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COMBUSTÍVEL DO MEDO

 ''A alma não tem segredo que o comportamento não revele.'' Lao-Tsé


    Há vinte e cinco anos exerço meu ofício com precisão impecável. O reconhecimento pelo meu trabalho, confesso, me seria gratificante, mas escolhi viver na sombra, numa existência de aparente anonimato. No entanto, basta abrir qualquer jornal: meu nome surge na primeira página, repetido como um eco inevitável. Indiretamente, sou famoso, não por mim, mas pelas circunstâncias, pelos outros. Talvez você, leitor, tente agora adivinhar em que ramo atuo. Cinema? Política? Música? Sorrio diante dessa dúvida. Nada disso me parece suficiente para moldar a fama verdadeira. Minha vida sempre oscilou entre a margem e os holofotes, entre a escuridão e a luz crua que ilumina somente o que precisa ser visto.

    Meu pai, Harry¹, foi meu primeiro mestre. Ex-militar, rígido, exigente. Ensinou-me a rastrear, a caçar, a despedaçar presas sem deixar vestígios. Sua disciplina era absoluta. Dizia que homens que vacilavam eram fracos, "bixinhas", incapazes de carregar o peso da vida. Cresci sob esse aço, e ainda hoje visito seu túmulo. Ali, no silêncio frio da terra, sinto algo reconfortante, como se sua mão invisível pousasse sobre meu ombro, me lembrando que tudo está sob controle. Nesses momentos, uma calma sombria me envolve, e renasço.

    Recordo com nitidez a primeira vez que cacei sozinho. Era madrugada, o corpo ainda impregnado pelo álcool da noite anterior com colegas de faculdade. O equipamento já me esperava, meticulosamente preparado. Vesti-me em silêncio, como quem se prepara para um ritual. A mata me recebeu úmida, coberta por um véu de neblina que se dissolvia devagar sob o frio cortante. Cada passo era um ensaio da prudência ensinada por meu pai: evitar galhos, evitar ruídos, tornar-se invisível.

    Deitei no chão endurecido pela geada. A vegetação cristalizada arranhava minha pele, mas não me importei. Molhei o polegar, ergui-o ao vento fraco, inclinando-se para a direita. Ajustei a luneta do rifle com a paciência de um relojoeiro. Três giros no sentido horário. Enfim, o enquadramento perfeito.

    E então os vi. Dois animais de pelagem branca, nadando serenos num lago de águas imóveis, como se o mundo inteiro estivesse suspenso naquele instante. O silêncio era absoluto, quase sagrado. Calculei a trajetória, respirei fundo e pressionei o gatilho. O estampido rasgou o ar, e imediatamente o primeiro corpo se contorceu. A água azul se converteu em um vermelho denso, viscoso, espalhando-se em ondas lentas. O animal agitava-se em desespero, cada movimento mais fraco que o anterior, afogando-se não apenas na água, mas no próprio sangue.

    O segundo hesitou. Seus olhos buscaram algo no horizonte, talvez uma rota, talvez esperança. E então correu. O campo de girassóis abriu-se diante dela, dourado e vibrante, como uma promessa de fuga. Mas promessas são frágeis. Apontei novamente, e o estampido cortou a manhã. O corpo tombou entre as flores, e o amarelo luminoso foi tingido de escarlate fresco, como um quadro pintado à força.

    Aproximei-me lentamente. Ela ainda respirava. Cada inspiração era um soluço áspero, cada expiração, um borbulhar de sangue. O olhar estava arregalado, fixo, implorando por algo que nem ela sabia definir. A boca se abriu num sussurro quase imperceptível:

— P... por favor... piedade...

    A voz era uma mistura de imploração e terror, sufocada pelo líquido quente que escorria sem trégua. Havia algo profundamente humano naquele som, ainda que fosse somente um animal. Eu me detive por um segundo, observando. A pupila dela se dilatava grotescamente, os olhos buscavam ar, buscavam salvação. Era como assistir a um corpo tentando resistir ao inevitável, enquanto a mente já compreendia que a escuridão se aproximava.

    O terror dela se gravou em mim. Vi a vida escapar em ondas lentas, como se cada batida do coração arrancasse mais uma fração de sua existência. Vi o choque absoluto da morte chegar, não como um sopro rápido, mas como uma maré lenta e sufocante, tragando cada pedaço daquilo que outrora respirava.

    Atirei de novo. Duas vezes. Não por necessidade, mas para selar a memória. O estampido ecoou como uma assinatura final.

    Até hoje, quando fecho os olhos, vejo o olhar dela, aquele medo puro, cristalino, sem nome. É ele que me alimenta. É ele que me move.

Meu combustível. Meu fardo.  Meu prazer.

    Como um velho Opala, gasto demais, mas sigo rodando. Sempre rodando.

 


 

 

 INSPIRAÇÃO

 

      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, um narrador enigmático assassino em série relata sua trajetória marcada por disciplina, solidão e heranças sombrias deixadas pelo pai. À margem da sociedade, entre anonimato e reconhecimento involuntário, ele revela um ofício que exige precisão e sangue frio. Em meio a lembranças vívidas, seu relato transforma-se numa confissão perturbadora, onde cada detalhe ecoa entre a frieza do método e o calor angustiante da vida que se esvai.   Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

 

    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEAART, digitei "Criar imagem extremamente realista sobre uma caçador homem na floresta densa usando ''  e obtive esse resultado. 
 
 
REFERÊNCIAS:
 
  1. A série Dexter (2006–2013) acompanha Dexter Morgan, um assassino serial que mata criminosos impunes, seguindo o Código de Harry, criado por seu pai adotivo, Harry Morgan. Detetive da polícia, Harry (James Remar) molda os impulsos homicidas de Dexter desde a infância, ensinando-o técnicas de investigação, disfarce e como evitar suspeitas. Sua influência persiste em flashbacks e alucinações, atuando como uma consciência moral distorcida. A relação entre os dois é central, explorando temas como justiça vigilante e os limites entre natureza e criação. Harry, mesmo após sua morte, simboliza o legado ambíguo que define Dexter: nem herói, nem monstro, mas um produto de seu ensino.

 


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