''Estamos todos condenados à prisão solitária dentro de nossa própria pele, por toda a vida.''
O despertador tocou e Clara abriu os olhos. O teto do hospital era o mesmo de sempre, branco com uma mancha úmida no canto. Ela virou o rosto e viu a mãe dormindo na poltrona, o pescoço torto, o rosto marcado pelo vinco do travesseiro de viagem. Clara sentiu algo que deveria ser amor, mas era apenas uma constatação: aquela mulher cuidou de mim.
Os médicos comemoraram sua recuperação. Falaram em milagre, em sorte, em vontade de viver. Clara ouvia e acenava, mas não entendia o entusiasmo. Claro, o acidente foi grave, o coma durara meses, mas agora ela estava acordada. Ponto. Não havia motivo para lágrimas.
A primeira vez que percebeu foi no elevador. Um homem entrou com um cachorro no colo, um pinscher minúsculo que rosnava mostrando os dentes. O homem sorriu, sem graça, pediu desculpas. Clara olhou para o cachorro, para os olhos pretos e brilhantes, para os dentes minúsculos, e não sentiu nada. Nem aceleração do coração, nem vontade de recuar. O elevador desceu seis andares e ela apenas observou o animal como observaria uma planta.
No apartamento, assistiu a um filme de terror. No auge, quando o assassino aparecia atrás da porta, Clara pegou o celular e respondeu a mensagens. A tela do computador mostrava pessoas gritando, mas dentro dela era só silêncio. A sombra apareceu três noites depois.
Clara acordou com sede e foi até a cozinha. A luz da rua entrava pela janela, e no chão, projetada contra a parede, uma silhueta se movia. Não era a dela, o braço direito de Clara estava engessado, mas a sombra movia os dois braços livremente. Era uma silhueta feminina, do seu tamanho, mas que caminhava em círculos lentos, como uma fera reconhecendo o território. Clara acendeu a luz. A sombra sumiu.
Nas noites seguintes, ela voltava. Sempre no mesmo horário, sempre andando em círculos. Certa vez, Clara deixou a luz apagada e apenas observou. A sombra parou de andar. Virou-se devagar, como se sentisse o olhar, e encarou ela com o rosto vazio. Então ergueu a mão direita e tocou a parede com a palma. O movimento era estranho, artificial, como quem aprende a usar o corpo pela primeira vez.
No outro dia, o braço engessado de Clara coçava. Mas não o braço inteiro, apenas a mão, a palma, exatamente onde a sombra tocara a parede. Começou a ver mais. A sombra a seguia pelos cômodos, sempre nos cantos dos olhos, sempre desaparecendo quando Clara virava o rosto. No espelho do banheiro, por um instante, viu seu reflexo mexer a boca como se fosse falar, mas nenhum som saiu. E o reflexo parecia com medo. Os olhos do reflexo estavam arregalados, as pupilas dilatadas, o corpo tenso.
Clara, em pé diante do espelho, sentia apenas curiosidade. Na madrugada de sábado, acordou com o colchão afundando ao lado. Alguém estava sentado na cama. Não conseguia mexer o corpo, apenas os olhos, e viu uma silhueta escura inclinada sobre ela. A silhueta tinha rosto agora, o nariz, a boca, os olhos de Clara. Mas os olhos estavam molhados, e lágrimas escorriam pela face escura e caíam sobre o travesseiro.
A coisa inclinou a cabeça e encostou a testa na testa de Clara. Pela primeira vez desde o acidente, o coração de Clara acelerou. O estômago gelou. A pele se arrepiou. Ela sentiu medo. Mas o medo não era dela.
O ser abriu a boca num gemido silencioso e começou a empurrar. Clara sentiu a pressão, como se algo estivesse sendo forçado para dentro do seu peito, algo que não cabia, algo que lutava. Ela quis gritar, mas a boca não abria. Quis empurrar de volta, mas os braços não obedeciam. A coisa empurrava, empurrava, cada vez mais fundo.
Quando o sol nasceu, Clara acordou sozinha. Levantou-se e foi até a cozinha preparar café. No caminho, passou em frente ao espelho do corredor e parou. Algo estava diferente. Levantou a mão direita, e o reflexo levantou a esquerda. Ergueu a esquerda, e o reflexo levantou a direita. Por um instante, seus olhos encontraram os olhos do espelho.
O reflexo sorriu. Clara, de pé no corredor, sentiu o canto da própria boca se curvando para cima.
Não era ela que estava sorrindo.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, Clara acordou do coma e descobriu que algo essencial havia ficado para trás. Não era a memória, nem a capacidade de falar ou andar. Era algo mais profundo, algo que deveria estar ali e não estava. Os médicos celebraram sua recuperação, mas Clara sabia que havia perdido uma parte de si, uma parte que agora a observava dos cantos, que tocava sua pele enquanto dormia, que tentava, desesperadamente, voltar para casa. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Adorei o texto, amor.
ResponderExcluirAnsiosa pelos próximos.
Excelente 😀
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