"A memória é um caderno cujas páginas são reescritas por mãos alheias.'' Gabriel García Márquez
O cheiro de óleo queimado ainda grudava nas minhas narinas semanas depois do "milagre" na subestação. O médico chamou de sorte, mas eu sabia que era outra coisa. Começou com pequenos deslizes, coisas que meu corpo fazia sem minha permissão. O café, sempre preto e forte, de repente adoçado por mãos que não pareciam minhas. O sabor me enojou, mas uma onda de calor percorreu minhas veias, como se algo dentro de mim estivesse se alimentando daquele açúcar. Joguei o líquido fora, convencido de que era somente estresse pós-traumático. Então veio o violão.
Encontrei o instrumento velho no sótão, empoeirado e esquecido. Nunca toquei na vida, sempre odiei música. No entanto, quando o peguei, meus dedos se moveram com uma familiaridade assustadora. Um acorde dissonante ecoou pela casa, e eu o soltei como se queimasse. O som ficou preso nos meus ossos por horas, vibrando como um zumbido elétrico. Clara percebeu antes de mim. "Você parece diferente, Paul", disse uma noite, o livro esquecido no colo. A luz da lâmpada cavava sombras sob seus olhos. "Menos... você." Tentei responder, mas as palavras não saíram. Como explicar que os espelhos estavam mentindo?
Toda vez que me olhava, meu reflexo falhava por um instante. A imagem tremia, e então olhos negros, um sorriso que não era meu. Durava menos de um segundo, mas o suficiente para me fazer tocar o rosto, tentando confirmar que ainda era eu. Os sonhos pioraram. Memórias que não eram minhas invadiam as noites: eu, criança, brincando num quintal ensolarado com um cachorro que nunca existiu. Cheiro de grama, calor no braço. Então, um sussurro atrás da cerca: "Isso nunca aconteceu." Acordava encharcado, com gosto de metal na boca e a certeza de que algo estava me roubando.
Evitei espelhos, cobri os do banheiro, mas a coisa dentro de mim ficou ousada. Um dia, enquanto consertava uma tomada, minhas mãos começaram a desenhar símbolos na parede com carvão. Linhas que doíam nos olhos, formas que faziam o ar ficar estático. PARE! Gritei dentro da minha cabeça, e minhas mãos tremeram. O carvão caiu, mas os símbolos pulsaram, como se respirassem. Clara os viu. "Arte, Paul?" Seu sorriso era uma linha fina de medo.
A noite do espelho chegou. Uma força me arrastou até o corredor, onde o espelho embaçado me esperava. O coração batia nas costelas, a luz fraca distorcendo as sombras. Olhei. Primeiro, vi meu rosto, cabelo desgrenhado, olhos fundos, cicatriz na têmpora. Então, uma ondulação, como óleo na água. Minha pele no reflexo escorreu, derretendo em cera negra. Músculos expostos, olhos virando poços de petróleo. A boca se rasgou num sorriso de dentes irregulares. "Quase lá, Paul", disse a coisa com minha voz, mas arrastada, rouca. "Sua casa... é confortável." Tentei gritar—saiu um gemido. Tentei correr—minhas pernas não responderam. A mão no espelho rompeu a superfície, negra e deformada, pingando algo viscoso. O ar ficou gelado, cheirando a terra de cemitério e fiação queimada.
O grito de Clara veio do quarto. "PAUL?!" A mão monstruosa recuou. O reflexo voltou ao normal, eu, pálido, suando. Mas o cheiro permaneceu. E por um instante, senti um sorriso dançando nos meus lábios.
Agora, estou trancado no escritório. Cortinas cerradas, somente o tique-taque do relógio e a luz trêmula da vela. Escrevo estas palavras com uma caligrafia que não é minha, elegante, fluida, familiar. Clara bate na porta. "Paul? Abre, por favor." Sua voz está cheia de lágrimas. Quero abrir. Quero abraçá-la. Mas a voz fria sussurra nas minhas entranhas: "Ela não é sua. Aguarde." Olho para o espelho na escrivaninha. Na luz bruxuleante, não vejo meu rosto, apenas escuridão, dois pontos pálidos como estrelas mortas me encarando.
O caderno aberto revela páginas anteriores. Minha letra antiga, desesperada, rabiscada antes de ser apagada pela nova: "NÃO SUBSTITUI. REVELA. ELA SEMPRE ESTEVE AQUI. DENTRO. ESPERANDO. VOCÊ NÃO É PAUL. VOCÊ NUNCA FO..." O resto é um borrão de tinta.
Agora, a porta range sob um peso que não é o de Clara. Alguém ou algo está do outro lado. A vela tremula. A escuridão no espelho parece respirar. E uma calma gelada desce sobre mim, como um manto de aceitação.
Encontrei o instrumento velho no sótão, empoeirado e esquecido. Nunca toquei na vida, sempre odiei música. No entanto, quando o peguei, meus dedos se moveram com uma familiaridade assustadora. Um acorde dissonante ecoou pela casa, e eu o soltei como se queimasse. O som ficou preso nos meus ossos por horas, vibrando como um zumbido elétrico. Clara percebeu antes de mim. "Você parece diferente, Paul", disse uma noite, o livro esquecido no colo. A luz da lâmpada cavava sombras sob seus olhos. "Menos... você." Tentei responder, mas as palavras não saíram. Como explicar que os espelhos estavam mentindo?
Toda vez que me olhava, meu reflexo falhava por um instante. A imagem tremia, e então olhos negros, um sorriso que não era meu. Durava menos de um segundo, mas o suficiente para me fazer tocar o rosto, tentando confirmar que ainda era eu. Os sonhos pioraram. Memórias que não eram minhas invadiam as noites: eu, criança, brincando num quintal ensolarado com um cachorro que nunca existiu. Cheiro de grama, calor no braço. Então, um sussurro atrás da cerca: "Isso nunca aconteceu." Acordava encharcado, com gosto de metal na boca e a certeza de que algo estava me roubando.
Evitei espelhos, cobri os do banheiro, mas a coisa dentro de mim ficou ousada. Um dia, enquanto consertava uma tomada, minhas mãos começaram a desenhar símbolos na parede com carvão. Linhas que doíam nos olhos, formas que faziam o ar ficar estático. PARE! Gritei dentro da minha cabeça, e minhas mãos tremeram. O carvão caiu, mas os símbolos pulsaram, como se respirassem. Clara os viu. "Arte, Paul?" Seu sorriso era uma linha fina de medo.
A noite do espelho chegou. Uma força me arrastou até o corredor, onde o espelho embaçado me esperava. O coração batia nas costelas, a luz fraca distorcendo as sombras. Olhei. Primeiro, vi meu rosto, cabelo desgrenhado, olhos fundos, cicatriz na têmpora. Então, uma ondulação, como óleo na água. Minha pele no reflexo escorreu, derretendo em cera negra. Músculos expostos, olhos virando poços de petróleo. A boca se rasgou num sorriso de dentes irregulares. "Quase lá, Paul", disse a coisa com minha voz, mas arrastada, rouca. "Sua casa... é confortável." Tentei gritar—saiu um gemido. Tentei correr—minhas pernas não responderam. A mão no espelho rompeu a superfície, negra e deformada, pingando algo viscoso. O ar ficou gelado, cheirando a terra de cemitério e fiação queimada.
O grito de Clara veio do quarto. "PAUL?!" A mão monstruosa recuou. O reflexo voltou ao normal, eu, pálido, suando. Mas o cheiro permaneceu. E por um instante, senti um sorriso dançando nos meus lábios.
Agora, estou trancado no escritório. Cortinas cerradas, somente o tique-taque do relógio e a luz trêmula da vela. Escrevo estas palavras com uma caligrafia que não é minha, elegante, fluida, familiar. Clara bate na porta. "Paul? Abre, por favor." Sua voz está cheia de lágrimas. Quero abrir. Quero abraçá-la. Mas a voz fria sussurra nas minhas entranhas: "Ela não é sua. Aguarde." Olho para o espelho na escrivaninha. Na luz bruxuleante, não vejo meu rosto, apenas escuridão, dois pontos pálidos como estrelas mortas me encarando.
O caderno aberto revela páginas anteriores. Minha letra antiga, desesperada, rabiscada antes de ser apagada pela nova: "NÃO SUBSTITUI. REVELA. ELA SEMPRE ESTEVE AQUI. DENTRO. ESPERANDO. VOCÊ NÃO É PAUL. VOCÊ NUNCA FO..." O resto é um borrão de tinta.
Agora, a porta range sob um peso que não é o de Clara. Alguém ou algo está do outro lado. A vela tremula. A escuridão no espelho parece respirar. E uma calma gelada desce sobre mim, como um manto de aceitação.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, após sobreviver a um acidente, Paul começa a notar mudanças sutis mas inquietantes em seu comportamento e percepções. Memórias estranhas, gestos involuntários e reflexos que não o obedecem indicam que algo o habita por dentro. Isolado e confuso, ele tenta registrar sua realidade enquanto ela escapa por entre as mãos. À medida que o terror se aproxima, a verdade sobre sua identidade se desfaz no espelho. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
Ps:
A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEEART,
digitei "um
homem de meia-idade está sentado em um escritório escuro, iluminado
apenas por uma vela tremulante. Seu rosto está parcialmente em sombras,
com olhos arregalados e expressão de terror contido. Na frente dele, um
espelho antigo de moldura desgastada reflete não seu rosto, mas uma
figura distorcida: uma versão demoníaca de si mesmo, com pele derretendo
em veias negras, olhos vazios como poços de petróleo e um sorriso cheio
de dentes irregulares. Uma mão deformada (do reflexo) está saindo do
espelho, quase tocando o rosto do homem real. Criar imagem extremamente
realista" e obtive esse resultado.

Parabéns pelo texto, amor. Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirSensacional 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
ResponderExcluirUau, Gabriel … esse texto é simplesmente arrebatador. O que mais gosto nele é como ele constrói o terror psicológico de forma tão sutil e íntima — não é sobre monstros externos, mas sobre a perda do controle da própria identidade. abraço Silvanea
ResponderExcluirÓtimo texto 👏
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