''Não se preocupe com a perfeição - você nunca irá consegui-la.''
O espelho chegou em uma manhã cinzenta de terça-feira, seu quadro pesado de ébano escurecendo ainda mais o tom sombrio do nosso apartamento. Eu e Clara havíamos comprado a peça em um ato desesperado, uma tentativa silenciosa de preencher o vazio que crescia entre nós com um objeto de beleza sólida e antiga. A moldura era uma serreira de serpentes entalhadas que pareciam devorar umas às outras em um ciclo eterno e inquietante. A primeira vez que percebi algo errado foi um dia após sua instalação, quando meu reflexo não correspondia à minha postura real na sala. Eu estava de pé perto da estante, mas na superfície prateada, minha imagem estava sentada no sofá, com a cabeça da minha esposa repousada em meu colo em um gesto de ternura que há muito havia desaparecido de nossa rotina. A figura de Clara no espelho sorria suavemente, enquanto meus dedos espelhados acariciavam seus longos cabelos castanhos com uma familiaridade que doía de tão distante.
Minha voz soou rouca e incrédula ao chamá-la, quebrando o silêncio pesado que se instalara entre nós naquela tarde. A mulher de olhos verdes e expressão cansada mal ergueu o rosto do brilho hipnótico de sua tela de celular, seu desinteresse, um muro entre nós. Insisti, perguntando se ela também enxergava a cena idílica e falsa que se desenrolava na superfície do objeto antigo. A companheira de todos os meus dias finalmente olhou para o espelho, e seu rosto pálido se tornou uma máscara de incredulidade e um medo visceral. No reflexo, a versão idealizada de nós dois continuava imóvel em sua cena de afeto doméstico, um retrato de felicidade que era uma facada no coração da nossa realidade. Ela se levantou de um salto, seu corpo esguio tensionado como um arco, e acusou-me com uma voz carregada de desconfiança, perguntando se aquilo era alguma piada de mau gosto arquitetada por mim.
Jurei por tudo que não era brincadeira minha, mas a criatura de cabelos escuros já virava as costas e abandonava a sala com passos rápidos. O feitiço parecia se quebrar com sua partida, e o espelho voltou a refletir a solidão crua do ambiente, com minha figura sozinha e confusa diante dele. Nos dias que se seguiram, a peça decorativa tornou se um terceiro elemento em nosso relacionamento, um intruso silencioso cuja presença ditava um novo e aterrorizante ritmo para nossas vidas. As cenas que ele exibia tornaram se progressivamente mais íntimas e detalhadas, mostrando momentos de cumplicidade e romance que jamais vivemos. Nós dois dançando lentamente na sala de jantar vazia, eu servindo seu café matinal com um sorriso, ambos rindo de uma piada que nunca foi contada.
A verdadeira natureza da coerção daquele objeto revelou se durante uma discussão particularmente acalorada na cozinha sobre contas não pagas. Nossas vozes se elevavam em um dueto de acusações e frustrações, cada palavra um golpe baixo na já frágil estrutura do nosso casamento. Decidi me retirar para evitar dizer algo pior, mas ao cruzar a sala de passagem, meus olhos foram inevitavelmente puxados para o espelho. Lá dentro, a cena era de perfeita harmonia, com eu abraçando a morena por trás enquanto ela enxaguava uma xícara, meus lábios tocando a nuca dela em um beijo que fez seu corpo espelhado arquejar de prazer. Uma força avassaladora e doentia tomou conta dos meus membros naquele instante, um peso de chumbo que me puxava em direção à cozinha.
Meu estômago se contraiu em uma onda de náusea que só diminuía com a perspectiva da obediência, com a promessa implícita de alívio se eu seguisse o roteiro. Caminhei até a cozinha com passos trêmulos, envolvi a esposa em meus braços por trás e pressionei meus lábios contra sua pele. Ela estremeceu, não de prazer, mas de choque puro, seu corpo ficou rígido como uma estátua sob meu toque forçado. O aroma do seu shampoo de jasmim, outrora um cheiro que eu amava, agora me parecia o perfume de uma prisão. Sussurrei um pedido de desculpas roído pela vergonha, mas ela se soltou de meu abraço e fugiu sem dizer uma palavra, seus olhos verdes faiscando com uma mistura de raiva e medo.
A partir daquele dia, nos tornamos marionetes de uma peça macabra, dançando para os caprichos do nosso reflexo. O espelho não se contentava mais com gestos espontâneos, ele exigia a encenação fiel de cada momento de felicidade que exibia. Se suas imagens trocavam um beijo apaixonado, nós éramos compelidos a reproduzi lo com uma urgência doentia, sob a ameaça de uma náusea incapacitante ou de uma dor de cabeça lancinante. Se mostravam um jantar romântico à luz de velas, eu corria para acender as velas e a loira corria para descongelar algo, nossos movimentos mecânicos e vazios de verdadeiro sentimento. Nossa casa tornou se um palco onde interpretávamos o casal perfeito para um público de um só, o próprio espelho, e a entidade que residia nele.
A tensão constante e a obediência forçada cobraram seu preço em nossa sanidade. A face da minha parceira, outrora tão familiar, tornou se uma máscara pálida de resignação, seus olhos perdendo o brilho a cada dia. Eu me via cada vez mais na superfície daquele objeto, meus próprios olhos azuis parecendo mais fundos e sombrios, como se minha essência estivesse sendo sugada para dentro daquela moldura de serpentes. O medo de sofrer as consequências nos mantinha obedientes, mas o preço emocional era excruciante. Vivíamos fingindo um amor que não existia mais, e a mentira era mais aterrorizante que qualquer monstro tradicional.
O clímax dessa tortura doméstica ocorreu em uma noite chuvosa, quando o espelho nos mostrou uma cena particularmente cruel. Nele, eu estava de joelhos, segurando uma pequena caixa de veludo azul, e a morena levava as mãos ao rosto em um misto de surpresa e lágrimas de felicidade. A mensagem era clara e devastadora. O objeto exigia um pedido de casamento, uma renovação de votos que fosse a consagração definitiva da farsa que nossas vidas haviam se tornado. O pânico que tomou conta do meu ser foi tão intenso que cheguei a dobrar sobre a perna da poltrona, suando frio. Eu não possuía um anel, não possuía as palavras, e muito menos possuía o coração para aquele ato final.
A mulher de olhos verdes também viu a cena, e seu rosto se dissolveu em um pranto silencioso e desesperado, seus ombros tremendo com a força contida de tanto sofrimento. Foi naquele momento, vendo sua dor absoluta, que algo dentro de mim estalou. Uma fúria primitiva e há muito adormecida surgiu, substituindo o medo e a submissão. Recusei me a me mover, lutando contra a dor lancinante que começava a perfurar meus ouvidos, uma pressão insuportável que ameaçava explodir meu crânio. Gritei para ela não ceder, mas a força coerciva era muito poderosa, e ela começou a caminhar em minha direção, seus passos arrastados e seus olhos vazios.
Enfurecido, eu me levantei cambaleante, peguei o pesado cinzeiro de vidro da mesinha de centro e, com um urro que vinha das entranhas, arremessei a peça contra o centro do espelho. O estrondo foi ensurdecedor, um som de mil estilhaços de realidade se quebrando ao mesmo tempo. Uma luz ofuscante e doentia explodiu da superfície danificada, seguida por um silêncio repentino e absoluto. A dor de cabeça desapareceu instantaneamente. Ofegante, olhei para os cacos no chão, cada fragmento refletindo um pedaço distorcido do apartamento, e senti um alívio avassalador. A esposa corria até mim, e pela primeira vez em semanas, seu toque não era mecânico, mas sim de um genuíno e compartilhado alívio.
Nos abraçamos naquela sala coberta de cacos, chorando e rindo ao mesmo tempo, eufóricos por termos quebrado o feitiço. A liberdade nunca cheirara tão doce, misturada ao pó e ao ar carregado da noite. Foi então que minha companheira pegou um dos principais fragmentos do espelho, seu rosto ainda marcado pelas lágrimas, e exclamou com um sorriso trêmulo que finalmente estávamos livres. Ela ergueu o caco para eu ver, e meu próprio sorriso de vitória congelou instantaneamente nos lábios. No pedaço de espelho que ela segurava, o reflexo do meu rosto não comemorava. Pelo contrário, ele me encarava com uma expressão de puro pavor, e lentamente, muito lentamente, ele levantou um dedo em um gesto de advertência silenciosa, apontando não para mim, mas para algo atrás de mim. O verdadeiro horror, eu percebi com um frio na espinha, não estava no espelho quebrado. Estava na sala, conosco, e agora estava livre.
INSPIRAÇÃO
1. Filme JUNTOS (2025) com direção de Michael Shanks. Acompanha um casal disfuncional e codependente cuja união é posta à prova quando uma força estranha e sobrenatural toma conta de seu relacionamento. Tim (Dave Franco) e Millie (Alison Brie) cuja relação conturbada e já abalada é levada ao limite após se mudarem para uma cidade isolada no interior dos Estados Unidos. O que se apresenta como a oportunidade perfeita para recomeçar e fortalecer os laços, logo se transforma num pesadelo quando parece que a floresta dessa pequena cidade esconde segredos nefastos.

Parabéns pelo texto, boa reflexão sobre dependência emocional.
ResponderExcluirÓtimo texto, com reflexões pertinentes!
ResponderExcluir