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PÃO

 ''A desigualdade social é um monstro que se alimenta da inocência do povo.'' Pedro Felipe B. Silva


Desde pequeno, ele crescera ouvindo o mesmo conselho em casa:

— Nunca dê dinheiro a mendigo. Eles pegam gosto pela vida fácil, preferem viver às custas do Estado. Se for ajudar, que seja com um biscoito seco, sem recheio. Mais que isso é alimentar a corrupção de uma alma já perdida.

  Guardou essa lição como quem guarda um mandamento.

   Naquela manhã, saindo da academia e a caminho da padaria que tanto gostava, encontrou-o. Um homem de rua, aparentando pouco mais de cinquenta anos, embora o rosto castigado denunciasse muito mais. A pele lembrava fruta apodrecida: uma manga caída no chão, mordida por cachorro, esquecida ao sol. O cabelo, sujo e desgrenhado, se misturava à barba rala. O cheiro era insuportável, mistura de suor antigo e calçada molhada. Os dentes, gastos e falhos, revelavam-se quando pedia, com voz cansada:

— Um trocado... qualquer salgado já ajuda...

   O som oco do estômago roncando se perdeu entre buzinas e um assobio agudo, sinal eletrônico de que clientes entravam na padaria.

   O jovem hesitou. Pela primeira vez, sentiu-se tocado. Disse ao homem que buscaria no carro algo melhor que comida. O olhar do sem-teto se acendeu por instantes, e um sorriso tímido se abriu em seu rosto cansado.

  Quando voltou, entregou-lhe uma sacola preta e pesada. Dentro, não havia pão nem moedas, mas livros de capa gasta e um papel com QR Code. Títulos duros e quase grotescos saltavam: “O Estoicismo do Coach Luz em Jesus Cristo”, “Mais Importante que Alimentar a Boca é Nutrir a Mente.”

  A frase soava como sentença: alimentar a mente é mais valioso que saciar a fome.

  Demorou dois meses para voltar àquela padaria. O mendigo nunca mais fora visto. Alguns diziam que havia mudado de vida, outros que a droga o arrastara para longe, e havia até quem transformara sua lembrança em camiseta de saudade.

   Foi apenas de madrugada, num bar cheio de risadas e copos de cerveja, que o reencontrou. Agora de uniforme preto, bandeja nas mãos, atendia com eficiência rara, delicadeza quase teatral. Um garçom exemplar. Na hora da conta, os olhares se cruzaram, e o jovem o reconheceu. Era ele.

  O ex-sem-teto sorria de forma diferente, firme, quase orgulhosa:

— Só muda quem quer mudar. O segredo é o mindset.

  Na mesa, um adolescente escutava em silêncio. Queria ser coach, sonhava com a mesma promessa de transformação instantânea. Mas em sua mente ecoava a voz dura do pai:

— Estudar para não virar vagabundo!

  Recordava-se da segunda-feira em que quase perdeu a escola, quando seu pai repetiu aquelas palavras como sentença final. Naquele dia, decidiu que não cairia nem na rua, nem no engano dos atalhos fáceis. Desde então, os professores diziam nunca ter visto aluno tão empenhado.

  Porque no Brasil, pão alimenta o corpo. Mas sem estudo, o destino pode ser apenas ausência de mesa, de teto, de futuro. Afinal, a meritocracia não atinge de igual forma os desiguais.




INSPIRAÇÃO

 

      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. A ideia para esse texto é recente, após um debate com amigos da faculdades surgiu o incentivo. No Brasil moderno, um jovem criado sob a lógica da meritocracia encontra um morador de rua diante da padaria que frequenta. Ao invés de pão, entrega-lhe livros e um QR Code que prometem mudança de mentalidade. Meses depois, descobre que o homem desapareceu, até reaparecer, transformado, como garçom. O episódio desperta reflexões em um adolescente que percebe a linha frágil entre estudo, sobrevivência e ruína.

 

    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT digitei '' "A imagem mostra um homem em situação de rua mais velho, com pele marcada pelo sol e barba desgrenhada, sentado na calçada de uma cidade próxima a uma padaria ao entardecer. Ele carrega uma sacola plástica preta contendo três livros e um QR Code. Dentro da padaria iluminada com luz suave e aconchegante, um homem e uma mulher compram pães frescos, enquanto a rua permanece pouco iluminada, ressaltando o contraste entre a aparência desgastada dele e a luz acolhedora do interior."e obtive esse resultado. 

     

Comentários

  1. Samara Fernandes Leite9 de setembro de 2025 às 17:08

    Ótimo texto,amor. Boa temática sobre as nuances da meritocracia.

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  2. Muito bom. Segura a atenção da gente até o final...

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  3. Uma leitura rápida, mas que inspira muitas reflexões!

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