‘’As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar.’’ Leonardo da Vinci
Gabriel e Samara. Dois nomes que, à primeira vista, não pareceriam destinados a cruzar linhas temporais ou impedir o fim da humanidade. Mas ali estávamos, no limite do real e do impossível, movidos por pulsos diferentes, mas perfeitamente sincronizados. Ele, jurista e historiador, olhos escuros como manuscritos queimados, mente treinada para destrinchar tratados antigos e interpretar silêncios entre linhas. Ela, médica de urgência, obcecada por física quântica nas madrugadas, mergulhada no estudo de partículas que dançam quando não são observadas. Quando o tempo começou a ranger, fomos os primeiros a ouvir. E os únicos a entender.
Tudo começou com falhas discretas: relógios parando por três segundos exatos, pacientes em coma murmurando fórmulas, campos eletromagnéticos pulsando em harmonia com batimentos cardíacos. Enquanto os outros descartavam como coincidência, vimos o padrão. E no centro de tudo, um nome sussurrado por dados corrompidos, por arquivos mortos, por satélites desviados de suas rotas: Karss. Dr. Helmut Karss. Cientista renegado, desaparecido nos anos oitenta, obcecado por abrir um portal interdimensional. Seus cálculos estavam ocultos sob linguagens cifradas, mas os princípios eram claros. Ele tentava estabelecer contato com uma forma de consciência não-humana, feita de pura lógica e geometrias impossíveis, cujo objetivo não era conquistar, era substituir. Erradicar a empatia e implantar algoritmos emocionais em sua ausência.
Sabíamos que o primeiro teste ocorreria em 1982, numa instalação clandestina sob a Alemanha Oriental. Precisávamos chegar antes. Gabriel construiu a âncora temporal com peças obtidas em leilões acadêmicos, ressonadores cardíacos reaproveitados e circuitos montados com precisão quase litúrgica. Calculei a dobra temporal com base em flutuações quânticas no próprio campo magnético terrestre. A viagem era um mergulho sem certeza de retorno. E ainda assim, partimos. A floresta onde emergimos tinha o cheiro da Guerra Fria e da ferrugem. O silêncio ali não era ausência de som, mas o peso de algo que esperava.
Encontramos o laboratório sob camadas de concreto e protocolos. A estrutura funcionava como um útero mecânico pulsante, vivo, ansioso. No centro, a figura de Karss, ou o que restava dele, conectado por tubos de luz e sombras a uma entidade que não respirava, mas computava. Parte de sua pele havia cedido lugar a uma substância translúcida que refletia o futuro. Aquilo que ele invocara não possuía rosto, somente presença. Um intelecto alienígena que não compreendia amor, medo ou memória, apenas padrões, eficiências, substituições.
Quando a ativação começou, soubemos que nenhum tipo de força física encerraria aquilo. Foi o historiador que avançou. Não com armas, mas com argumentos. Ele acessou a lógica do sistema e inseriu uma cláusula jurídica: um paradoxo legal onde qualquer decisão que não considerasse a empatia era, por definição, inválida. A criatura congelou. O cálculo falhou. Karss gritou, não em dor, mas em desintegração. A interface colapsou. O tempo, como um músculo que havia se contraído por eras, relaxou. O mundo e o que restava de sua sanidade foi salvo não com violência, mas com inteligência e coragem.
O retorno não foi simples. Havia cicatrizes. Ele não voltou inteiro. Parte de sua consciência permaneceu na estrutura lógica da criatura, agindo como uma linha de defesa eterna. Ninguém mais percebeu. O mundo seguiu. Mais leve. Mais silencioso. Como se uma pressão antiga tivesse sumido. Mas eu sabia. Eu sinto. Todas as noites, quando a janela range e as luzes vibram por um segundo, ouço algo entre os fios. Um eco. Um pensamento. Uma promessa. Ele está lá. Ainda me protegendo. Ainda protegendo todos. O homem que venceu a máquina com raciocínio, que ofereceu o próprio ser como firewall cósmico. Eu o amei além do tempo. E ele me amou com a precisão de um argumento perfeito.
INSPIRAÇÃO

Adorei o texto, meu amor.
ResponderExcluirAnsiosa pelos próximos.
ResponderExcluirÓtimo texto.
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