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FRAGMENTOS DE MIM



''A memória é um labirinto onde os fantasmas do passado nos sussurram segredos distorcidos." Carlos Ruiz Zafón

 

    O asfalto da estrada ardia sob o sol, e o calor subia em ondas que embaralhavam a paisagem. Meus passos eram o único som que resistia no silêncio daquele lugar. No bolso, uma fotografia antiga e amassada, mostrando o rosto de uma senhora que nunca vi pessoalmente, mas que, segundo me disseram, ainda me conhecia. Ela era a última pessoa que lembrava que eu existia, e a cada quilômetro, o medo de chegar tarde demais pesava mais do que a mochila nas minhas costas. O vento seco trazia cheiro de poeira e mato queimado, como se o mundo estivesse se desfazendo antes de mim.

    A cidade onde ela vivia parecia suspensa no tempo. Ruas estreitas, calçadas rachadas, portas descascadas. O cheiro de terra úmida se misturava com o de pão amanhecido vindo de uma padaria adormecida na esquina. Caminhei devagar, tentando adivinhar qual seria a casa de janelas azuis que me descreveram. Quando a encontrei, o portão de ferro estava torto e rangia ao toque. Subi três degraus que reclamaram sob meus pés e bati na porta. A madeira vibrou fraca, como se não tivesse mais forças para resistir. Esperei alguns segundos que pareceram minutos, até que a maçaneta girou e ela surgiu, magra, os cabelos brancos presos em um coque frouxo, e um olhar que não se fixava em nada por muito tempo.

    “Posso entrar?” perguntei, a voz mais alta do que pretendia, como se, falando forte, pudesse manter minha presença intacta. Ela me encarou, hesitou e, sem dizer nada, deu um passo para trás, abrindo espaço. Dentro, o ar era pesado com o cheiro de naftalina e poeira. As paredes estavam cobertas de retratos antigos, molduras douradas e vidros embaçados. Reconheci meu próprio rosto em um deles, mas a superfície turva apagava os detalhes. Sentei-me à frente dela, que se acomodou numa poltrona funda e afundada. “Sou… o menino da foto”, disse, tentando sorrir e fazer a voz soar familiar.

    Ela franziu a testa, apertando os olhos como se a memória estivesse logo ali, ao alcance, mas coberta por neblina. “Conheço você?”, perguntou, e naquele instante senti uma fisgada estranha. Olhei para minha mão apoiada no joelho e percebi que a ponta do meu indicador começava a se desfazer em pequenos quadrados cinzentos, que se soltavam e flutuavam pelo ar antes de sumirem. Fechei o punho e escondi atrás da perna. “Sim, claro que conhece…”, insisti, esticando o corpo para a frente, como quem tenta ancorar um barco prestes a se soltar.

    A conversa escorregava como água por entre os dedos. Ela me perguntava quem eu era de novo e de novo, sem perceber que já tinha feito a mesma pergunta instantes antes. Cada vez que o olhar dela ficava vazio, mais pixels escapavam de mim, primeiro da pele, depois da manga da minha camisa. Comecei a falar mais rápido, inventando histórias, descrevendo momentos que talvez nem tivessem acontecido, somente para tentar manter viva uma imagem minha dentro dela. “Você… é o rapaz que…”, começou ela, mas a frase faleceu antes de encontrar sentido.

    Meu braço direito terminava agora no cotovelo. O mundo ao redor parecia tremer, e as paredes se deformavam como se alguém estivesse mexendo na nitidez da realidade. “Isso! É isso!”, gritei, desesperado. “Sou aquele menino que você auxiliou no verão, lembra? O verão quente, quando choveu no meio da tarde e você me deu abrigo.” Ela desviou os olhos para a janela e disse calmamente: “Verão? Qual verão?”. As palavras dela caíram sobre mim como gelo. Olhei para baixo e percebi que meu tronco se dissolvia, a pele se fragmentando em pedaços translúcidos que o ar levava embora.

    Minha voz começou a perder força, como se estivesse sendo sugada para longe. Tentei chamá-la pelo nome uma, duas vezes, mas cada repetição soava mais fraca. “Você… quem mesmo?”, perguntou, e seu rosto, embora sereno, não carregava nenhum traço de reconhecimento. Minhas pernas já não existiam. Só restavam meu peito e minha cabeça, que tremiam como uma imagem prestes a desaparecer da tela. Respirei fundo e me forcei a falar, embora cada palavra parecesse arranhar minha garganta. “Eu sou…”, tentei, mas a frase não se completou.

 

 


 INSPIRAÇÃO

 

      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia antiga, em um mundo onde pessoas deixam de existir quando ninguém mais se lembra delas, um homem descobre que apenas uma idosa distante ainda guarda seu nome. Ele viaja para encontrá-la, mas a mulher sofre de Alzheimer, e sua lembrança sobre ele se apaga pouco a pouco. Enquanto conversa com ela, partes do seu corpo começam a desaparecer como pixels dissolvendo-se no ar. Ele precisa desesperadamente reavivar as memórias dela antes que o último vestígio de si mesmo se desfaça para sempre.  Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

 

    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT, digitei "The image captures a middle-aged man, dissolving into pixelated fragments, as he leans toward an elderly woman in a quiet, dimly lit room. His desperation contrasts with her confused calm, while the soft light and weathered surroundings heighten the emotional intensity between them.''  e obtive esse resultado. 
 
 
 


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