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A ÚLTIMA MEMÓRIA

 ''A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido.''  H.P. Lovecraft

    Acordei suado e tonto, o zumbido agudo das luzes fluorescentes perfurando meu crânio como lâminas invisíveis. O frio do chão metálico subia pelos ossos e cada vibração do piso soava como um sussurro de algo escondido, antigo demais para ser humano. Não me lembro de como vim parar ali, somente sei que a consciência se arrasta em pedaços, como se a realidade estivesse sendo comida por dentro. Sinto a mente vazia, uma ausência de passado que queima mais que a própria angústia. Tento buscar um nome, um rosto, mas tudo se dissolve num nevoeiro espesso, um vácuo que respira e observa.

    Começo a caminhar por um corredor estreito, as paredes de aço onduladas por cicatrizes que parecem veias queimadas. Cada passo ecoa em um ritmo que não é o meu, como se algo distante acompanhasse meus movimentos. O ar cheira a ferro e umidade, um odor metálico que gruda na pele e entra pelos pulmões. Então ouço, vindo de andares abaixo, um choro gutural e feminino, um lamento que parece arranhar o metal antes de alcançar meus ouvidos. Os gritos deslizam pelas grelhas de ventilação como serpentes sonoras, cortando o silêncio com um desespero que dilacera a alma.

    Acima de mim, em outro nível da nave, gemidos de dor se arrastam pelo ar, um lamento que não é unicamente humano, mas algo mais profundo, como se a própria estrutura do lugar chorasse em sofrimento. O som reverbera pelas vigas e me faz estremecer, cada nota carregada de um terror antigo que não consigo compreender. Ao seguir pelo corredor, vejo pegadas de sangue espalhadas em padrões que parecem deliberados, como se alguém, ou alguma coisa, quisesse conduzir meus passos. Há sinais de luta, arranhões profundos nas paredes, portas amassadas como se mãos de ferro as tivessem moldado em raiva.

    Uma placa quebrada balança pendurada por um fio, com letras quase apagadas que indicam Seção Alpha-3. O metal range sob a corrente invisível do ar e sinto um cheiro mais forte de sangue fresco misturado a algo adocicado, impuro, como carne em decomposição. Tento lembrar de quem sou, de onde vim, mas minha mente se recusa a responder, como se cada pergunta aprofundasse ainda mais a sensação de que jamais houve resposta. Minha própria identidade parece uma mentira, um eco de alguém que talvez tenha deixado de existir antes mesmo de acordar.

De repente, um rangido vibra atrás de uma porta retorcida e meus joelhos quase cedem. Um som arrastado, lento, pesado demais para ser humano, percorre o corredor como um aviso. Sombras deslizam pelo teto em movimentos que não obedecem a nenhuma lei natural. Por um instante penso ver braços que se esticam em formas impossíveis, rostos distorcidos que se fundem e se desfazem, como reflexos de um pesadelo moldando carne. O medo se infiltra nos ossos, corroendo a razão. Não consigo saber se aquelas silhuetas são reais ou meramente fruto de uma mente já quebrada.

    Chego a um cruzamento. À esquerda, um corredor mergulhado em trevas que parecem vivas; à direita, uma porta enferrujada fechada por uma tranca antiga. Escolho a porta como quem escolhe entre dois abismos. Empurro com força, o som do metal ressoa alto, misturando-se ao eco distante de gritos que não cessam. O chão está úmido, um filete de sangue escorre por baixo da soleira, quente o bastante para soltar vapor no ar gélido. Entro e fecho atrás de mim, encostando todo o corpo contra a chapa de aço. O batimento do coração acelera, mas a sensação é de que outro coração, maior e mais profundo, pulsa sob meus pés.

    Então o barulho começa. Um arrastar de algo pesado, cada movimento mais próximo, o ritmo irregular de uma coisa viva, mas sem forma. A porta vibra sob a batida de algo do outro lado e meu corpo inteiro treme em resposta. E é quando vejo, emergindo da sombra, uma cabeça humana decepada, flutuando no chão como se o próprio ar a carregasse. Os olhos arregalados brilham em um tom vítreo, a boca aberta em um sorriso de carne morta que exala um hálito azedo. Dou um passo atrás, a garganta seca, o corpo congelado pela repulsa. Chuto. Uma, duas vezes. Na terceira, algo estala e a cabeça se retorce, crescendo pernas finas, seis ou mais, cobertas de pelos escuros e úmidos, cada movimento um salto abrupto de puro ódio.

    O terror toma tudo quando a criatura avança, misto de aranha e rosto humano, seus olhos fixos em mim com uma consciência impossível. Chuto mais duas vezes, cada golpe acompanhado por um estalo úmido que não a detém. Com um impulso desesperado, alcanço uma peça metálica caída no canto, improviso um soldador com fios expostos, faíscas azuis cortam a escuridão. Empurro a porta, soldando cada fenda enquanto o som das garras raspa o metal, deixando marcas incandescentes. O cheiro de carne queimada invade o ar quando a solda se sela. Um estalo final, a porta treme, e então o silêncio cai como uma lâmina.

    Fico sentado no chão, encostado na porta ainda quente, a respiração descompassada, as mãos trêmulas cobertas de um líquido vermelho que não sei se é meu ou da criatura. O silêncio, porém, não é alívio. É um vazio que parece respirar, um espaço entre batidas de um coração que não pertence a mim. Fecho os olhos e tento recordar um nome, uma voz, qualquer prova de que existo fora desta nave. Mas a mente continua em branco, uma tela escura onde apenas o medo escreve.

Não sei quanto tempo passa. Minutos ou horas, talvez uma eternidade que não se mede. A luz acima de mim pisca, projetando sombras que se alongam como tentáculos ao meu redor. Sinto que não estou sozinho, mesmo aqui dentro. Talvez a nave inteira seja um ser, um organismo que me observa e espera. Cada respiração soa como um convite para que algo desperte, ou talvez eu mesmo esteja despertando para algo que sempre fui. O medo do desconhecido me sufoca, e percebo que não sei se ainda quero lembrar quem sou.

    O metal vibra sob meu corpo, primeiro em pulsares lentos, depois em batidas mais rápidas, como se um coração gigantesco estivesse abaixo de mim. Penso em levantar, em buscar uma saída, mas a ideia de abrir outra porta me paralisa. Olho para minhas mãos e vejo o sangue escorrendo em padrões que quase formam símbolos, letras de um idioma esquecido. Talvez tudo isso seja um sonho, talvez eu esteja morrendo em algum lugar distante, ou talvez esta nave exista somente para provar que a realidade não é nada além de um véu frágil. Sinto os olhos se fecharem, o som distante de passos ecoa pelo corredor, e não sei se estou acordado, se estou vivo, ou se apenas comecei a lembrar.

 

 




 

 

 

INSPIRAÇÃO

 

      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A ideia para esse texto é recente, baseado em um sonho do autor recentemente. Um homem desperta em uma nave desconhecida, sem memória e cercado por gritos, sombras e pegadas de sangue que sugerem um massacre indescritível. Em meio a corredores de metal e ecos de sofrimento, enfrenta uma criatura impossível — uma cabeça decepada que se transforma em aranha, enquanto a própria identidade se dissolve. Realidade e sonho se confundem, deixando somente o medo do desconhecido como certeza.

 

    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEAART digitei ''Acordei suado e tonto, o zumbido agudo das luzes fluorescentes perfurando meu crânio como lâminas invisíveis. O frio do chão metálico subia pelos ossos e cada vibração do piso soava como um sussurro de algo escondido, antigo demais para ser humano. Não me lembro de como vim parar ali, apenas sei que a consciência se arrasta em pedaços, como se a realidade estivesse sendo comida por dentro. Sinto a mente vazia, uma ausência de passado que queima mais que a própria angústia. Tento buscar um nome, um rosto, mas tudo se dissolve num nevoeiro espesso, um vácuo que respira e observa. Começo a caminhar por um corredor estreito, as paredes de aço onduladas por cicatrizes que parecem veias queimadas. Cada passo ecoa em um ritmo que não é o meu, como se algo distante acompanhasse meus movimentos. O ar cheira a ferro e umidade, um odor metálico que gruda na pele e entra pelos pulmões. Então ouço, vindo de andares abaixo, um choro gutural e feminino, um lamento que parece arranhar o metal antes de alcançar meus ouvidos. Os gritos deslizam pelas grelhas de ventilação como serpentes sonoras, cortando o silêncio com um desespero que dilacera a alma. Criar imagem extremamente realista "e obtive esse resultado. 

 



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