uma fonte, quando me aproximei desse local, quase vomitei, apresentava um forte cheiro de carne podre e sangue que aparentava ter sido usado nessa semana, o que mais me assustou foi um esqueleto completo que encontrei por lá, vestia calças longas próprias para esse local, uma blusa rasgada, por cima um casaco de couro, na sua cintura uma mochila pequena e perto da mão direita, chicote e da sua cabeça um chapéu marrom, um fato que ressaltou minha atenção foi ter encontrado um papel junto dele.

     

    Caso esteja lendo isso, provavelmente estou morto, por conta de um veneno que um desses doentes me afligiu quando tentava cruzar a porta do templo, já ouviu falar de ARAEDAS? O mito da cidade perdida que os espanhóis jamais encontraram, talvez hoje seja o seu dia de sorte, ao contrário do meu, sendo cômico mesmo após morto,  pegue minha bolsa, nela há o mapa que irá conduzir você para a tão sonhada riqueza e poder...

    Após ler isso, nem me dei o trabalho de terminar o resto e já mergulhei em direção da RIQUEZA, isso traria fim ao meu sofrimento do mundo, eu acho. Chegando na porta do templo, avistei um ser estranho, detinha asas, mistura com polvo, parecia até um dragão, mas marítimo, ou será que esse povo cultuava de forma indireta uma criação do escritor Lovecraft, sendo tão bizarra o famoso Cthulhu, pensavam ser fruto de uma divindade espiritual, pude notar muitos objetos que foram feitos em sua adoração, o que mais cativou minha atenção foi nos moldes de uma gigante cruz, deveria ter uns três metros de altura com 2 de comprimento, uma obra fantástica, até me irritei de ser impossível captar essa imagem, perto de uma tenda azul, a mesma que encontrei no início do percurso. Será estar dando voltas? Ou seria apenas por conta de bater a cabeça ou estaria ficando LOUCO? 

     Do nada, apenas caí e apaguei, acordei horas posteriores, preso com cordas tanto nas mãos quanto nos pés, inclusive minha boca estava tampada, torcia muito para que não sofresse muito antes de morrer como uma sopa para alimentar esse povo nativo, todos eram brancos, fora o líder que era negro, cada um abriga determinada pintura em sua pele, como se fosse uma grande seita, associei pela forma que tratavam cada um, de forma indireta existia um nível de hierarquia. O senhor me dirigiu algumas palavras, não entendi nada do que disse, mas animou quem me carregava, gritavam o mesmo termo muitas vezes, como quando o seu time faz um gol na final. Olhava atônico tudo aquilo, sem nenhum poder, acredito que essa foi a sensação inicial dos povos nativos durante as grandes navegações. Senti uma dor no estômago, apaguei novamente, despertei amarrado na enorme estátua, estavam retirando meus órgãos vitais comigo ainda vivo, grande parcela do intestino delgado, estava envolto de uma roda de madeira, tentei gritar, mas sem conseguir, senti sangue, cortaram a minha língua, comecei a sentir lágrimas caindo na minha bochecha, quem dera se essa previsão estivesse certa, era um líquido inflamável, em poucos minutos jogaram fogo, me tornei fruto de uma seita que mesmo após morto me deixava aflito e com muitas dúvidas, ou de forma indireta a ideia do desfecho do roteirista que elaborou o enredo para o filme o homem de palha.

    — Amigos, olhem, mais um avião!  Vamos convocar a tempestade do nosso Deus, Cthulhu.

    Cerca de meia hora após o início do ritual, escutou longe um som alto, fogo, fumaça e mais um avião que caiu, entretanto, agora diferiria, não era de passageiros, mas uma carga, apresentava uma enorme estrela na cauda, e com a seguinte frase em amarelo "RISCO BIOLÓGICO'' com o logo famoso que ressaltava isso, contudo, nenhum dos nativos conseguiam ler, era possível escutar gritos não de felicidade ou excitação, mas agora de dor e horror. O caçador se tornou a caça! 

 

     


 

 INSPIRAÇÃO

 
      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. Foi inspirado na ideia de trabalhar o aspecto de crença em divindades, tema bastante abordado nos contos do escritor Lovecraft, além disso, incluindo referências aos filmes que abordam fatos semelhantes com o do personagem, inclusive a clássia distopia do William Golding. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 

 

 

 

     

Comentários

  1. Narrativa fluente, texto riquíssimo.

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  2. O terror e suspense no texto dão a liga para prender a atenção do leitor.
    Muito bom. 👏🏽👏🏽

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  3. Ótimo texto ,adorei as referências 👏

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