''Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte.'' Sigmund Freud O primeiro era um homem de cinquenta e três anos, enfarte do miocárdio. Nada de especial. Abri o tórax, pesei os órgãos, coletei fluidos. Quando cheguei ao rosto, parei. Os músculos faciais contraíram de um modo que a morte não explica. Rigor mortis não produz serenidade. Não produz aquilo. As pálpebras meio cerradas, os cantos da boca erguidos numa fração que não chegava a sorriso, os sulcos da testa completamente apagados. Alguém que tivesse visto aquele homem no caixão diria que ele parecia em paz. Eu sabia que não era paz. Era reconhecimento. Como se nos últimos segundos, entre o início da isquemia e o apagamento definitivo, ele tivesse visto algo que esperava há muito tempo. Documentei como "expressão atípica pós-óbito" e arquivei. O segundo veio três semanas depois. Mulher, quarenta e um anos, afogamento ...
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