''É a solidão que inspira os poetas, cria os artistas e anima o gênio.''
O sol da tarde entrava pela vitrine da pequena loja, iluminando o pó que dançava sobre os rolos de linho e seda. Minhas mãos, calejadas por anos de agulhas e tesouras, trabalhavam num vestido de noiva encomendado para o sábado. A costura era meu refúgio, o ponto reto que mantinha minha vida em ordem. Procurei na caixa de utensílios antigos da vovó Anita uma agulha mais fina para o véu. Encontrei uma, enferrujada e curiosa, guardada num estojo de madeira desgastado. Ignorei o aspecto e a usei para cerzir um pequeno rasgão no forro.
Assim que a ponta de metal perfurou o tecido, um calafrio percorreu minha espinha. O cheiro de terra molhada após a chuva encheu minhas narinas, substituindo o aroma do café. Ouvi risos infantis, nítidos e próximos, e por um instante vislumbrei um jardim verdejante onde minhas paredes deveriam estar. A agulha escorregou da minha mão trêmula, caindo no chão de madeira. A loja voltou ao normal, silenciosa e poeirenta. Toquei o tecido do vestido, intacto, o rasgão perfeitamente fechado. A memória, no entanto, não era minha.
Na manhã seguinte, a Sra. Elisa entrou na loja, seu rosto marcado por uma sombra de tristeza. Trouxe consigo um casaco de lã azul-marinho, velho e desbotado, com um rasgão profundo no cotovelo direito. “Foi do meu marido”, disse ela, a voz um fio. “Ele adorava este casaco. Caiu de moto naquele dia... gostaria de usá-lo novamente, para sentir o calor dele.” Aceitei a peça, os dedos reconhecendo o desgaste do amor. Quando ela saiu, sentei-me à minha máquina de costura, mas algo me puxou para a agulha antiga.
Coloquei o casaco no meu colo, enfileirei a linha e comecei o trabalho. A primeira picada trouxe o vento. Um vento forte, uivante, que arrepiava a pele. Depois, o som do motor, um ronco abafado que crescia até ensurdecer. Senti o impacto, um baque seco e quente no meu braço direito, seguido por uma dor aguda que não era minha. Um gosto de sangue encheu minha boca. Entre os flashes de asfalto e céu cinza, ouvi uma voz, a voz da Sra. Elisa, mais jovem, gritando um nome: “Carlos!”. A agulha puxou o último ponto, fechando o rasgão. A dor sumiu. Olhei para o casaco, agora intacto, e depois para minhas mãos, limpas. A memória do acidente, vívida e crua, agora habitava em mim.
Não contei a ninguém. Guardei a agulha no estojo de madeira, mas ela me chamava em sussurros silenciosos. As pessoas começaram a chegar, não por anúncio, mas por um conhecimento difuso, aquele que nasce nos fios invisíveis que conectam uma comunidade. Trouxeram peças amadas, rasgadas pela vida, e com elas trouxeram histórias não ditas. Um vestido de noiva com a bainha desfiada, um uniforme de futebol sujo de grama, um cobertor de bebê com uma mancha que não saía. Cada conserto era uma viagem.
O vestido de noiva me levou ao calor abafado de uma igreja de interior, ao cheiro de lírios e ao nervosismo da noiva antes do “sim”. O uniforme me mostrou a alegria pura de um gol num campo de várzea, o abraço suado do pai na lateral. O cobertor me fez sentir o cheiro doce de um recém-nascido e o cansaço profundo, feliz, de uma mãe de primeira viagem. Aprendi a costurar não somente os tecidos, mas a reverência com que lidava com essas memórias alheias. Tornava-me uma guardiã de segredos alheios, uma espectadora involuntária de júbilos e tragédias.
Foi Márcio, o pai do jovem jogador de futebol, quem me fez questionar o preço daquela dádiva. Ele voltou algumas semanas depois que remendei o uniforme do filho. Seus olhos, outrora carregados de saudade, agora brilhavam com uma luz febril. “Preciso de mais”, disse ele, colocando sobre o balcão uma camisa velha, furada e manchada de ferrugem. Era a camisa que o filho usara no dia do acidente de carro. “Costure. Preciso reviver aquele dia. Preciso ouvir sua voz pela última vez.”
Meu estômago se contraiu. As memórias felizes eram uma coisa; mergulhar na dor alheia de forma tão deliberada era outra. A agulha repousava na gaveta, um peso morto. Olhei para o rosto de Márcio, marcado por uma ânsia desesperada que beirava a obsessão. Ele não queria consertar uma peça de roupa; queria reabrir uma ferida. Minhas mãos, outrora firmes, tremiam. Abri a gaveta e olhei para o estojo de madeira. A costureira dentro de mim sabia que alguns rasgões não devem ser fechados, que alguns fios são melhor deixados soltos. Mas o pedido daquele pai ecoava na loja silenciosa, um sussurro carregado de um amor agonizante. Minha mão pairou sobre a madeira desgastada, o coração batendo forte no peito. O pó continuava sua dança lenta sob a luz da tarde.
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Ótimo texto,amor.
ResponderExcluirParabéns!
Ansiosa por novos textos. Muito interessante a passagem do realismo para as memórias afetivas.
Excelente 👏
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