‘’O amor é o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração.’’ Marcel Proust
Quando abri os olhos, o chão sob meus pés era feito de papel que se movia como areia viva. As letras tremulavam, escapando das páginas e flutuando no ar, formando constelações de tinta que giravam acima de mim. O ar tinha cheiro de capa antiga e maresia, como se o oceano houvesse se infiltrado na biblioteca. Cada respiração trazia um fragmento de história, e as palavras dançavam sob minha pele como pequenas centelhas de sentido. O horizonte, feito de volumes abertos, respirava comigo, pulsando como se fosse lido por alguma entidade invisível. Foi então que percebi: aquele não era um sonho, mas um universo tecido por narrativas, e eu, o intruso, caminhava sobre páginas vivas.
“Gabriel.” A voz soou suave e firme, vinda de uma colina feita de volumes russos encadernados em couro e neve. Lá estava Samara, morena, de cachos revoltos como vírgulas que se recusavam a obedecer à sintaxe do mundo. Seus olhos castanhos refletiam luz dourada e nostalgia, como se cada íris guardasse um fragmento de Dostoiévski e Tchekhov. Cada passo que dava fazia o chão murmurar versos de Pushkin e suspiros de Tolstói. Um perfume de chá-preto e tinta fresca a envolvia, e eu me perguntei se a literatura do leste exalava aquele mesmo aroma de alma e inverno. Quando sorriu, o universo pareceu se reorganizar, as letras buscando um novo sentido, um sentido que cabia somente entre nós dois.
“Aqui é o Reino das Palavras,” ela disse, descendo as encostas que se dobravam sob o peso da literatura. O céu era uma abóbada de pergaminho, e constelações de poemas piscavam entre nuvens de sonetos. Estantes se erguiam como montanhas, sustentadas por citações esquecidas. “O Guardião disse que só poderemos voltar se decifrarmos as charadas do Arquivista,” murmurei, ajeitando meus óculos, o gesto que sempre antecedia o desconhecido. A leitora do leste me olhou com aquele brilho teimoso que transforma medo em curiosidade. A cada passo que dávamos juntos, as fronteiras entre nossas histórias se dissolviam, e as frases que nasciam sob nossos pés começavam a rimar.
Seguimos entre corredores que respiravam. As lombadas se moviam discretamente, os livros sussurravam nomes, títulos, amores perdidos. Um exemplar de “Cthulhu” se abriu sozinho, revelando uma chave feita de luz líquida que flutuava sobre a página como uma lembrança prestes a ser escrita. Toquei-a com cuidado; senti o frio do metal e o calor da imaginação se misturando na pele. “Deve abrir algo russo,” brinquei, tentando disfarçar o arrepio. Ela riu, e o som da risada percorreu as estantes, fazendo o pó do esquecimento se transformar em brilho. “Ou algo inglês, se o destino for irônico.” Aquela gargalhada breve parecia o primeiro verso de um poema que só nós compreenderíamos.
O corredor terminou em um portão dourado, guardado por um leão de papel com olhos que piscavam no ritmo de um coração. As páginas de sua juba tremulavam com o vento, e sua voz soou como o ranger de uma enciclopédia antiga: “Decifrem-me. Duas almas, dois mundos. Que palavra vos une?” Olhei para a morena dos olhos castanhos, buscando em seu olhar uma tradução que ultrapassasse idiomas. “Amor?” arrisquei, mas o leão riu, um som seco, de fim de capítulo. Ela se abaixou, leu o chão e apontou: duas frases, uma em inglês e outra em russo, se encontravam ali, ambas dizendo o mesmo, ‘Esperança’. “Esperança,” ela disse, e o portão se abriu com um sopro quente, como se o próprio destino tivesse suspirado.
Do outro lado, o céu se derramava em tinta azul. Uma ponte de metáforas atravessava o vazio, conectando duas margens de papel. Caminhamos sobre ela de mãos dadas, e a cada passo floresciam verbos e substantivos, pétalas de sentido que perfumavam o ar. O vento trazia frases inteiras de romances esquecidos, que se prendiam aos nossos cabelos como bênçãos escritas. Ela tocou minha mão, e senti o real misturado ao impossível. “O amor precisa de esperança para sobreviver entre livros,” murmurou. “E de coragem para continuar escrevendo,” respondi, sentindo que o enredo do mundo se dobrava em torno de nós.
O vento virou as páginas do horizonte, e as letras flutuaram em espiral, formando uma nova narrativa, uma história que nascia ali, entre nossos corpos e o silêncio. Reconheci meu nome nas primeiras linhas, e o dela logo depois, entrelaçado por vírgulas que pareciam dedos unidos. Quando nossos lábios se encontraram, o Reino inteiro suspirou. As estantes se curvaram como árvores antigas, os livros se abriram em flores, e o céu brilhou como uma epifania em movimento. O tempo cessou. As palavras que nos cercavam tornaram-se luz, e nós dois, autor e personagem, nos dissolvemos no instante.
Acordei com sua mão ainda na minha. O cheiro de café e chuva substituía o perfume das páginas antigas. A janela deixava entrar uma claridade serena, e o mundo parecia respirar com a calma de quem recomeça um livro. Sobre a mesa, entre meus volumes de horror e os dela de alma russa, repousava uma única página. As letras tremulavam, vivas, desenhando lentamente uma sentença final:
“Fim. E começo.” Sorri. Fechei o livro com ambas as mãos, sentindo o coração pulsar em ritmo de prosa. O Reino das Palavras podia ter se desfeito, mas o amor esse continuava escrevendo dentro de nós.
INSPIRAÇÃO

Ótimo texto! Parabéns
ResponderExcluirObrigada pelo lindo,texto,meu amorzinho.
ResponderExcluirAnsiosa por mais linhas de amor.
Amo você.