Caí aqui não por escolha, mas por falha mecânica. Minha nave, um modelo de infiltração orbital sombra, perdeu a propulsão sobre um amontoado de concreto e vaidade chamado Campinas. Um pouso de emergência num estacionamento de mercado ecológico me garantiu o anonimato. Ninguém estranhou. Afinal, os humanos agora aceitam qualquer coisa que pareça “conceitual”. Adotei forma humana, uma figura baixote, cinzenta, olhos protuberantes, com a boca eternamente moldada numa linha fina de sarcasmo silencioso. Tinha algo de familiar com aquele antigo simulador intergaláctico de conquistas planetárias que joguei por tédio durante minha formação militar¹. Se encaixava perfeitamente aqui.
A primeira impressão foi desconcertante: pelas ruas, carrinhos de bebê deslizavam em calçadas esburacadas. Mas não havia bebês. Somente cães. Pequenos, mimados, cobertos por roupas de grife e com acessórios que, em meu mundo, seriam usados para capturar formas de vida perigosas. Uma mulher com um spitz alemão se abaixou, recolheu o cocô de seu animal com um saquinho biodegradável, e jogou fora num coletor seletivo. Horas depois, testemunhei um adolescente urinar no muro de uma escola, ninguém disse nada. Aparentemente, neste país, cães têm mais dignidade que humanos. Mais direitos também.
Usei minha capacidade de leitura mental para procurar auxílio técnico. Entrei na mente de um homem com barba tratada com óleo de jojoba, enquanto ele digitava em um notebook com adesivos ativistas. Ele pensava em monetizar a própria opinião sobre o veganismo performático. Troquei de alvo. Uma mulher empurrando um carrinho com um bulldog francês ouvia um podcast sobre a “desconstrução do café com leite”. Desisti. Não havia ali qualquer massa cinzenta compatível com meu protocolo de comunicação. Os cérebros estavam sobrecarregados por autoestima inflada, insegurança mascarada por sarcasmo e um tipo de vaidade existencial que beirava o misticismo. Descobri, por fim, que minha nave fora inutilizada por um mísero cocô de pomba, ácido estomacal terrestre, corrosivo o bastante para arruinar meu painel de comando. Fui derrotado pela aerofauna local. Inédito em toda a galáxia.
Busquei refúgio numa padaria, agora o último bastião da convivência social depois do infame Decreto 2035, que proibiu bares e similares, argumentando fomentarem comportamentos considerados “desagradáveis, ruidosos e masculinos demais”. Ali, ao lado de pães integrais com fermentação natural e bolos com farinha ancestral, servia-se uma bebida chamada cerveja artesanal que, apesar do nome, lembrava água fermentada com pedaços de ego de hipster dissolvido. O homem ao meu lado sorvia seu copo de IPA enquanto falava alto sobre “consciência ecológica e moda circular”. Paguei quarenta e nove reais por algo que parecia ter sido fermentado em um moletom suado.
Observei a juventude. Frágil. Alérgica a esforço. Incapaz de enfrentar um olhar direto sem consultar um aplicativo de ansiedade. Um adolescente ao meu lado reclamava do calor. Estávamos a 23 graus. A colega dele sugeria que “talvez a guerra fosse uma construção cultural opressora” e que “o medo do nazismo fosse alimentado pela indústria do entretenimento.” Tive um espasmo nervoso no cérebro secundário. Se essa geração tivesse enfrentado os nazistas, hoje todos estariam usando suásticas bordadas e saudando com emojis.
Tentei voltar à nave. Inútil. Usei meu raio de controle mental num operário, ele largou a pá e começou a dançar uma coreografia de TikTok. O efeito colateral mais comum nas mentes terráqueas. Fiquei ali parado, observando a decadência com a serenidade de quem contempla um incêndio em câmera lenta. Meus poderes de levitação, controle neural e camuflagem foram inúteis diante do caos sorridente que aqui chamam de sociedade. O planeta não precisa de invasão para ser destruído. Está sendo corroído por dentro, por suas próprias mãos, ou melhor, por seus próprios polegares conectados a telas brilhantes.
Crianças que desafiam professores são premiadas com psicólogos. Criminosos, quando flagrados, são tratados como vítimas do sistema. Professores solicitam permissão para corrigir provas. As ruas estão repletas de slogans sobre empatia, mas o número de linchamentos virtuais cresce diariamente. Justiça virou espetáculo. Castigo virou trauma. Educação virou performance. Não há mais causa, apenas estética da causa.
Na noite anterior à minha desistência, um cão latiu para mim. Eu retribuí mentalmente. “Entendo você”, eu disse. Ele respondeu: “Não somos tão diferentes.” Nunca mais saberei se foi real ou efeito colateral da IPA. Desintegrei-me no amanhecer, no meio da praça, diante de um monumento modernista que homenageava a luta de influenciadores digitais contra a opressão estética. Em meu diário, antes de puxar o gatilho do desintegrador, escrevi:
"Se a geração de hoje tivesse enfrentado os nazistas, hoje todos estaríamos falando alemão."
Na manhã seguinte, estampado nos jornais de todo o país:
ALERTA MÁXIMO EM CAMPINAS: CÉLULA NAZISTA USAVA ALIEN PARA PROMOVER EXTREMISMO!
Especialistas dizem: “Contato extraterrestre pode ter sido explorado pela extrema direita para desestabilizar valores democráticos!”
Ministra diz: “O problema não está na juventude, mas nos discursos de ódio infiltrados nos memes.”
Edição especial: A culpa é sempre do outro!
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia antiga, um ser de outro planeta cai acidentalmente em uma cidade brasileira e tenta compreender os hábitos da espécie dominante. O que era para ser uma missão científica se transforma numa jornada de choque, ironia e descrença diante dos pequenos absurdos cotidianos de uma sociedade em colapso polido. O relato ácido e provocador coloca o leitor cara a cara com um mundo tão confortável na sua decadência que nem precisa de inimigos externos para se autodestruir. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Ótimo texto,amor.
ResponderExcluirEstou ansiosa pelos próximos.
Excelente!
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