''Todas as grandes mudanças são como a morte.''
Meu nome é Kael Verno, e se você está ouvindo isso, ou lendo, ou sonhando comigo, é porque meu coração ainda insiste em bater. Não sei por quanto tempo mais. Ele é teimoso, feito eu. Ele pulsa com um propósito estranho, doente, como se estivesse preso a uma máquina invisível que só funciona sob ameaça. Vivo porque preciso. Porque o sangue só corre quando há medo. Na República de Hysia, viver virou um jogo, um ritual de dor, e toda vez que fecho os olhos sou arrastado de novo para dentro dele. Porque a memória, ao contrário da morte, não cessa nunca. Não há como escapar do que nos moldou. E eu fui moldado sob aço, suor e correria. Fui moldado sob o olhar atento de um chip que não me pertence, inserido no fundo do meu crânio antes mesmo que eu soubesse meu nome completo.
Era assim com todos nós. Aos três anos, uma seringa comprida demais para parecer segura atravessa a base da nuca e entrega o que chamam de Aurora, uma semente eletrônica no cérebro. Uma promessa tecnológica de equilíbrio emocional, dizem. Mas ninguém nos contava que esse equilíbrio dependia da instabilidade total do corpo. O chip não era um calmante, era uma corda no pescoço. Ele mede nosso fluxo cardíaco, avalia nossa produção hormonal, calcula, dia após dia, se estamos vivos o suficiente para merecer continuar vivos. Quando a infância termina, o sistema convoca. A maioridade não é celebrada com festa, mas com uma chamada oficial, seca e fria, para o que chamam de Viva Lumen. Uma cerimônia de passagem que consiste em sobreviver a quatro provações extremas. Para o mundo, é uma espécie de reality show espiritual. Para nós, é o momento em que aprendemos que a morte não é o fim, mas o critério.
A primeira provação foi na Trilha Vermelha, um campo de sal e poeira escarlate onde o asfalto nunca existiu e as torres automáticas não perdoavam hesitação. Quinhentos entraram com seus carros nervosos, motores engasgando adrenalina, olhos fixos na linha de largada como se o fim estivesse logo ali. E estava. Quando o sinal soou, o deserto explodiu em fumaça, estilhaços e corpos em combustão. Cada segundo era uma roleta russa sobre rodas. Não havia percurso definido, só caos. Pontes ruíam sob excesso de peso, minas estavam enterradas entre as dunas e drones disparavam projéteis como abutres teleguiados. Os que caíam viravam obstáculos. Um garoto à minha esquerda tentou forçar uma ultrapassagem e foi reduzido a sucata antes de completar a curva. Não gritei. Apenas pisei mais fundo. O carro berrava como um animal ferido, e eu berrava junto, preso dentro da minha própria mente.
A cada metro, a linha entre pilotar e sobreviver se tornava mais tênue. Vi gente colidir de propósito, empurrar oponente contra as torres, disparar lanças de fogo acopladas no capô. A corrida era selvagem, doente, e todos sabíamos disso. No final, a chegada não foi uma vitória, foi um suspiro de quem ainda tinha um coração funcionando. Cruzei em décimo oitavo, com os pneus derretidos, a respiração falha e o gosto de metal na boca. Os vinte que restaram saíram de seus veículos como fantasmas, cambaleando em silêncio diante do portão negro que se fechava atrás de nós. O resto ficou no deserto, esmagado, queimado, ou simplesmente esquecido na poeira quente que tudo engolia sem distinção.
Dois dias depois, fomos lançados à segunda prova, sem tempo para nos recuperarmos. Nos colocaram em uma aeronave antiga, sem janelas, e nos instruíram a nos manter calados. Um ruído grave nos acompanhou por quase três horas. Quando as portas se abriram, saltamos em meio à neblina quente de Nevena, uma floresta pré-histórica escondida numa cratera. Ali, o mundo era outro. O ar era espesso, úmido, repleto de cheiros que pareciam vivos, viscosos. O chão estalava sob nossos pés, e cada planta se movia sutilmente ao toque do vento. Mas era um engano. Elas se moviam por si. Eram carnívoras, respiravam pelo tronco, observavam. Algumas tinham espinhos que se mexiam com fome. Outras simplesmente engoliam pássaros inteiros com lentidão quase sensual. Recebemos apenas lanças de fibra e um mapa inconsistente, desenhado à mão. Um velho soldado nos desejou boa sorte com um sorriso podre. Foi a última vez que ouvi um “boa sorte” sincero.
A criatura nos caçou desde a primeira hora. Não sabíamos seu nome, nem sua origem, mas ela deixava rastros, sulcos profundos no solo, árvores partidas ao meio e um silêncio que fazia o estômago gelar. O primeiro ataque veio pela lateral. Um rugido cortou a névoa como uma navalha, e alguém foi puxado para dentro da escuridão sem nem ter tempo de soltar um gemido. Corremos em círculos, confusos, tentando compreender se havia lógica na floresta. Mas não havia. O mapa era inútil, uma piada cruel. Fiquei preso por três horas entre raízes e pedras, sem ver um único aliado. Só ouvi seus gritos de longe, abafados por sons molhados de carne sendo mastigada. Quando finalmente alcancei uma clareira, já havia escurecido. Dezoito corpos estavam empilhados num canto, como lixo. A criatura observava de longe, os olhos refletindo a luz da lua artificial. Esperei. Prendi a respiração até meu próprio chip disparar o alarme interno. Não podia parar. Precisava de adrenalina. Lancei uma pedra. A criatura veio. Corri.
Na terceira fase, o mundo mudou outra vez. Fomos jogados numa simulação chamada Frente de Aço. Recebemos uniformes da Segunda Guerra Mundial, fuzis antigos e um cheiro de medo que parecia ancestral. Era a praia de Omaha, 6 de junho de 1944. Mas algo ali ia além da realidade. As balas queimavam, os sons cortavam, o chão explodia. Cada passo parecia final. Soldados inimigos surgiam de bunkers, metralhadoras trituravam membros, minas enterradas rasgavam o que tocavam. Não sabíamos quem era real e quem era projeção. Sangue escorria, e não era encenação. Arrastei-me pela areia fria, respingado de pedaços de gente, surdo devido a um tiro que explodiu a centímetros do meu ouvido. Um homem ao meu lado tinha os olhos arregalados, tentando empurrar suas tripas de volta para o interior do corpo. Ele ainda sussurrava “mãe”, mesmo sem mandíbula. Foram sete horas de combate. Sobrevivi com dois dedos a menos e um zumbido eterno no ouvido esquerdo.
Por fim, nos conduziram à última etapa. Um avião. Assentos de couro gasto, cheiro de vômito e querosene, luzes fracas. Éramos somente seis. Ninguém falava. O céu estava limpo demais, azul em excesso. Silêncio. Por dentro, o estômago já sabia. Uma voz metálica anunciou uma falha no sistema. A queda começou. Não houve pânico. Já não havia energia para isso. Agarramos o que pudemos. Gritei por reflexo, mas nem eu acreditava no som. Enquanto o mundo girava ao contrário, lembrei de um poema que minha mãe me lia, algo sobre navios que cruzam o mar sem medo. Tentei me apegar à lembrança. Depois veio a escuridão.
Quando despertei, estava no chão. Mas não no que eu esperava. Sob meus pés, havia madeira. Paredes falsas. Holofotes. Homens com pranchetas e fones de ouvido. Um diretor me observava como se fosse um técnico de futebol após o jogo. Disse que eu havia sido incrível. Não consegui responder. As palavras estavam presas. Olhei ao redor. As criaturas, os soldados, as câmeras. Tudo. Parte de algo maior. Algo encenado. Mas e os outros? E os mortos?
O diretor de cinema somente sorriu, apagando o cigarro com a sola do sapato. Disse, com ironia, que era como afirmava Stalin: "A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística." E que, em países esquecidos pelo mundo, tudo é permitido. Basta pagar. Olhou nos meus olhos como quem oferece uma nova chance. Eu não respondi. Só senti meu coração batendo. Ainda ali. Vivo. E era isso que importava.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, em um regime onde viver exige mais do que simplesmente existir, jovens são forçados a participar de um ritual mortal que testa seus limites físicos, mentais e emocionais. Um desses jovens, Kael, é lançado em uma sequência brutal de provações onde a única constante é o medo e a única lei é manter o coração batendo. Entre paisagens hostis, criaturas colossais e realidades distorcidas, ele precisa enfrentar não apenas as ameaças externas, mas também as verdades escondidas sob a superfície do que chamam de “vida”. Além disso, nos filmes assistidos recentemente. Uma jornada visceral onde o instinto, a dor e a memória se tornam armas. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
REFERÊNCIAS
Cinco anos após os eventos de Jurassic World: Domínio, o planeta tornou-se inóspito para os dinossauros, que agora vivem em regiões tropicais isoladas. Uma equipe liderada por uma agente secreta, um paleontólogo e um líder de expedição parte em uma missão perigosa para coletar DNA das três maiores criaturas pré-históricas da terra, mar e ar. O objetivo é desenvolver um medicamento revolucionário, mas a jornada os leva a uma ilha repleta de dinossauros mutantes e perigos esquecidos
🏎️ F1 – O Filme (2025) Direção: Joseph Kosinski
Um ex-piloto de Fórmula 1, Sonny Hayes , retorna às pistas para orientar um jovem talento em uma equipe fictícia chamada ApexGP. Gravado durante corridas reais, o filme mistura drama esportivo e bastidores intensos do automobilismo, com foco em superação, estratégia e legado.
📚 Battle Royale – Koushun Takami (1999)
Publicado originalmente em 1999, o romance japonês de Koushun Takami apresenta uma distopia brutal onde uma turma de estudantes é forçada a lutar até a morte em uma ilha isolada, como parte de um programa governamental. A obra aborda temas como autoritarismo, violência, sobrevivência, manipulação midiática e a perda da inocência. Polêmico e impactante, o livro se tornou um best-seller, influenciou diversas obras posteriores no gênero distópico e criador do conceito ''battle royale''.
Battle Royale Official Trailer

Ótimo texto. Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirParabéns pelo texto! Como sempre, trabalhando com maestria! Grande abraço!
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