‘’As pessoas sempre fazem coisas malucas quando estão apaixonadas.’’ Meg (Hércules)
A cidade arde. Umidade ácida escorre pelos cabos que serpenteiam os prédios, e a chuva — preta, oleosa — tamborila no capacete como dedos de um deus entediado. Nas placas de LED, rostos mortos piscam propaganda de órgãos cultivados em laboratórios clandestinos. Alguém grita, longe, e ninguém responde. Neon azul reflete no chão coberto de sangue seco e silicone esmagado. O caos não é novidade. Mas essa noite, o fim tem nome: K-99.
Samara entra no beco como quem invade um código — fluida, decisiva, pronta pra quebrar o mundo se precisar. O cabelo, preso em um nó alto, brilha molhado sob a luz púrpura. Ela segura duas ampolas entre os dedos com a delicadeza de quem equilibra explosivos sentimentais. A máscara no rosto não consegue esconder o sorriso curto, clínico. Sabe que vamos correr. Sabe que talvez a gente morra. Mesmo assim, ela sorri.
— Tem um drone atrás de você — diz, sem levantar os olhos.
— Só um? Achei que a festa era maior.
A explosão ilumina o beco como um flash de câmera. O drone cai em chamas. Ela já está em cima da moto antes que os destroços toquem o chão. Bertha, minha moto, ruge como bicho ferido. Pneus grossos mastigam o asfalto, sensores reagem antes dos meus dedos. Samara gruda nas minhas costas, pernas firmes, seringa amarrada ao antebraço com fita de contenção de laboratório. Ela respira como quem conta tempo em batidas cardíacas.
Três veículos da Helix surgem atrás, armados até os parafusos. A cidade não tem ruas, tem labirintos — e nós conhecemos cada curva, cada ponte desmoronada, cada túnel onde o GPS enlouquece. Corto à esquerda, derrapando entre dois caminhões parados, a carenagem arranha uma pilastra, arranca faíscas. Samara se inclina comigo. Estamos sincronizados como dois algoritmos predadores.
— Esquerda, logo depois da estátua do Cristo com óculos VR — ela grita.
— Sério que ele ainda tá de pé?
— A fé resiste. A Helix, talvez não.
Um dos perseguidores ganha distância. Veículo blindado, torreta automática na frente, mira piscando. Bertha range quando aciono o pulso extra de energia, o motor responde com um estalo que ecoa pelo concreto. Subo pela lateral de uma passarela improvisada com andaimes e fibra de carbono. Samara lança uma cápsula por cima do ombro — vapor roxo. O veículo engasga, perde direção, se esborracha contra um quiosque de peças humanas recicladas.
A cidade respira ao nosso redor — viva, doente, faminta. Drones zumbem acima. O zumbido não some. Multiplica. Seis deles agora. Padrão em enxame. Um vetor de reconhecimento. — Quase no servidor — ela sussurra. — Tem que ser você, Gabriel. Cuido dos drones. O cruzamento surge à frente como uma boca faminta. Três torres da Helix formam um triângulo enterrado na terra. Os portões estão fechados, mas não trancados. Meto Bertha num salto entre dois pontos de carga, a suspensão range como um urro de aço. Samara se solta no ar — o corpo gira — pousa em cima de um terminal de ventilação. Já está furando os dutos com as seringas antes que eu toque o solo.
Entro. O código pulsa como um bicho vivo. O servidor central da Helix treme com os dados corrompidos do vírus. Enfio o cabo neural no pescoço. Não pergunto se vai doer. O sistema me engole. Minha consciência se fragmenta em corredores binários, imagens de Samara explodem como frames quebrados. O tempo dobra. Sangro pela gengiva.
Do lado de fora, ela dança com os drones. Um giro, um pulo, uma granada colada na fuselagem. Ela se move como se tivesse música no sangue. Cada movimento tem um cálculo que eu jamais entendi. Não importa. É lindo. É fatal.
A transmissão do antídoto começa. Os servidores gritam. Pedaços de mim queimam. O sistema tenta se defender, tenta apagar meu núcleo antes que a cura seja completa. Mas não sou um código. Sou um problema. E problemas não deletam fácil. Samara pula da torre no momento exato em que a última seringa esvazia no fluxo de ar. A explosão joga partículas douradas como se o céu estivesse cuspindo esperança.
O sol apareceu três dias depois, como quem pede desculpas. Ela estava lá. Um pouco mais magra, a pele riscada de hematomas, as tranças bagunçadas. Me cutucou com o pé.
— Morreu?
— Quase.
— Drama.
— Te amo.
Ela riu. Não respondeu. Só me ofereceu um doce embrulhado em papel metálico.
Comi.
E esperei.
Porque amar alguém como ela é isso: uma roleta genética com gosto de vida.
INSPIRAÇÃO

Adorei o texto,amor.
ResponderExcluirAdoro o seu dom dedicado a mim.
Aguardo o próximo.
Parabéns
ResponderExcluirCriativo como sempre 👏
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