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ECO DAS CHAMAS

 ''Nada paralisa mais a imaginação que o apelo à memória.''  Stendhal

 

    Chovia quando alcancei a rua de pedras que levava à casa. A neblina, espessa como lembrança, se erguia diante de mim, e o ar exalava um cheiro amargo de madeira queimada. Caminhei devagar, cada passo pesado pela certeza que tentava negar. O portão, outrora pintado de verde, estava retorcido, enegrecido pelas chamas que haviam devorado o que um dia fora meu refúgio. Aquele lugar, onde o tempo parecia adormecer, agora era somente cinza e sombra. Ainda assim, avancei; havia deixado algo lá dentro: não um objeto qualquer, mas um pedaço de mim que o fogo não poderia apagar.

    O vento assobiava entre as janelas quebradas, e eu quase podia ouvir risadas antigas misturadas ao estalar dos restos carbonizados. Cruzei o que restava da varanda, e o piso cedeu levemente sob meu peso. O cheiro de fuligem me envolveu, e senti os olhos arderem. Lembrei-me do instante em que saí apressado, sem olhar para trás, levando comigo tão-só a pressa e o arrependimento. A fotografia ficou sobre a mesa, perto do vaso de flores secas; aquela imagem que me acompanhara por tanto tempo, agora talvez dissolvida entre brasas e fumaça.

    Enquanto procurava entre os escombros, percebi que não buscava unicamente um retrato. Procurava um rosto que a memória insistia em esconder. Ela — ou melhor, aquela figura de traços suaves e olhar profundo, permanecia sem nome na minha mente, um enigma que o coração reconhecia, mas a razão não ousava decifrar. Toquei um pedaço de moldura chamuscada e senti um frio inesperado subir pelos dedos. Quis acreditar que ela ainda estava ali, que a ausência que me perseguia não era definitiva. Mas a casa, muda, devolveu-me tão-só o som do crepitar distante das últimas fagulhas.

Lembrei-me então de como sorria... ou talvez imaginei esse sorriso. As recordações se embaralhavam com o desejo de tê-la perto. Tudo nela parecia irreal, como um sonho que se desfaz ao despertar. A cada fragmento que encontrava, o sentimento crescia, sufocante. Era mais do que saudade; era como se o ar tivesse peso, como se o próprio tempo se recusasse a seguir. Pensei em chamá-la, mas não havia nome a pronunciar. Nenhuma palavra me parecia capaz de romper o silêncio que ela deixara.

As chamas cessaram, e restou somente o crepúsculo refletido nas poças da rua. Fiquei parado, observando o que restava de uma vida que não mais me pertencia. O vento trouxe consigo um perfume leve, antigo, quase familiar. Fechei os olhos, e por um instante, senti que ela estava próxima, invisível, tão real quanto o calor ainda vivo sob as cinzas. Quando abri os olhos, percebi segurar um pedaço de papel queimado, a borda marcada de cinza. Havia ali uma sombra de rosto, uma curva de lábios, um traço indefinido que pulsava como lembrança.

O nome Bárbara ecoou em minha mente (mas não fui eu quem o pronunciou). O som veio de algum lugar nas ruínas, talvez do vento, talvez de um eco antigo. Não ousei responder. Caminhei para longe sem olhar para trás, levando comigo o fragmento que restara... e a certeza de que algo, ou alguém, ainda me esperava no que o fogo não pôde consumir.

 


 

INSPIRAÇÃO
 
  A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A sugestão para a escrita desse texto, um homem retorna à antiga morada e a encontra devastada pelas chamas. Entre cinzas e memórias, ele busca algo esquecido, uma fotografia que carrega mais do que uma simples imagem. À medida que percorre os escombros, o passado e a ausência se confundem, revelando uma presença que o tempo não apagou. A fronteira entre lembrança e realidade se desfaz, conduzindo-o a um silêncio impossível de decifrar. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 

A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT digitei "Um homem está de pé sob a chuva em uma noite escura, de costas para a câmera, olhando para uma casa em chamas que crepita em destruição. Segurando uma fotografia gasta de uma mulher de expressão solene, sua postura curvada transmite luto em meio ao cenário tempestuoso e deteriorado." e obtive esse resultado.

 

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