''O horizonte está nos olhos e não na realidade.''
O mar respirava em ondas densas, carregando o sal que grudava na pele e fazia os lábios arderem. Elisa girava o copo de vidro entre os dedos, o gelo derretendo devagar, como o fim das férias. Ao redor, as vozes se misturavam ao violão e ao crepitar da fogueira que cuspia faíscas contra o vento morno. O sol descia preguiçoso, pintando de cobre o rosto dos que observavam em silêncio. Era um fim de tarde tão perfeito que ninguém ousava falar mais alto que o mar.
Quando o disco de fogo tocou o horizonte, algo se quebrou na ordem natural do instante. Um lampejo percorreu o oceano, distorcendo o reflexo das ondas, e o pôr do sol hesitou, como se esquecesse de morrer. Então, diante dos olhos incrédulos, o astro começou a subir. As nuvens se desfizeram em espirais invertidas, sugadas pelo próprio brilho. As sombras correram de volta às pessoas, costurando o chão ao contrário.
O violão tombou na areia, o som engolido por um silêncio que cheirava a ferro. O calor cresceu com uma pressa doentia; o ar ficou pesado, vibrando como um fio elétrico. Elisa ergueu o rosto, os olhos marejados pela claridade impossível. As ondas voltavam ao mar, desfiando pegadas, desfazendo risadas. Até o fogo recuava em brasas frias, devolvendo-se às toras intactas. O tempo, pensou ela, mastigava-se vivo.
Então o mundo começou a ruir. O mar se ergueu em muralhas violentas, arremessando colunas d’água sobre a praia. A areia se abriu em fendas profundas, engolindo cadeiras, barracas, corpos. O ar explodiu em ondas de calor, queimando o oxigênio num sopro incandescente. As pessoas corriam, mas o chão se movia sob seus pés, rachando em placas que se chocavam como ossos quebrados. O som era o da própria Terra gritando, um rugido grave, surdo, que fazia o peito tremer. O céu desabava em fragmentos de nuvens em chamas, e o sol, subindo ao contrário, cuspia faíscas douradas que incendiavam o vento. Elisa sentiu o calor devorar o ar, o vidro em sua mão derreter, a pele arder como papel. O horizonte já não existia; somente uma luz febril, girando no caos.
De repente, o chão vibrou num ritmo interno, quase orgânico, e algo sob a areia despertou. Uma luz pulsou, branca demais para o olhar humano, riscando o céu como uma fenda aberta. O ar se fragmentou em ecos; a praia pareceu suspender-se entre dois segundos. Elisa esticou o braço, tocando o nada. O toque devolveu-lhe uma lembrança que não reconheceu… um corredor metálico, o som distante de um comando de voz, e a certeza absurda de já ter estado ali.
O brilho consumiu tudo: o mar, o calor, as vozes, até a memória do medo. Quando a claridade cessou, a linha do horizonte tornara-se perfeita demais, reta, precisa, sem imperfeições humanas. O sol repousava outra vez sobre as águas, como se o tempo tivesse sido limpo. Na simulação, o sistema reiniciava silencioso, reprogramando o verão. Elisa abriu os olhos e sorriu, sem saber por que o pôr do sol lhe parecia tão familiar.

Adorei o texto,amor. Ansiosa para o próximo texto.
ResponderExcluirÓtimo texto!
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