''A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar.''
A sala do fórum parecia suspensa fora do tempo, um lugar onde a poeira se misturava à autoridade e os sussurros tinham o peso de sentenças. Antes da defensora pública chegar, fui abordada por um jovem com pastas amassadas e uma coragem vacilante nos olhos. Um estagiário. Ofereceu ajuda, disse que, se fosse preciso, entraria comigo na audiência. Seu gesto foi gentil, ainda que sua presença não conseguisse dissolver o frio que se instalava dentro de mim.
Tenho trinta e cinco anos. Sou mulher. Negra. Trabalho como diarista, mas carrego no peito o diploma de Direito. Ainda sem a carteira da OAB, que pretendo conquistar no próximo semestre, continuo lutando entre os mundos que me separam do que é oficialmente chamado de “dignidade jurídica”. Agora, luto por algo ainda mais vital: o direito de levar minha filha comigo para o Nordeste, onde uma nova vida nos espera. Lá, já tenho trabalho, lar, apoio e até uma vaga garantida para ela numa creche. Só preciso que me deixem partir com o que é meu por amor e por sangue.
Foi então que ela chegou loira, de andar firme e expressão que parecia carregar o cansaço de muitas batalhas travadas em silêncio. Caroline Rodrigues. O nome soou como um respiro. Em seu braço, o rosto de um leão tatuado. No olhar, uma promessa muda de resistência. Falou baixo, mas com firmeza: faria a melhor defesa possível. E naquele instante, mesmo sem abraços ou garantias, me senti amparada.
A audiência foi rápida, mas cortante como lâmina. Do outro lado da mesa, sentado sobre décadas de poder, um homem de mais de setenta anos observava o processo com olhos que pareciam ainda presos ao século anterior. O magistrado despejava suas falas com naturalidade cruel, como quem recita provérbios envelhecidos demais para ainda se sustentarem. Quando ouviu meu desejo de retornar à minha terra natal, franziu a testa como se fosse ofensa pessoal.
Ordenou ao escrivão que anotasse bem o meu nome. E então, com voz seca e tonitruante, disse que mulheres como eu sempre volto. Que fazem filhos aqui e depois fogem para suas origens quando a vida aperta. Que depois, batem de novo às portas deste Estado ou de São Paulo querendo o que deixaram para trás.
As palavras desceram como ferrugem. Ardiam. Doíam mais por não serem novidade. Não houve espaço para respostas. A mulher ao meu lado, com o leão na pele e um mundo nos olhos, permaneceu em silêncio. Não por medo, mas por cálculo. Naquele campo de batalha disfarçado de tribunal, rebater era arriscar tudo. Kafka¹ cochichou por entre os estalos do teclado: “Aqui, até o silêncio é sentença.” E o espírito de Victor Hugo² me invadiu com suas dores sagradas: “Quando a injustiça se ergue como lei, resistir é um dever que exige silêncio, mas nunca submissão.”
Quis gritar. Quis explicar que não fujo, que parto para construir, não para abandonar. Que desejo somente criar minha filha com dignidade, entre familiares e raízes. Mas ali, minha voz era menos do que nada. Era uma presença suportada, não escutada.
No entanto, apesar da violência simbólica, a decisão foi minha. A guarda me foi concedida. Poderemos ir. Não houve celebração, somente um aceno sutil da loira de olhar firme. Saímos daquele prédio como quem escapa de um naufrágio molhadas por dentro, mas com os pés firmes na terra. Naquela tarde morna, uma mãe deixou o fórum sem lágrimas, com a filha no pensamento e o futuro no colo. Não venceu o mundo. Mas venceu um mundo.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia antiga, em um tribunal onde palavras pesam como sentenças, uma mulher enfrenta desafios que ultrapassam a burocracia jurídica. Entre olhares que julgam e silêncios que gritam, ela luta por um direito fundamental: recomeçar. Ao seu lado, uma defensora determinada se torna mais do que uma representante legal—torna-se um símbolo de resistência. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
REFERÊNCIAS
1. Franz Kafka: Mestre da angústia burocrática, Kafka retratou sistemas impessoais que esmagam o indivíduo, como em O Processo. Sua visão da justiça como um labirinto sem saída se manifesta no silêncio opressor do julgamento narrado.
2. Victor Hugo: O renomado autor francês abordou com profundidade a injustiça social em obras como Os Miseráveis, onde a lei oprime frequentemente os mais vulneráveis. Seu olhar sobre o dever de resistir diante da opressão ecoa na luta por dignidade.

Ótimo texto, amor. Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirExcelente 👏
ResponderExcluir