Pular para o conteúdo principal

O DESPERTAR

 "Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.''- William Shakespeare

   Despertei bastante assustado, provavelmente tive mais um pesadelo como ocorre casualmente após entrar em sono profundo. Meu coração estava batendo muito, respiração ofegante, o mesmo que senti quando estava lá. Sentei na cama, coloquei uma mão na cara para refletir um pouco. Será que aquilo fazia parte do transtorno pós traumático no qual fui diagnosticado? Seria esse remédio que preciso ingerir toda manhã após abrir os olhos? Pensou.
  Recebi um bipe, avisando que em breve seria convocado para uma revisão de rotina. Pois, há alguns meses, após aquele trágico evento não servi mais na EstaySoldier. Mesmo tendo ganhado  medalhas por meus atos durante meu tempo em serviço, todavia, não serviam de nada em consequência de problemas psicológicos que poderiam ceifar minha vida em um piscar de olhos.
  Encontrei alguns amigos na Estação REAK-7080, debatemos pouco, não queria entrar em nenhuma conversa profunda naquele momento, só desejava ver por qual razão haviam me chamado, pois sabia que era para um mero exame de rotina. Sabia que havia um motivo mais relevante por trás. Ao chegar na estação de transporte, embarquei em uma nave para me levar no local designado pelo oficial do posto.
  Durante a viagem, apaguei por alguns minutos, pois não havia dormido muito bem. Estava em uma sala que trancamos, enquanto fazíamos a vistoria, em um grande salão, nenhuma luz ou ser vivo visível, além da nossa equipe. Até que por coincidência do destino, começamos a ouvir um som ensurdecedor, como se alguém estivesse gritando em grande sofrimento, atacada por um urso ou um leão, pois notamos marcas de garras e dentes. Depois de analisar com o identificador, foi notificado que não era de uma nenhuma espécie conhecida na galáxia, aquilo me deu um calafrio na espinha.
  Recentemente, fui avisado por ser a pessoa mais experiente no exército, que seria designado para liderar aquele grupo de jovens soldados, pois mesmo muito tempo fora de campo, ainda era o superior no que diz prática de combate contra aquelas criaturas, chamava assim, pois até então desconhecia um nome, mas, para mim aquele era um ser oriundo das profundezas do inferno. Não apresentava nenhum pelo; apenas músculos; andava de rápida em duas ou quatro patas; soltava rugidos que faziam até o mais bravo homem congelar.
  Me senti honrado pelo convite, mas neguei, comentando que seria suicídio e não iriam durar mais que dez minutos com aqueles seres. Até que comentaram que uma cientista, a Sabrina Araújo havia estudado a criatura, pois em nosso primeiro encontro, foi possível recolher tecido ósseo e celular daquele ser. Fomos para uma área com aspecto de pesquisas/hospitalar. Fui apresentado para ela, ela é morena, cabelo liso, magra, usa óculos, aparenta ser descendente da união entre indígena e asiática; a especialista no assunto (por conta do seu doutorado em Biomedicina). Fez uma breve explicação de como pareciam indestrutíveis, pois realizavam uma regeneração muito rápida devido ao tempo que tiveram para se adaptar com o contato de outros seres.
 Fomos enviados para a Estação X-STATE, pois haviam indícios que seria o local provável para ser atacado, ainda não acreditava nisso, pois era uma grande base militar, ou seja, não teriam tanto sucesso caso investissem nela. Mesmo assim, não poderia questionar as ordens dos superiores, deveria apenas realizar o meu trabalho bem feito e garantir que voltaria inteiro com minha equipe.
 Chegando lá, notamos que havia sido tarde demais, pois não encontramos um único corpo em mais de milhares de salas que checamos, alguém tinha desligado a energia central, pois só estava ligado as luzes de emergência, uma luz azul forte que em tempos e tempos iluminava o local, pois estava girando. Essa situação, me recordou daquele evento traumático, pois era do mesmo modo. Convoquei determinados homens, e montamos dez equipes, dividimos para montar um perímetro de ataque e defesa, caso fosse necessário. Montei dois para irem comigo para ligar novamente a energia principal.
 A situação inicial não aparentou nenhuma troca de tiros, aquele silêncio quase mortal, estava começando a ser uma razão para todos desconfiarem se não seria uma armadilha. O horror do inferno foi apresentado para aqueles jovens, agora poderia dizer que não eram mais soldados virgens, quando entramos em um corredor, nossos sensores de movimento começaram a fazer um zunido, que dizia que em menos de 2 minutos teríamos contato com quem aniquilou a tripulação, ouvíamos rugidos, a cada passo se tornando mais alto e sentíamos no chão o pisar dos passos irregulares. Dei o sinal para se posicionarem, no momento específico, gritei: — Fogo! Atirem seus, merda, ou jamais veremos a luz do amanhecer novamente!' Abrimos fogo, a parede que outrora era branca, agora estava banhada de cor vermelha, entranhas e outras partes do corpo. Alguns soldados até vomitaram ali mesmo, pois não aguentaram o fedor. Entretanto, o que mais nos marcou, foi um pequeno equívoco, o que havíamos exterminado não eram as criaturas, e sim apenas mulheres e crianças inocentes.
  Todos ficamos abalados, eu mais ainda. Chegamos no local, ligamos a energia, e foi constado pelo outra equipe que tinha ficado vigiando a entrada, que ouviram gritos e sons batendo na porta onde ficavam as naves de transporte. Outra equipe notificou um extenso caminho de sangue, que ia de encontro aonde fomos enviados, após a finalização do áudio, percebi que o medo tomou conta de todos naquele recinto, percebi armas tremerem. Até que um deles, avistou um olhar diferente, pensou que seria um sobrevivente que tinha se escondido, quando abriu a porta, caiu metade de um homem em cima dele, foi tomado por um grito que foi difícil ser abafado.
 Ninguém esperava até que a energia caiu, ligamos a visão noturna, e notamos sinais de garras que haviam cortado o fio que conduzia. Ao mesmo tempo, recebemos um arquivo de voz que apresentava falhas, mas só escutamos, "abriram'', ''fugir'', ''sangue por todo lado'', ''ajudaaaaaaaaaaa'' e um ruído estranho. Voltamos correndo pelo mesmo corredor, entretanto alguma interferência desabilitou nossa visão, ligamos as lanternas, e criava algo corpulento e pela penumbra, estava correndo em nossa direção, e aquilo não era humano. Começamos atirar e correr em sua direção, porque existia apenas um caminho para nosso azar. Senti em uma balada, com a luz do cano das armas, iluminavam aquele lugar estreito, os gritos de medo dos rapazes e de dor da criatura, até que não percebemos um fato peculiar.
  Começamos a ouvir dezenas de passos dentro da parede, dutos de ventilação, e começaram a rasgar a parede literalmente e nos atacarem, pedi suporte, mas sem nenhuma resposta. Corríamos como loucos, mas ouvirmos amigos de farda, serem triturados em questão de poucos segundos, aquilo foi criado para uma única finalidade matar todos que estavam ali, com o rifle na mão, era difícil notar ao nosso redor os feridos, mas notei pessoas com membros mutilados, em agonia de dor, outros com hemorragia (provavelmente morreria em questão de minutos), e a grande parcela nos moldes quando colocamos a carne em uma trituradora, praticamente impossível definir quem eram os mortos. 
 Tivemos êxito, se posso usar tal palavra, de conseguir selar aquela porta, ao retornar para ala principal, me encontrei no inferno, grande parcela de feridos. Por essa razão sempre acompanha cerca de quatro médicos, dois tinham falecido no combate, um estava com outra equipe. Chamei a Dra. Marianna, para auxiliar os sobreviventes no local e da minha tripulação, ela é alta, branca, cabelo moreno, magra mas com o corpo bem distribuído , pois  é um cargo que exige muita atividade física, razão que explicava suas curvas. Quando ela se aproximou, lembrei que a conhecia de algum lugar, estudamos juntos em Marte. Falei com ela o que deveria ser feito, me sugeriu para buscarmos um local melhor, caso os monstros voltassem. Melhor sugestão que ouvi.
  Mobilizamos os feridos, todavia, seria necessário enviar uma mensagem para a central, que poderia ser uma missão suicida, mas, ao mesmo tempo, a única possibilidade de nós sairmos vivos de lá, foi verificado que pela extremidade das variações da física na hora do pouso, todos os transportes foram afetados. Indaguei quem iria comigo, e para a minha surpresa toda minha equipe se prontificou, quem estava mais impossibilidade foi colocado de forma estratégica para não falecer sem ceifar alguns, e deixamos outro grupo lá protegendo eles. Me despedi da Mari, solicitou apenas para voltar vivo, mostrei a fotografia que existe no meu colar, aí ela entendeu. Aquela doce e jovem moça, de olhos castanhos, saudades.
   No caminho, todos sabiam sobre o meu passado, mas um soldado me indagou, sobre ser aquele que sobreviveu 48 horas até receber suporte. O Respondi de forma positiva, falei apenas que fiz o que foi necessário para sobreviver, ainda mais após perder alguém muito importante, por isso carrego essa foto dela comigo, pois se for para morrer, desejo que essa seja minha última lembrança antes de apagar para sempre. Notei que ele engoliu em seco, e percebeu ter tocado em um assunto delicado. Outro soldado me indagou se tinha medo da morte, respondi que seria a única forma de acabar com o meu longo sofrimento; percebi que todos se calaram, chegamos lá, sem muita dificuldade, talvez ainda estejam por aí esperando o momento certo, ou se alimentando dos mortos. Configuramos o receptou para enviar a mensagem, apertei o botão de gravar e disse: - Fomos atacados por aquilo que havia avisado antes! Temos poucos suprimentos, não penso que iremos passar muito tempo vivos com o que restou, precisamos de reforços ou sermos resgatados (o que seria a melhor opção no momento, pensou). Foi enviada, eu acho, em poucos minutos recebemos a ligação do Comandante, em chamada de vídeo, mesmo com ruído percebemos a grave situação, pois ele estava atirando contra algo, e sua equipe tentando resistir ao máximo, ouvimos golpes na porta com uma força sobre-humana, comentou que não seria possível mandar resgate pela situação que se encontrava, até que ficou apenas cinza e um xiado até cair por completo.
  Ouvimos uma forte explosão, oriunda da garagem externa, de acordo com informações mais próximas que recebemos do rádio, notamos que milhares dos demônios estavam em nosso encalço com uma sede de sangue. Usamos tudo o que tínhamos, pois, recebi a informação que duas naves pequenas poderiam partir, todavia, contamos com 300 pessoas vivas, e só cabia nesse transporte 40, contando com os dois.  
  Um grupo deveria permanecer para a humanidade sobreviver, ainda mais poucas mulheres que conseguimos resgatar sem ferimentos graves. Ouvimos gritos oriundos de cima da nossa sala, nos preparamos, pois, sabíamos que iríamos morrer, e não haveria escapatória. Começamos como um enxame a invadir a central, saiam de todo buraco que era possível, atiramos milhares de vezes, ali, finalmente me senti no inferno, o medo da morte era irreal naquele momento, lutamos até última bala, homem e tudo que foi possível utilizar, até que fui ferido na barriga um corte profundo, senti uma dor enorme. Apaguei pouco tempo depois.
  Estava sentando com uma pistola na mão, dando tiro no que ainda se movia, tentando evitar uma morte mais trágica, poucos de nossa equipe ainda estavam em condições de combate. Adormeci novamente. Minha amiga me encontrou, já com poucas forças para expressar meus pensamentos de forma coerente, estava suando muito, e como ela constou com hemorragia interna que seria necessária uma cirurgia imediata, o que não era possível naquele momento. Ela me deu um pouco de água, tentou levar consigo o meu colar, segurei com força o seu pulso, disse que gostaria de ficar com ele até o fim. Peguei, abri, e pude contemplar daquela mulher, notei que ela estava em lágrimas ali, mesmo tentando não demonstrar. Gritei o nome de quem se encontrava na foto.... Mar....a, e com meu último suspiro morria em volta de sangue, de um modo não muito honroso, para ser recordado ou desejado. Tomara que não tenhamos morrido em vão, a Dra. verificou o pulso de Adam, e constatou que ele finalmente estava morto e deveriam sair de lá. Ingressaram na nave para buscar viver, todos se fixaram em sua posição, o piloto digitou as coordenadas no painel, após alguns minutos estavam vagando pelo espaço, sem rumo definido. A outra nave, não teve tanta sorte assim, pois existia uma pessoa contaminada o que fez que antes mesmo de deixar o hangar, se chocasse com uma estrutura e explodisse em mil pedaços.

  Acordei em uma pequena sala, retangular; parede de cor branca, ao lado da cama uma mesa de canto com um copo de água e alguns comprimidos, o mesmo que estava tomando... Será? Comecei a gritar, o nome dela, todavia, sem nenhuma resposta animadora, até que observei uma médica e o seu colega, me examinavam pelo vidro da porta, e pela movimentar da mandíbula e dos olhos, debatiam sobre mim.

  — Dra. Marianna, por acaso o Adam, apresentou melhora desde o início da internação?

— Sinto lhe informar, caro Dr. Carl. Infelizmente não vejo nenhuma melhora no quadro. Até percebi uma coisa nele.

 — O quê? Indagou o colega de profissão. 

 — Às vezes, a perda de uma pessoa é tão grave para quem passa por isso, que para criar uma explicação coerente e tentar apagar aquele evento trágico. Há pessoas que criam um universo paralelo totalmente fictício, pois dessa forma será menos doloroso passar pelo luto.



INSPIRAÇÃO
 
  A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto, surgiu em inúmeros eventos, foi inspirado em uma ideia de trazer a essência que elaborei no conto a noite melancólica mas usando o espaço; demonstrar um personagem que carrega um trauma passado; homenagei duas melhores amigas ( Marianna Carolina e Sabrina Araújo) inclusive o curso; a luz azul que descrevo no corredor é baseado na tela do meu monitor, pois ligada com o pc desligado fica pesando, ou seja, iluminando a parede branca do meu quarto (pensei em abordar isso no conto). Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!



Comentários

Postar um comentário

TEXTOS MAIS LIDOS

CARTA DE AMOR

"Apai xonar-se por você é como pisar em uma mina terrestre. " - King Theta    Pensei ter chegado atrasado naquela palestra na faculdade, para a minha sorte ainda não tinha começado. Antes de sentar reparei em uma bela mulher, jovial, mas não foi a parte física que me atraiu nela, mas no que diz relação a sua beleza interna (intelectual), pois notei, enquanto ela esperava iniciar o evento, lia uma obra, que examinando melhor a capa após ela fechar para checar o seu celular, notei que era o grande clássico nacional, Dom Casmurro, nesse instante verifiquei que tinha que falar com ela.  Após cerca de duas horas, terminou, fui logo ao seu encontro, me apresentei de forma rápida, debatemos de forma breve sobre literatura, mas era difícil me concentrar nas suas palavras, enquanto de forma indireta contemplava ela. Morena; cabelo cacheado; olhos castanhos; pelo jeito que utilizava diferentes termos na conversa, observei que apresenta um vocabulário bastante rico; pelo seu colar, ...

Texto especial - CURIOSIDADE DOS GRANDES ESCRITORES

"Nenhum escritor é bom a não ser que tenha sofrido.'' - Henry Miller   Acredito que todos quando lemos uma obra nos questionamos o que inspirou determinado escritor ou escritora para elaborar determinada obra, isso é bastante normal, no texto de hoje essa é minha meta, apresentar alguns autores famosos e demonstrar por qual razão escreveu certa obra, ou focando em determinada característica literária dele.   Quem escreve utiliza um grande ramo de inspirações para criar uma obra, podendo ser eventos positivos ou negativos que dão conteúdo e forma para um simples texto, que ao passar de dias, semanas, meses e por fim ano, irá ganhar formas de uma livro. Há autores que se inspiram em outras obras famosas de um tema similar do que deseja abordar, como é o caso das distopias, cada uma trata sobre uma trama quase "idêntica'', mas o que a torna essa nessa categoria é a cereja do bolo.    Edgar Allan Poe escritor do século XIX, quem lê seus contos atualme...

Pandemia - Dificuldades na Quarentena

 "A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido." - H.P. Lovecraft     Quem esperava que o ano de 2020 iria "presentear a humanidade'' com esse vírus? Que teve início na China, em poucos meses por meio da Globalização levou as maiores cidades do mundo a entrar em estado de alerta, obrigando cada um deles para evitar a alta contaminação e por conta disso decretar o fechamento de instituições comerciais, educação em todos os níveis, entretenimento e outras diversas ramificações possíveis no que dita meio de obtenção de capital financeiro, ou seja, estamos vivendo um fato que irá mudar a forma como vivíamos antes do vírus. Acredito que o principal sentimento de todos é ansiedade, querendo ou não ela aumentou nesse período, casos de violência contra a mulher, e como vemos em muitos sites de notícia, a redução da economia ao nível mundial, e outras questões subjetivas, mas muito imp...