''Burocracia: uma dificuldade para cada solução.''
A pasta veio parar na minha mesa às 14h47 de uma terça-feira. O cheiro de mofo subiu antes que eu tocasse na capa: papel velho, café requentado, desespero. A estagiária largou a pilha com um baque surdo, trezentas e quarenta e sete páginas, e disse "mais um" antes de sumir pelo corredor. Abri na primeira folha. Processo nº 45.892/2078. Requerente: Maria da Silva. Assunto: regularização de estado civil. Partes: João da Silva (original) e João da Silva (cópia).
Respirei fundo. Mais um caso de duplicação. O Setor de Conciliação de Existências funciona no subsolo do Ministério dos Transportes, entre o arquivo morto e a sala das caldeiras. Ganhei o lugar por antiguidade, ou porque ninguém mais aguenta lidar com a papelada que o teletransporte inventou. O sistema é simples: você entra na cabine, o escâner mapeia cada átomo, a informação é transmitida, uma réplica exata é montada no destino. O original é desintegrado. Cinco segundos, quinhentos quilômetros. Ninguém reclama. Os que reclamam estão todos aqui, em processos como esse.
A questão filosófica o governo deixou para os acadêmicos. Eles discutem em simpósios se a consciência é contínua ou apenas uma ilusão estatística. O cidadão comum quer chegar no trabalho sem enfrentar trânsito. Se a alma fica para trás, problema do padre. A papelada, porém, é um parto.
Cada viagem gera dois processos automaticamente: um de óbito para o original, um de nascimento para a cópia. Mesmo tempo, naturezas opostas. Quando tudo funciona, o morto não existe mais para reclamar. Mas quando um bug impede a desintegração, o sistema entra em colapso. Você tem dois corpos, duas consciências, duas pessoas com as mesmas digitais, a mesma íris, o mesmo rosto, e um único CPF.
O caso de João da Silva era particularmente complicado. Maria acordara com dois maridos tomando café na mesma cozinha. O original pagava o aluguel; a cópia pagava o financiamento do carro. Nenhum dos dois aceitava dividir a cama em sistema de rodízio. Quando a vizinha comentou "sorte a sua, duas vezes o mesmo homem", Maria jogou a xícara na parede.
Li o depoimento do original: "Acordei na cabine e ainda estava lá. Saí, chamei o técnico, e quando olhei pro lado vi eu mesmo saindo da outra cabine. A gente ficou se encarando até o segurança chegar. Ele pediu documento. Eu mostrei. O outro mostrou igual. Ele mandou a gente resolver entre si e foi embora."
O depoimento da cópia: "Lembro de ter entrado em São Paulo. Lembro de ter fechado os olhos. Lembro de abrir no Rio. Saí andando, peguei a mala, e vi eu mesmo saindo da cabine de origem. Fiquei com medo de que me matassem. Não sabia se eu era o original ou a cópia. Ainda não sei."
Pulei para o laudo pericial. Impressões digitais: idênticas. Íris: idêntica. DNA: mesmos marcadores. Conclusão: os corpos são indistinguíveis por qualquer método científico. Nota de rodapé: recomenda-se análise filosófica para determinação de originalidade. O ministério ignorou.
Na página 289, o original processava a cópia por roubo de identidade. A cópia processava o original por danos morais, "viver sabendo que querem me matar". Maria processava os dois por bigamia. A empresa de teletransporte processava o governo por falha na fiscalização. Um emaranhado que ocupava três metros de estante no fórum.
O despacho inicial: "Diante da inexistência de precedente, suspendo o processo até parecer do Setor de Conciliação. Ficam ambos proibidos de usar o nome João da Silva em documentos oficiais. Recomendo que um deles mude de nome."
Fechei o processo. Trezentas e quarenta e sete páginas para o juiz sugerir que um deles mudasse de nome. Como se identidade fosse camisa que se troca na loja.
O interfone chiou.
— Seu Costa? Tem dois João da Silva aqui. O senhor atende junto ou separado?
— Manda ambos entrarem.
A porta abriu e eles entraram. Mesma altura, mesmo corte de cabelo, mesma camisa social surrada. Pararam lado a lado. Um coçou o nariz; o outro coçou no mesmo segundo.
— Qual de vocês é o quê?
Eles se entreolharam. O da esquerda falou:
— Eu entrei na cabine primeiro.
O da direita respondeu:
— Mas eu lembro de ter entrado. Lembro de ter viajado. Lembro de ter chegado.
— Os dois lembram — cortei. — Isso não ajuda.
O da esquerda ergueu a mão.
— Eu tenho a aliança original. A que ganhei no casamento.
O da direita ergueu a sua.
— Eu também tenho. A mesma. Foi feita sob medida.
— Mas a minha arranhou semana passada.
— A minha também. No mesmo lugar.
Ficaram em silêncio, examinando as mãos. Depois ergueram os olhos para mim, e vi a mesma pergunta nos dois rostos: eu sou eu? Onde termina um e começa o outro?
Abri a gaveta, tirei o formulário amarelo.
— Nomes completos?
Responderam juntos, a mesma voz em estéreo. Data de nascimento, mesma resposta. CPF, o mesmo número. Quando cheguei em "estado civil", hesitaram.
— Casado — disse o da esquerda.
— Casado — repetiu o da direita. — Com a Maria.
— Com a mesma Maria — acrescentou o outro.
Deixei a caneta.
— E o que Maria acha disso?
O da esquerda baixou os olhos.
— Ela não sabe mais. Disse que ama os dois, mas não consegue olhar pra gente sem pensar que um é fantasma.
O da direita completou:
— Ela perguntou se a gente lembra da primeira vez que beijou ela. A gente lembrava. Os dois. Ela chorou e pediu desculpa, mas não disse pra quem.
O silêncio encheu a sala. Lá fora, as caldeiras roncavam.
— Temos uma situação complicada — comecei. — A legislação não prevê. O sistema não aceita. O banco bloqueou as contas. A Receita abriu investigação. O juiz quer que um de vocês mude de nome.
O da esquerda ergueu a cabeça.
— Mudar de nome? Eu sou João da Silva. Nasci João da Silva. Por que eu pagaria o erro de uma máquina?
O da direita assentiu.
— Eu também sou. Pode perguntar pra minha mãe. Ela jura que sou eu. Mas vai jurar pelos dois, porque os dois são filhos dela.
Passei a mão no rosto. O calor subia pelo chão.
— Vou emitir parecer provisório. Enquanto não sai a decisão, vocês mantêm os nomes, mas usem identificadores temporários. Nos documentos, vai constar João da Silva primário e João da Silva secundário. O banco desbloqueia as contas se os dois assinarem juntos. A mulher fica em união estável com ambos, até que ela escolha ou a justiça decida.
O da esquerda abriu a boca.
— Mas isso não resolve.
— Não resolve — concordei. — Mas desempaca o processo. Por enquanto, vocês existem. Os dois. A máquina que se vire pra encaixar vocês.
Carimbei o formulário. Depois carimbei PROVISÓRIO do lado.
— Levem isso, entreguem na secretaria, aguardem nova data.
Eles pegaram o papel juntos, as mãos quase se tocando. Olharam um para o outro. O primário falou baixo:
— Vamos embora?
O secundário assentiu.
— Vamos.
Saíram lado a lado, mesmo passo, mesmo ombro balançando. A porta fechou.
Fiquei olhando para a pilha de processos. O próximo caso. O próximo homem que acorda e se pergunta se é ele mesmo ou apenas uma lembrança de si.
O interfone chiou.
— Seu Costa? Tem mais um casal aqui. Apareceram dois maridos em casa, a mulher quer saber com quem fica a pensão.
Olhei para o relógio. 16h23. Mais três horas de expediente.
Peguei o telefone. — Copa? Traz um café. Bem forte. E manda subir o próximo. Do lado de fora, passos se aproximavam. Passos duplicados, sincronizados, ecoando no corredor comprido.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, um futuro onde o teletransporte é realidade, um funcionário público do Setor de Conciliação de Existências enfrenta o caos burocrático gerado por uma falha no sistema: um homem passa a existir em duas cópias idênticas. Enquanto tenta resolver com formulários e carimbos um problema que a tecnologia criou, o governo decide eliminar a cópia como se fosse apenas um erro cadastral. O conto acompanha o embate entre a humanidade dos envolvidos e a frieza de um Estado que prefere apagar pessoas a admitir suas próprias falhas. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
REFERÊNCIAS
1. Franz Kafka (1883-1924), escritor tcheco de língua alemã, viveu na Praga do início do século XX, período de tensões entre identidades culturais e o crescente aparato burocrático do Império Austro-Húngaro. Sua obra aborda o indivíduo esmagado por sistemas incompreensíveis e opressores, a alienação diante de estruturas de poder absurdas, a culpa sem crime, a desumanização por meio de processos burocráticos, e a busca inútil por justiça em labirintos administrativos. O "kafkiano" tornou-se sinônimo de situações onde a lógica oficial leva a resultados grotescos, e o cidadão comum se vê impotente diante de um Estado que decide sua existência com carimbos, formulários e precedentes incompreensíveis.
2. Mickey 17 (2025) Direção: Bong Joon-ho (nascido em 1969, Coreia do Sul), mesmo diretor de Parasita (2019). Sinopse: Em um futuro distópico, Mickey é um "descartável", funcionário contratado para morrer em missões perigosas e ser reimpresso como cópia com a maior parte das memórias preservadas. Quando uma das versões sobrevive após ser dada como morta, duas cópias idênticas passam a coexistir, criando um problema existencial e burocrático que ameaça tanto a missão colonial quanto a própria noção de identidade e humanidade.
https://www.youtube.com/watch?v=Txuvq-K8kQo TRAILER FILME

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