''Como são sábios aqueles que se entregam às loucuras do amor!''
O motor da nave vibrava com uma intensidade que fazia meu peito estremecer, como se cada batida fosse um aviso de que a noite cósmica não nos daria tréguas. O espaço diante de nós parecia quieto demais, um lago sereno que escondia criaturas famintas nas profundezas. Gabriel, ao meu lado, inclinava-se com seu jeito inconfundível, carregado de uma autoconfiança quase insolente, como se o próprio universo fosse apenas mais uma pista de corrida à espera de sua ousadia. Os olhos dele faiscavam como estrelas famintas, prontos para rasgar qualquer limite. Conhecia-o o suficiente para perceber que a calma aparente só o excitava, pois o piloto mais rápido da galáxia vivia em busca de tempestades.
Samara Fernandes, com sua postura firme e calma de cirurgiã, dominava os painéis médicos e auxiliares, os dedos finos dançando entre cálculos e diagnósticos como se manuseasse bisturi invisível. Havia uma precisão silenciosa em cada gesto dela, uma clareza fria que contrastava com o ardor impetuoso de Gabriel. Enquanto ele devorava o espaço como fera selvagem, ela o moldava em linhas e números, transformando o caos em matemática pura. Eu sentia que, juntos, formavam a síntese impossível entre instinto e razão, uma alquimia rara que fazia deles mais do que sobreviventes fazia deles inevitáveis.
Então veio a primeira explosão de luz. Um clarão rasgou o véu escuro, rápido demais para ser um cometa isolado. Logo outros se seguiram, dezenas, depois centenas, até que o vazio se converteu em palco de fúria. A chuva de meteoritos nasceu diante de nós como um enxame descontrolado, uma horda flamejante cuspida por algum abismo esquecido. O casco da nave gemeu como fera ferida, e o estômago se contraiu em meu corpo quando os primeiros impactos ecoaram pelo corredor. Gabriel, em resposta, soltou uma risada insana, como se estivesse finalmente no tipo de jogo que nascera para vencer.
As mãos dele dançaram sobre o manche com velocidade impossível, cada movimento arrancando da nave desvios que pareciam violações das leis físicas. Códigos proibidos brotavam de seus lábios, e o sistema de comando respondia como servo hipnotizado. O inferno ao nosso redor parecia se render à vontade daquele homem que jamais aceitava barreiras. Ao mesmo tempo, a médica prodigiosa realizava seus próprios milagres: os olhos dela percorriam fórmulas gravitacionais com a rapidez de quem calculava não apenas trajetórias, mas destinos. Enquanto meteoros ardiam ao nosso redor, Samara traçava rotas secretas, equações vivas que redesenhavam o mapa do caos em linhas de sobrevivência.
O bombardeio cósmico não cessava. Fragmentos flamejantes se chocavam contra o escudo magnético, explodindo em clarões que transformavam a cabine em espetáculo de fogo. Ainda assim, alguns pedaços atravessaram a defesa e mergulharam em nossos corredores. O ar rarefeito escapou em assovio mortal, o metal estalou, e as chamas nasceram na lateral da nave. Vi a cirurgiã abrir seu kit médico, mas, em vez de corpos, curava a própria estrutura da nave, selando fissuras com compostos químicos e improvisando cirurgias no casco como faria em carne viva. Gabriel, enquanto isso, mergulhava no núcleo de energia com linhas de código clandestino, forçando o motor a cuspir mais potência do que qualquer engenheiro ousaria imaginar.
Emergimos da tempestade como náufragos expulsos pela fúria do oceano. Atrás de nós, a escuridão se acalmava, embora ainda vibrasse em lembranças de fogo. À frente, contudo, o verdadeiro desafio nos aguardava. O portal da base inimiga cintilava no horizonte, e sua presença não trazia alívio, apenas a promessa de batalha. O império de ferro, senhor das rotas interestelares, esperava por nós armado até os dentes. Canhões orbitais, alinhados como predadores em círculo, já rastreavam nossas assinaturas energéticas. Se avançássemos sem truques, não restaria sequer poeira para contar nossa história.
Mas o homem ao meu lado nunca recuava diante da morte. O hacker prodigioso abriu o canal de comunicação e, com a voz revestida de uma autoridade quase divina, começou a falar. Não eram apenas palavras — eram cláusulas esquecidas, leis dobradas, brechas jurídicas costuradas com a precisão de um feiticeiro da lógica. Gabriel transformava a própria fala em armadura, envolvendo os generais inimigos em um labirinto de normas e protocolos que ninguém ousava contestar. Enquanto eles tropeçavam em sua rede de argumentos formais e informais, Samara aproveitava as lacunas. Seus dedos corriam pelos sistemas de defesa da fortaleza, redesenhando trajetórias e anulando protocolos de disparo com a destreza de quem opera um coração em colapso.
O instante final chegou como trovão inevitável. As armas do inimigo rugiram, mas as rotas traídas inverteram os disparos. Os próprios canhões se voltaram contra a fortaleza, cuspindo fogo faminto que devorou a estrutura colossal. Explosões se espalharam em ondas de luz, transformando o espaço em espetáculo de destruição. Cada clarão era um grito de queda, cada estilhaço, o fim de um império que acreditava ser eterno. E nós, sobreviventes improváveis, assistíamos ao colapso com olhos que ainda não acreditavam na vitória.
No silêncio que se seguiu à tormenta, os sistemas repousaram, e percebi que o universo, por um instante, parecia curvar-se diante deles. Gabriel, ainda com o sorriso de quem domou a própria morte, desligou os controles e se voltou para sua companheira. Ela, suada, respiração acelerada, mas com os olhos queimando em chamas vivas, o encarava como se cada segundo fosse eternidade roubada. O gesto dele foi simples: puxou-a para si, e quando os lábios se encontraram, não restou espaço para palavras.
As estrelas nos cercavam como testemunhas silenciosas, cúmplices de um amor que não apenas resistira ao caos, mas florescera em meio a ele. Ali, no coração de um espaço que acabara de provar sua crueldade, dois sobreviventes se tornaram mais do que heróis tornaram-se eternos um no outro.
INSPIRAÇÃO

Adorei esse conto de ficção científica. Amo você imensamente 😘❤️
ResponderExcluirÓtimo texto, parabéns ao casal 👏
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