''Curiosidade: instinto que leva alguns a olhar pelo buraco da fechadura, e outros a descobrir a América.'' -
Não me lembro da primeira vez que senti o impulso. Talvez tenha sido quando vi aquele pássaro quebrar a formação e voar sozinho, cortando o céu como se o mundo fosse feito para ser descoberto. Eu tinha sete anos. Desde então, a vontade ficou em mim como uma febre silenciosa.
Na Cúpula de Auris, tudo é previsível. As direções são fixas, os caminhos definidos, e a curiosidade, a palavra mais perigosa do léxico, é tratada como uma doença. Meus pais apagaram livros antigos da minha interface neural e limitaram meu acesso ao Hub. Me diziam ser para meu bem. Que fora da cúpula há somente silêncio, radiação e coisas que enlouquecem.
Mesmo assim, eu observava. A estrutura curva do céu artificial refletia os ciclos em padrão simulado, mas em certos momentos nos segundos exatos entre a troca de iluminação percebia fissuras. Frestas no sistema. Como se algo lá fora ainda existisse. Algo real. Aos vinte e três, descobri o acesso.
Era um detalhe minúsculo nas rotinas do sistema de manutenção, uma sequência de códigos esquecidos num arquivo suprimido, escondido como poeira no canto de um universo limpo demais. Levei meses para recriar a permissão. Quando o selo magnético deslizou com um clique abafado e a parede sul abriu, vi o escuro pela primeira vez.
Não havia luz. Só o som do meu coração e a brisa estranha de um vento que não deveria existir. Saí.Os primeiros passos foram lentos. O chão lá fora não era polido como na cúpula. Era irregular, áspero, feito de matéria viva e morta. Meus pés afundavam na terra como se ela quisesse me engolir. Olhei para trás — a cúpula brilhava como um olho translúcido, indiferente.
Continuei. Vi coisas que não sabia nomear. Árvores deformadas, crescendo em ângulos impossíveis. Insetos que vibravam em frequências que meu corpo sentia, mas não ouvia. E uma torre antiga, coberta de símbolos corroídos — que apontava para o céu como se ainda esperasse uma resposta de algo que se foi.
Subi no terminal coberto de musgo, piscava intermitente. Ainda vivo. Ativei. A interface se acendeu num vermelho profundo. E uma mensagem surgiu, não na tela, mas direto na minha mente:
“VOCÊ ULTRAPASSOU O LIMITE.”
Tentei recuar. Tarde demais. Meu corpo travou. Primeiro os dedos, depois as pernas. Uma dor surda, interna, se espalhou como se minhas células estivessem sendo desfeitas uma a uma. Eu gritei. Não com a boca o sistema neural não deixava mais. Gritei dentro de mim. Uma implosão. Na tela, surgiram palavras novas:
“CONTAMINAÇÃO DETECTADA. PROTOCOLO DE CONTENÇÃO ATIVADO.”
Pela última vez, vi a cúpula. Um raio cortou o céu, direto sobre ela. A estrutura tremeu, depois desapareceu numa onda de luz branca. Nada restou. A torre afundou. A terra me engoliu. E tudo voltou ao silêncio. Fui o último a ver o mundo como ele era.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, num futuro no qual a curiosidade é um crime, um jovem é consumido pelo desejo de descobrir o que há além dos limites impostos pela Cúpula. Movido por impulsos que não consegue conter, ele decide cruzar a fronteira proibida. O que encontra do outro lado é mais antigo e mais vivo do que ele jamais imaginou. Uma jornada silenciosa o aguarda, onde cada passo pode ser o último. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

Adorei o texto, amor.
ResponderExcluirAnsiosa pelos próximos.
Parabéns! Continue publicando!
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