Pular para o conteúdo principal

ÀS MARGENS

''Temos de nos tornar na mudança que queremos ver.'' Mahatma Gandhi


    Todo dia quinze eu volto lá. Sempre sozinha, sempre sem avisar ninguém. Não é ritual  pelo menos não daqueles que têm regra. É só um chamado mudo, como quando você escuta seu nome dentro da água, mesmo sem som. Desde aquela vez, meses atrás, quando entrei por acaso naquele portão gasto e achei o lugar. Ou talvez o lugar tenha me achado. Nem sei dizer.

    É um espaço pequeno, escondido entre duas construções, no fundo do campus antigo. Nem parece da universidade. Um tanque raso, um banco de pedra, árvores que largam sombra como quem cuida. Tem dias em que o sol nem chega ali direito. Só paira por cima, como um olho fechado. Eu sento, abro o livro que carrego  o mesmo desde o começo do semestre  e leio. Mesmo quando não entendo, eu leio. Algumas páginas são secas, duras. Outras, quase úmidas de tanto que mexem dentro. Tem uma marcação na borda de uma delas: “nem toda água limpa, mas alguma ensina a nadar.” Alguém escreveu isso antes de mim. Eu carrego como se fosse meu.

    No começo do ano, eu tava por um fio. Literalmente. Notas baixas, faltas acumuladas, a mente toda desorganizada como uma mala aberta depois da chuva. Eu andava sem foco, como se os olhos estivessem abertos mas sem direção. E a voz dentro de mim repetia sempre: você não vai conseguir.

    Foi naquela fase que encontrei o tanque. Fiquei ali por horas, sem fazer nada. Um silêncio que doía, mas que não me expulsava. Voltei no dia quinze do mês seguinte. Não sei de onde tirei a ideia de voltar todo dia quinze. Talvez porque quinze é metade. Meia mudança. Meia desistência.

    Com o tempo, a leitura deixou de ser obrigação. Passou a ser companhia. Comecei a entender o que antes parecia estranho. Certa vez, li um trecho sobre travessias — que alguns caminhos parecem desertos, mas são rios escondidos. Aquilo ficou. Me levantava cedo pra estudar. Fazia fichamentos, organizava os cadernos, refazia provas antigas. Algo em mim estava virando chão firme.

    Em abril, recebi meu primeiro dez. Não acreditei. Nem os professores acreditaram. “Isabelly? Você tem certeza que é sua?” E eu só sorria. Como quem encontra um mapa escondido no próprio bolso. Em maio, fui indicada como representante da turma. Em junho, fui convidada a apresentar um seminário sobre ética acadêmica. Eu? Que mal sabia onde tava meu crachá no início do semestre.

    Mas continuo voltando. Todo dia quinze. Mesmo quando chove. Principalmente quando chove. A água ali me dá sentido. Não porque seja mágica — ela não é. Não muda o mundo, não cura doença. Mas me mostra espelho. E às vezes, é só disso que a gente precisa: ver-se refletida inteira, mesmo que em partes.

    Hoje é dia quinze de julho. Trago na mochila a mesma garrafa d’água, o mesmo livro, e uma carta. Vou deixá-la dentro do tanque, dobrada. Não é pra ninguém. É só um registro do que fui. Um lembrete pra mim mesma: caminhar não é sobre pressa. É sobre não parar.

    


INSPIRAÇÃO


 
      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. Isabelly, uma jovem estudante à beira do fracasso acadêmico e emocional, encontra um antigo tanque de água escondido no campus da universidade. Ali, em visitas mensais silenciosas, ela inicia uma jornada interior marcada por leitura, introspecção e pequenas escolhas diárias que a transformam. Inspirada por palavras esquecidas num livro e pela quietude do lugar, Isabelly passa de uma aluna desmotivada à representante da turma, redescobrindo seu valor e sua força. Uma narrativa sensível sobre renascimento, silêncio e o poder das pequenas águas que, pouco a pouco, lavam até as pedras mais secas. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
 
Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT digitei "In this tranquil courtyard, a young woman sits on a weathered stone bench beside a calm, timeworn baptismal pool, engrossed in her book, her expression pensive and serene. Sunlight spills through the dense greenery above, casting a warm glow on her as her surroundings—moss-covered walls, a distant wrought iron gate, and the subtle ripples on the water—blend harmoniously with the peaceful atmosphere of the scene."  e obtive esse resultado.



 


 

 


Comentários

Postar um comentário

TEXTOS MAIS LIDOS

CARTA DE AMOR

"Apai xonar-se por você é como pisar em uma mina terrestre. " - King Theta    Pensei ter chegado atrasado naquela palestra na faculdade, para a minha sorte ainda não tinha começado. Antes de sentar reparei em uma bela mulher, jovial, mas não foi a parte física que me atraiu nela, mas no que diz relação a sua beleza interna (intelectual), pois notei, enquanto ela esperava iniciar o evento, lia uma obra, que examinando melhor a capa após ela fechar para checar o seu celular, notei que era o grande clássico nacional, Dom Casmurro, nesse instante verifiquei que tinha que falar com ela.  Após cerca de duas horas, terminou, fui logo ao seu encontro, me apresentei de forma rápida, debatemos de forma breve sobre literatura, mas era difícil me concentrar nas suas palavras, enquanto de forma indireta contemplava ela. Morena; cabelo cacheado; olhos castanhos; pelo jeito que utilizava diferentes termos na conversa, observei que apresenta um vocabulário bastante rico; pelo seu colar, ...

Texto especial - CURIOSIDADE DOS GRANDES ESCRITORES

"Nenhum escritor é bom a não ser que tenha sofrido.'' - Henry Miller   Acredito que todos quando lemos uma obra nos questionamos o que inspirou determinado escritor ou escritora para elaborar determinada obra, isso é bastante normal, no texto de hoje essa é minha meta, apresentar alguns autores famosos e demonstrar por qual razão escreveu certa obra, ou focando em determinada característica literária dele.   Quem escreve utiliza um grande ramo de inspirações para criar uma obra, podendo ser eventos positivos ou negativos que dão conteúdo e forma para um simples texto, que ao passar de dias, semanas, meses e por fim ano, irá ganhar formas de uma livro. Há autores que se inspiram em outras obras famosas de um tema similar do que deseja abordar, como é o caso das distopias, cada uma trata sobre uma trama quase "idêntica'', mas o que a torna essa nessa categoria é a cereja do bolo.    Edgar Allan Poe escritor do século XIX, quem lê seus contos atualme...

Pandemia - Dificuldades na Quarentena

 "A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido." - H.P. Lovecraft     Quem esperava que o ano de 2020 iria "presentear a humanidade'' com esse vírus? Que teve início na China, em poucos meses por meio da Globalização levou as maiores cidades do mundo a entrar em estado de alerta, obrigando cada um deles para evitar a alta contaminação e por conta disso decretar o fechamento de instituições comerciais, educação em todos os níveis, entretenimento e outras diversas ramificações possíveis no que dita meio de obtenção de capital financeiro, ou seja, estamos vivendo um fato que irá mudar a forma como vivíamos antes do vírus. Acredito que o principal sentimento de todos é ansiedade, querendo ou não ela aumentou nesse período, casos de violência contra a mulher, e como vemos em muitos sites de notícia, a redução da economia ao nível mundial, e outras questões subjetivas, mas muito imp...