''A realidade apenas se forma na memória; as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem verdadeiras flores.''
O copo caiu da beirada da mesa e rolou pela borda, como se obedecesse a uma coreografia, mas não se quebrou. Silas o pegou ainda quicando, os dedos firmes no vidro molhado. O barulho seco da madeira no chão da cozinha ecoou como um aviso que só ele ouviu. Sentiu a pele do braço arrepiar, não pelo acidente evitado, e sim pela frequência com que esses episódios se repetiam. Chuva torrencial na rua e sempre havia um táxi vazio na hora exata. Portas emperradas cediam com um toque. Pedras na calçada nunca o faziam tropeçar. Ele percebia o padrão, embora fingisse não perceber.
No início, a sensação veio como um consolo. Depois do acidente na fábrica, as contas se empilhavam e a sorte repentina parecia um presente. Um chefe de oficina que desistia de demitir alguém na última hora, um cliente que pagava adiantado, um número sorteado na rifa da comunidade. Mas a cada vitória, percebia pequenas perdas estranhas. Uma fotografia de infância desaparecia da gaveta. O cheiro de café fresco parecia menos intenso. Certos rostos conhecidos não provocavam mais nada nele, como se memórias inteiras tivessem sido arrancadas.
As noites ficavam mais longas. Não pelo relógio, e sim pela sensação de que o tempo entre o sono e o amanhecer se dilatava. Silas acordava suado, sem lembrar dos sonhos, mas com um gosto metálico na boca. Evitava falar sobre isso. Tentou registrar mentalmente as coincidências: moedas caindo sempre com cara, cartas certas no jogo, filas que andavam rápido só para ele. Cada evento trazia um alívio imediato, mas um eco de vazio depois. Como se tivesse pago algo que não lembrava ter oferecido.
Numa manhã cinza, o médico da clínica do bairro o chamou para um exame gratuito de rotina. A justificativa soava vaga, mas foi. Na sala fria, uma luz branca intensa refletia nos instrumentos de metal. O médico, um homem magro e de olhos fundos, examinou o sangue no visor de um aparelho portátil. Seus lábios se curvaram num quase-sorriso. "Você tem algo raro aqui", murmurou, sem explicar. Viu, na tela, formas minúsculas que se moviam com uma cadência impossível: não vibravam como células normais, mas pareciam mudar de direção deliberadamente.
Os dias seguintes trouxeram mais acasos absurdos. Um bloco de concreto caiu de um andaime e atingiu o chão a centímetros de seu pé. Um carro desgovernado desviou no último instante, como se repelido. Mas junto vieram ausências mais dolorosas. Não conseguia lembrar o som da voz de sua mãe. Uma cicatriz antiga no joelho havia sumido. Certas músicas que sempre o emocionavam agora o deixavam indiferente. Algo sugava não só memórias, mas o próprio significado que ligava ele ao mundo.
Foi no galpão abandonado que encontrou a resposta. Um pesquisador que conhecera na oficina, homem de fala rápida e olhos inquietos, o chamou para "mostrar algo". Em meio a caixas de arquivos, o homem projetou imagens captadas por microscópios de última geração. Mostrou criaturas minúsculas com tentáculos translúcidos e núcleos pulsantes. Elas se conectavam às células nervosas e liberavam um campo imperceptível que alterava probabilidades. "Elas escolhem o evento mais favorável para o hospedeiro", explicou, "mas cobram por isso. Pagam-se com fragmentos da sua identidade".
Ele assistiu ao vídeo de uma cobaia que ganhava em todos os jogos, atravessava ruas sem risco, escapava de incêndios... até ficar imóvel, encarando o vazio, sem reconhecer o próprio nome. O pesquisador desligou o projetor e o encarou. "Você está infectado", disse, e a frase veio como uma sentença. Silas sentiu o corpo inteiro se contrair. Ele quis perguntar como remover, mas o olhar do outro bastou: não havia cura conhecida.
Nos dias seguintes, a sorte virou vício. Ele começou a provocar riscos: atravessar cruzamentos sem olhar, apostar dinheiro que não tinha, encostar em fios desencapados. Quanto mais sobrevivia, mais algo em seu interior se apagava. Amigos antigos pareciam estranhos. Roupas no armário não lhe despertavam lembrança de onde vieram. Seu reflexo no espelho tinha um olhar vazio, embora um sorriso involuntário surgisse sempre que escapava de um perigo.
Numa noite chuvosa, correu pela avenida em direção ao viaduto, o vento frio cortando o rosto. Um caminhão surgiu na contramão. Ele avançou, certo de que a sorte o protegeria. O veículo desviou absurdamente, como se repelido por uma força invisível. Silas girou o corpo e riu. A risada ecoou estranha, metálica. No instante seguinte, ele percebeu que não lembrava o motivo de estar ali. Nem seu nome. Somente uma presença quente, quase afetuosa, pulsando sob a pele.
E então algo se moveu em sua visão periférica: um vulto de si, mas sem expressão, observando-o. O reflexo piscou e desapareceu, como se tivesse sido apagado do mundo. Olhou para as mãos, sem as reconhecer. Lá, no fundo, o parasita vibrava de satisfação. A última barganha se completara.
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, coincidências improváveis começam a se acumular na vida de um homem comum, trazendo sucessos e escapadas milagrosas. Enquanto desfruta dessa maré de sorte, ele percebe mudanças sutis, mas inquietantes, no que sente e lembra. Quanto mais os acasos o favorecem, mais estranhas se tornam as lacunas ao seu redor. Uma força invisível parece conduzir seu destino para um ponto inevitável. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
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ah, quem derá se tivessemos uma sorte a absurda, mas é importante entender que tudo tem um preço a ser pago
ResponderExcluirNada vem de graça, excelente!
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