''Temos de nos tornar na mudança que queremos ver.''
Todo dia quinze eu volto lá. Sempre sozinha, sempre sem avisar ninguém. Não é ritual pelo menos não daqueles que têm regra. É só um chamado mudo, como quando você escuta seu nome dentro da água, mesmo sem som. Desde aquela vez, meses atrás, quando entrei por acaso naquele portão gasto e achei o lugar. Ou talvez o lugar tenha me achado. Nem sei dizer.
É um espaço pequeno, escondido entre duas construções, no fundo do campus antigo. Nem parece da universidade. Um tanque raso, um banco de pedra, árvores que largam sombra como quem cuida. Tem dias em que o sol nem chega ali direito. Só paira por cima, como um olho fechado. Eu sento, abro o livro que carrego o mesmo desde o começo do semestre e leio. Mesmo quando não entendo, eu leio. Algumas páginas são secas, duras. Outras, quase úmidas de tanto que mexem dentro. Tem uma marcação na borda de uma delas: “nem toda água limpa, mas alguma ensina a nadar.” Alguém escreveu isso antes de mim. Eu carrego como se fosse meu.
No começo do ano, eu tava por um fio. Literalmente. Notas baixas, faltas acumuladas, a mente toda desorganizada como uma mala aberta depois da chuva. Eu andava sem foco, como se os olhos estivessem abertos mas sem direção. E a voz dentro de mim repetia sempre: você não vai conseguir.
Foi naquela fase que encontrei o tanque. Fiquei ali por horas, sem fazer nada. Um silêncio que doía, mas que não me expulsava. Voltei no dia quinze do mês seguinte. Não sei de onde tirei a ideia de voltar todo dia quinze. Talvez porque quinze é metade. Meia mudança. Meia desistência.
Com o tempo, a leitura deixou de ser obrigação. Passou a ser companhia. Comecei a entender o que antes parecia estranho. Certa vez, li um trecho sobre travessias — que alguns caminhos parecem desertos, mas são rios escondidos. Aquilo ficou. Me levantava cedo pra estudar. Fazia fichamentos, organizava os cadernos, refazia provas antigas. Algo em mim estava virando chão firme.
Em abril, recebi meu primeiro dez. Não acreditei. Nem os professores acreditaram. “Isabelly? Você tem certeza que é sua?” E eu só sorria. Como quem encontra um mapa escondido no próprio bolso. Em maio, fui indicada como representante da turma. Em junho, fui convidada a apresentar um seminário sobre ética acadêmica. Eu? Que mal sabia onde tava meu crachá no início do semestre.
Mas continuo voltando. Todo dia quinze. Mesmo quando chove. Principalmente quando chove. A água ali me dá sentido. Não porque seja mágica — ela não é. Não muda o mundo, não cura doença. Mas me mostra espelho. E às vezes, é só disso que a gente precisa: ver-se refletida inteira, mesmo que em partes.
Hoje é dia quinze de julho. Trago na mochila a mesma garrafa d’água, o mesmo livro, e uma carta. Vou deixá-la dentro do tanque, dobrada. Não é pra ninguém. É só um registro do que fui. Um lembrete pra mim mesma: caminhar não é sobre pressa. É sobre não parar.
INSPIRAÇÃO

Ótimo texto,amor.
ResponderExcluirAnsiosa pelos próximos.
Excelente!
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