''A justiça é a vingança do homem em sociedade, como a vingança é a justiça do homem em estado selvagem.'' -
Sopra vento metálico pelas ranhuras da cidade enquanto eu me aproximo da varanda. Lá embaixo, a iluminação pública desenha um mapa de manchas alaranjadas sobre o concreto. Respiro o cheiro de ozônio que sobe dos trilhos e lembro do último riso da minha filha. O som corta como lâmina. A memória vira punhal e eu aperto os dedos no corrimão até a pele doer.
Minha mão não treme quando eu começo. Não escrevo código; moldo histórias. Entro nos arquivos de uma mente como quem entra numa casa abandonada, abrindo gavetas, trocando fotos de lugar, deixando bilhetes que só ela encontra. Não explico como atravesso a defesa dos implantes. Não interessa ao que resta de humanidade saber os passos; interessa que entro, encontro a verdade que carrego no peito e a torço até virar arma.
Ele pertence ao topo da pirâmide. Nome, pedigree, investimentos que dizem mais sobre impunidade do que sobre caráter. Quando o vi pela primeira vez em um evento fechado, ele sorriu e, naquele sorriso, reconheci a forma do meu luto. O tribunal da cidade fecha os olhos para quem usa gravatas caras. Eu, que nasci de muros queimados e promessas furadas, aprendi a ver através dos vestidos. Vingança exige método, e método exige que a verdade pareça inevitável.
Planto memórias como um jardineiro plantaria bulbos. Não crio notas técnicas nem deixo rastros óbvios. Em vez disso, enterro cenas: o calor súbito de sangue nas mãos, a voz de uma testemunha que nunca existiu, o cheiro de pólvora que não queimou. Dou-lhe detalhes cotidianos que ninguém questiona, detalhes que resistem à investigação porque parecem íntimos demais para terem sido fabricados. Ele acorda uma manhã com imagens tão reais que só a própria pele poderia contestá-las. A primeira vez que ele hesita ao calçar sapatos, eu sorrio no escuro.
A cidade come porcos-de-colo; o jornal devora corpos. Manchetes brotam como ervas daninhas: assassinato espetacular, ninguém sabe quem fez, mas há uma sombra com olhos de turista privilegiado. Minhas memórias não somente seduzem a mente dele; elas deixam rastros. Aparecem provas materiais. Um bilhete com tinta que ele reconhece. Um relógio com impressões digitais que, quando as amostras cruzam bancos de dados, apontam para ele. Vídeos falsificados, gravações com cortes limpos demais para serem naturais. Cada peça cai no lugar com a cadência de um metrônomo da minha ira.
A polícia encontra dezenas de provas. Eu não envio nada; ofereço cadência. Um advogado que se gaba em linguagens jurídicas tenta limpar a sujeira, mas a sujeira cresce. O pedestal de que ele se orgulha racha. Mercados despencam, contratos são suspensos, amigos evaporam. Ele liga para mim uma vez, por engano, procura o engenheiro que "consertou" sua cabeça, e eu deixo a chamada cair no silêncio. Ouço a respiração dele, a mesma que ouviu minha mulher antes de o mundo silenciar em volta de nós.
Vejo-o pela janela da sala enquanto as notícias narram o fim parcial da ilusão. Ele desce com passos curtos até o veículo blindado, a face rígida. A cidade já não o trata como rei; agora o rejeita com a fome que reserva para quem derruba troféus. Eu deveria me sentir preenchido. Espero essa sensação como alguém espera que um ferimento feche. Ela não vem. Sento-me, olho para as fotos velhas e percebo que as imagens que criei têm textura demais, calor demais. Memórias plantadas se enraízam tanto no solo da mente que começam a germinar de volta em mim.
Uma noite, recebo uma pasta anônima. Contém gravações, trechos curtos, de qualidade irregular, de conversas que jurei ter com o morto. Em uma, minha voz surge dizendo coisas que não me lembro de ter dito. Em outra, ouço um ruído conhecido demais: o clique de uma trava. As lembranças que depositei no homem rico voltam para mim como um eco maldito. Alguém fez um espelho. Alguém leu minhas pegadas e devolveu-as com correções.
A investigação fica mais profunda. O Ministério Público descobre conexões inesperadas entre o suspeito e um laboratório de memória experimental que financia pesquisas com implantes cognitivos. Desvios de verbas, doações em dinheiro vivo. A imprensa transforma o caso em novela. Ele perde contratos, perde casas: a ruína vira espetáculo. Ouço um discurso dele pela televisão, voz desafinada de homem que tenta destruir a narrativa antes que ela o destrua. Ele chora uma vez. As câmeras mostram; a cidade sorri. Eu deveria sentir vitória. Sinto somente um resíduo de algo que parece como medo.
As peças montadas para prová-lo não são perfeitas. Um furo aparece quando um investigador particular, com olhos de quem já vendeu a alma para descobrir outras, encontra um padrão nas imagens: uma assinatura digital repetida, uma concessão de tempo que não deveria existir. Ele me cerca com perguntas; não me implora, não me acusa, apenas observa. Gosto de ser invisível, mas o mundo inventa olhos onde julga necessário. Seguro o copo com força. A água não sacia.
Chega como um recorte de jornal numa gaveta já aberta: nomes que pensei marginalizar aparecem ligados a grupos que o acusador público nunca investigou. Figuras do mesmo topo social que, por razões minhas ou de sorte, agora tremem. Alguém, em algum escritório com vista para o porto, sorri. Não eu. O alvo que escolhi carregava uma coisa que me faltou: sacrifício calculado. Ele vivia no balcão da impunidade, vendendo favores e comprando álibi. Acreditei que arrancar sua vida seria resolver meu próprio quebra-cabeça. Em vez disso, ao empurrar uma peça, ativei um mecanismo montado por uma mão ainda mais velha e fria.
Duas semanas depois, após interrogatórios e recuos públicos, o homem rico bate a cabeça no chão do tribunal de uma forma que a imprensa transforma em desempenho. Ele confessa com voz metálica, mas confissões sempre soam melhor quando alguém tem algo a ganhar. Sua queda chega acompanhada de outros nomes menores, de pequenos escândalos que cheiram a limpeza seletiva. A cidade aplaude. Vejo as manchetes desfilar e sinto a pressão nos meus ouvidos. Não descanso. A sensação de ter consertado algo não ocupa o lugar do que perdi.
Minha memória me traía, digo a mim mesmo. Afinal, não posso controlar tudo que entrei. A técnica que uso para plantar lembranças exige vinculação, e a vinculação cria retorno. Às vezes, quando fecho os olhos, vejo minha filha caminhando numa praça que nunca existiu. Às vezes, quando escuto o vento, ele repete frases que coloquei em outras cabeças. Misturo-me com os relatos dos outros. Não sei distinguir o que inventei do que me inventou de volta.
Na última cena que consigo ordenar, acordo em um apartamento alugado que eu não reconheço. Um bilhete sobre a mesa contém uma palavra escrita com a mesma caligrafia com que eu marcava as datas nos aniversários que não voltam. Procura. Não há assinatura. O relógio da parede marca 03:17. Abro o laptop. A tela mostra arquivos que descrevem experimentos com realidades alternativas, mapas mentais e, no meio deles, uma lista de nomes com anotações que não fiz. Meu próprio nome aparece. Alguém registrou meu trabalho como se fosse parte de um catálogo. Alguém me documentou.
Alerta soa no telefone. Uma delegacia me quer ouvir. Entro no carro, e a cidade se estende como um tabuleiro onde peças se deslocam sem que eu as controle. Penso, por um instante, em confessar tudo. Penso em contar como tirei a impunidade de um homem com a mesma lente que se usou para proteger tantos outros. Penso em dizer que a vingança nunca devolve o que se tomou. Acontece que a palavra que me percorre o corpo não é remorso; é medo, cópula de culpa e de consciência. Posso perder a barra que ainda segura minha sanidade.
No farol, engulo a saliva e me lembro de algo que não consigo datar: uma cena de mim, talvez fabricada, talvez real, segurando um pequeno objeto que pulsa. Não consigo identificar se guardei esse objeto para plantar mais memórias ou se alguém o pôs dentro de mim quando eu dormia. O automóvel pisca o farol vermelho e eu percebo que, na cidade, ninguém quebra o silêncio sem que algo maior puxe a corda.
O motor ronca. Sigo em frente. A última coisa que vejo antes que as luzes do viaduto me engulam é o reflexo nas janelas: um homem com olhos fundos, rosto marcado por noites demais. Dentro de mim, algo pulsa ainda, lembrança legítima ou invenção uma vez mais. Não quero que me perguntem o que aconteceu com a minha família. Não quero explicar como virei juiz e algoz. Quero apenas que entendam que o preço de arrancar verdades das mentes não volta sem deixar cicatrizes.
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Adorei o texto, amorzinho. Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirSensacional 👏🏼👏🏼👏🏼
ResponderExcluirParabéns pela escrita, uma história interessante.
ResponderExcluirÓtimo texto, gostei da premissa .
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