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O SILÊNCIO QUE GRITA

 ''Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras.'' Marcel Proust


    Minhas mãos ainda tremem ao registrar isso. Kèplar-7 é um planeta de pesadelo envolto em beleza celestial. Chegamos há quarenta e sete dias a esta biosfera que desafia toda lógica,  um mundo de florestas exuberantes sob um céu cor de pêssego, onde a vida explode em cores impossíveis, mas nunca, nunca emite um som. As árvores prateadas se entrelaçam formandos catedrais vivas, suas folhas exibindo padrões complexos em âmbar, carmesim e jade que mudam constantemente. E esse silêncio... esse silêncio que nos envolve como um cobertor pesado. Nossas vozes soam grosseiras aqui, nossas botas esmagam a vegetação esponjosa com um barulho que parece uma blasfêmia. Até a respiração nos trajes ecoa alto demais nesta catedral de quietude.

    Os dados dos sensores nos mostram a verdade irrefutável,  a biomassa é maior que a de qualquer floresta tropical da Terra, pulsando com atividade biológica intensa. Mas nossos microfones captam apenas o vazio. No início, pensamos em falha de equipamento, até ela, nossa xenobotânica, fez a descoberta crucial. Ela observou que as vinhas luminosas não somente mudavam de cor, mas o faziam em padrões repetitivos e metódicos. "Não é crescimento aleatório," ela disse, seu rosto pálido à luz das pétalas pulsantes. "Isso tem estrutura. Isso tem gramática." Foi quando compreendemos a horrível verdade: o planeta não era mudo, nós é que éramos cegos.

    O incidente com Jens tornou tudo claro de forma brutal e repentina. Ele se aproximava de um bosque de fungos bioluminescentes que pulsavam num ritmo calmo quando sua sombra tocou a primeira formação. Imediatamente, a luz apagou-se numa onda de pânico que se propagou pela floresta como um grito silencioso. As plantas ao redor se contraíram violentamente, suas folhas se enrolando em agulhas afiadas em segundos. Jens congelou no lugar, aterrorizado. "Mas eu não fiz nada," ele gaguejou, e naquele momento todos entendemos que ele havia feito algo terrível, havia interrompido, ofendido, talvez ameaçado. Sua sombra havia sido um ato de violência não intencional.

    Agora compreendemos a natureza da comunicação aqui  é uma linguagem puramente visual, uma sinfonia de luz e cor que flui na velocidade da fotossíntese. Cada sombra que projetamos, cada feixe de nossas lanternas, equivale a gritar obscenidades em sua praça pública. Estávamos estudando uma biosfera quando, na verdade, invadíamos uma sociedade complexa. Cada passo que damos é como um golpe aleatório em algo que não podemos ver nem compreender. E o pior está por vir, a nave-colônia Êxodo, carregada com milhares de colonos e equipamentos de terraformação pesada, entra em órbita em setenta e duas horas. Eles virão com suas máquinas que projetam sombras gigantescas, com lasers de corte que serão como relâmpagos cegantes nesta conversa cósmica.

    Elara e eu trabalhamos freneticamente no laboratório, tentando decifrar os padrões básicos. Conseguimos identificar o que parece ser um sinal de "perigo" e outro de "calma". Criamos projetores que imitam os padrões de luz, tentando nos desculpar, tentando explicar. Às vezes funciona  uma área que se contraía em defensiva relaxa lentamente quando projetamos a sequência correta. Mas são centenas de milhões de anos de evolução separando nossas formas de percepção. Como explicar "desculpe" para um ser que nunca ouviu um som? Como avisar "parem" para uma civilização que se aproxima a toda velocidade?

    Esta manhã, fizemos nosso primeiro contato real. Não com uma criatura, mas com a própria floresta. Projetamos nossa sequência de "não-perigo" em direção a uma formação rochosa coberta de líquens que mudavam de cor em padrões complexos. Por dez minutos angustiantes, nada aconteceu. Então, lentamente, os padrões começaram a responder  primeiro com o que interpretamos como cautela, depois com curiosidade. Eles nos faziam perguntas em luz, e nós, cegos e grosseiros, mal conseguíamos balbuciar respostas. Foi a conversa mais importante da história humana, e provavelmente a ofendemos gravemente sem sequer perceber.

    Agora ouço os motores da Êxodo se aproximando no céu silencioso. Seus propulsores já devem estar lançando sombras intermitentes sobre a floresta, causando pânico em escala continental. Tenho nas mãos um datapad com os padrões que podem significar "pare" ou "perigo" ou quem sabe "você está destruindo uma civilização". Mas como fazer uma nave de quinhentos metros entender que precisa ter cuidado com suas sombras? Como fazer colonos famintos por um novo mundo compreender que estão pisando em algo mais sagrado que qualquer templo? O silêncio de Kèplar-7 está prestes a ser quebrado, não por palavras, mas pelo rugido dos terraformadores.     

  

 


  

 

INSPIRAÇÃO
 
 
  A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto é recente, em um planeta de beleza surreal e silêncio total, uma equipe de cientistas descobre que a biosfera local se comunica mediante luz e cores. Cada sombra que projetam é um ato de violência não intencional. Com a nave-colônia prestes a chegar para iniciar a terraformação, eles precisam aprender a linguagem visual do planeta para evitar um genocídio acidental, em uma corrida contra o tempo onde são cegos tentando entender o invisível.  Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 

A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEAART digitei "Em um planeta de beleza surreal e silêncio absoluto, uma equipe de cientistas descobre que a biosfera local se comunica através de luz e cores. Cada sombra que projetam é um ato de violência não intencional. Com a nave-colônia prestes a chegar para iniciar a terraformação, eles precisam aprender a linguagem visual do planeta para evitar um genocídio acidental, em uma corrida contra o tempo onde são cegos tentando entender o invisível.  " e obtive esse resultado.


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