''O passado é um prólogo.''
A intimação chegou dobrada em três, como uma carta antiga. Foi entregue por um oficial de justiça às cinco da tarde, quando o sol já batia enviesado pela janela do apartamento. Não estava em meu nome, mas no da minha filha. "Intimada", como se tivesse cometido um crime. Li as letras duras, técnicas, e só uma palavra me saltou como um soco no estômago: herdeira. Era isso. Eu não estava sendo acionada por algo que fiz — mas por quem fui. Filha da devedora. Responsável, segundo o Código Civil, pelas dívidas da minha mãe. A mãe que não via há quarenta anos.
A mulher que saiu de casa para comprar vinagre e nunca mais voltou. A mulher que, quando voltou, não sabia mais meu nome. Hoje me chama de "menina", "moço", às vezes de "irmã". Esqueceu que teve uma filha, mas lembrava que nunca devia nada a ninguém. Lembrava com precisão obsessiva. O Alzheimer agarra as lembranças pelo avesso. Os nomes evaporam, mas as mágoas resistem.
Quarenta anos. Esse era o tempo exato da última vez em que estivemos frente a frente. Foi no portão de casa. Ela me entregou uma sacola com algumas roupas e disse que “talvez fosse melhor assim”. Eu era jovem demais pra entender que aquilo era abandono. Depois vieram as cartas não respondidas, os aniversários ignorados, os silêncios cultivados como uma horta seca. Eu a procurei algumas vezes. Só encontrei portas fechadas. A ausência virou costume. A dor, parte da mobília.
E agora, mesmo separadas por décadas e silêncio, ela me arrastava de volta — não por amor, mas por uma dívida. Uma dívida trabalhista com a ex-empregada. Marta. A ação veio dela. Marta, quem cuidou de minha mãe nos últimos anos, processou o espólio. Esperou o dinheiro acabar. Quando não havia mais o que sacar, o que penhorar, o que vender — entrou. Como manda o código: responsabiliza-se o herdeiro.
Recibos guardados com zelo, como provas de um crime sem sangue. Compras na papelaria se tornaram horas extras. Faxinas eventuais se tornaram plantões semanais. Ela sabia. Sempre soube. Marta dobrava os papéis como quem prepara armadilhas. Unhas curtas, olhos fundos, passos de rato. A senhora confiava. Assinava tudo. No início, lia. Depois, só perguntava: “é isso mesmo, Marta?” E Marta sorria, contida, quase religiosa. Dizia que sim, que era só para formalizar. Mas nada ali era formal. Tudo era premeditado.
As assinaturas diziam mais que os exames. As primeiras, firmes, caligráficas, desenhadas com a segurança de quem ainda se lembra quem é. As últimas eram tremores. Pontos, riscos, um traço que escorregava como alguém cansado descendo uma ladeira. Nenhum perito precisaria mais que uma lupa e três segundos para ver o abismo entre elas. Marta sabia que o papel tem mais força que o afeto. Sabia que tribunal não julga intenção, julga carimbo. E carimbo não treme.
A primeira audiência foi adiada. A segunda também. Na terceira, o juiz mal olhou para mim. Estava exausto, rodeado de processos que não paravam de nascer. Na sala ao lado, três estagiários tentavam separar os casos por ordem de urgência, mas tudo era urgente. A fila para entrar no elevador levava 25 minutos nos dias bons. O café da lanchonete vinha morno, ralo, e custava R$ 8.
Minha mãe piorava. Começou a gritar à noite. Acordava assustada, chamando por nomes que só ela conhecia. Começou a escrever bilhetes para si mesma e esconder debaixo do travesseiro. "Não confiar em ninguém", escreveu uma vez. Chorei no banheiro.
Enquanto isso, o processo seguia. Ou fingia seguir. Pilhas de papel, laudos, ofícios. A previdência exigia vínculos que nunca existiram. A lógica dos autos ignorava o delírio das pessoas. Eu lia palavras como "responsabilidade civil", "solidariedade passiva", "herança líquida", como quem lê uma sentença antes do crime. O advogado dizia que o caso era difícil. Eu achava que ele estava sendo gentil.
A autora Marta apareceu no tribunal como se fosse a viúva de um compromisso nunca formalizado. Maquiagem leve, cabelo tingido recentemente, preenchimento nas bochechas. Um rosto novo para contar uma história velha. Estava sentada em um dos bancos duros de madeira, mexendo no celular. Ao seu lado, o advogado Flávio. Negro, alto, carioca raiz, porte de atleta. Usava um blazer claro, contrastando com os corredores sombrios do fórum.
Ela falava ao telefone, cobrindo parte da boca com a mão: — Se atrasa não, tá? Aqui demora uns 20, 30 minutos só para entrar no elevador… já tô com o Flávio. Disse o nome dele como quem invoca um orixá. Lia os autos como se estivesse prestes a defender um inocente em um tribunal militar. Disse que esse era um dos processos mais árduos de sua carreira. Afirmou isso enquanto esticava os ombros, olhos em movimento, e a caneta tremendo na mão.
Do outro lado da pilastra, Denise esperava. Muda. O celular em mãos, o coração na garganta. Observava. Contava os segundos como quem conta-gotas de soro. Denise liga para avisar que já está na sessão para audiência, atrás da pilastra por conta da pessoa que ajuizou a ação se encontra ao lado do advogado trabalhista.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, intimada judicialmente por uma dívida trabalhista deixada pela mãe que a abandonou há 40 anos, Denise se vê arrastada para um processo emocionalmente devastador. Enquanto a saúde mental da mãe se deteriora, revelações sobre manipulação de documentos e silêncios antigos emergem. Inspirado em um relato real de um professor universitário do curso de Direito (Flávio Silveira Freitas) na disciplina Direito Previdenciário, o conto expõe o conflito entre laços de sangue, responsabilidade civil e a corrosão da memória. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Adorei o texto,amor. Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirÓtimo texto, mostra a realidade que muitas pessoas passam nessa vida .
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