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Mostrando postagens de março, 2026

O RECONHECIMENTO

 ''Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte.''  Sigmund Freud           O primeiro era um homem de cinquenta e três anos, enfarte do miocárdio. Nada de especial. Abri o tórax, pesei os órgãos, coletei fluidos. Quando cheguei ao rosto, parei. Os músculos faciais contraíram de um modo que a morte não explica. Rigor mortis não produz serenidade. Não produz aquilo. As pálpebras meio cerradas, os cantos da boca erguidos numa fração que não chegava a sorriso, os sulcos da testa completamente apagados. Alguém que tivesse visto aquele homem no caixão diria que ele parecia em paz. Eu sabia que não era paz. Era reconhecimento. Como se nos últimos segundos, entre o início da isquemia e o apagamento definitivo, ele tivesse visto algo que esperava há muito tempo. Documentei como "expressão atípica pós-óbito" e arquivei.           O segundo veio três semanas depois. Mulher, quarenta e um anos, afogamento ...

KATANA

         ''Toda a descoberta da ciência pura é potencialmente subversiva; por vezes a ciência deve ser tratada como um inimigo possível. ''Aldous Huxley                  O visor do Comunicador Pessoal marca 14h47 quando o Assistente de Bem-Estar sorri de dentro da tela e autoriza a visita de Marcella ao Depósito. A jovem jornalista ajusta os óculos no rosto, guarda o dispositivo na bolsa ao lado da câmera fotográfica analógica e atravessa os corredores imaculados do Ministério do Equilíbrio pensando na ironia: está autorizada a contemplar o porão da miséria humana justamente quando sua taxa emocional apresenta números exemplares. Na recepção, entrega a identificação para a atendente de cabelos perfeitamente penteados, dessas que passaram por reajustes tantas vezes que esqueceram a própria sombra, e aguarda a liberação do acesso com a mesma curiosidade que tinha quando criança, quando investigava cada canto da cas...

A FÍSICA DO APEGO

''Abandono: uma jangada que sai sem você dentro dela.'' Adriana Falcão        A sala cheirava a café requentado e desinfetante. Oito cadeiras de plástico branco formavam um círculo imperfeito, e eu ocupava duas: uma para mim, outra para Ela. Caneca Azul. Esmaltada, com uma lasca minúscula na borda que meu polegar não parava de acariciar. A terapeuta falava sobre resiliência, mas eu só conseguia pensar na pressão dos meus dedos, na fragilidade da porcelana. Um calafrio me pegou desprevenido. E se aquela pressão fosse a gota d'água? E se ela interpretasse meu toque constante como uma forma de agressão, uma falta de apreço, e decidisse merecer um dono mais cuidadoso?      Do outro lado do círculo, um sujeito mexeu o pé sem parar. Trinta e poucos anos, camisa amarrotada, olheiras profundas. Ele não tirava os olhos do bolso da calça, de onde um leve ruído elétrico indicava vida. A cada vibração discreta do aparelho, um tremor percorria seu maxilar. Percebi...

O CANTO E A CHAMA

  ‘’O amor é o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração.’’ Marcel Proust   O medo era uma sombra que se alongava pelas aldeias, anunciado pelo bater de asas que escurecia o sol. Eu, Samara, que sempre encontrei conforto no simples aroma das ervas e na ordem serena do meu pequeno jardim de cura, via agora o caos personificado tingir o horizonte de brasa. Das entranhas da terra, onde a luz não ousa penetrar, um mal ancestral emergira sob a forma de um dragão de escamas rubras, convocado pela feitiçaria de uma alma corrompida. Ainda assim, no peito, a lembrança de um olhar terno e promessas sussurradas ao pé da fogueira me mantinha firme, como uma chama que nenhum vendaval poderia extinguir. Aquele com quem divido meus sonhos, Gabriel, conhecido pela força descomunal de seus braços e por sua índole impetuosa, jamais hesitaria diante de tamanha ameaça. Lembro-me da primeira vez que o vi, sua pele clara contrastando com a madeira escura do machado que manuseava, os cabe...