''Na vida todos temos um segredo inconfessável, um arrependimento irreversível, um sonho inalcançável e um amor inesquecível.''
Sempre tive sonhos ruins. Mas não os sonhos certos. Não aqueles pesadelos cheios de monstros com dentes, nem corredores infinitos onde você foge e não sai do lugar. Os meus vinham mais crus. Secos. Corredores, sim, mas sem fim. Sombras que andavam de costas. Sons que não eram ruídos, eram vozes muito longe, como se alguém gritasse num poço sem fundo. Nos últimos anos, comecei a ver imagens. Pinturas completas. Cenas que pareciam ter sido feitas à mão, com detalhes que só quem já encostou a alma na tinta sabe reconhecer. E o pior eram belas. Horríveis, mas belas.
Na primeira vez que sonhei com aquela criatura, não consegui dormir por dois dias. Era algo entre o humano e o engano. Corpo retorcido como se tivesse sido desenhado errado. Boca sem contorno fixo, olhos que não eram dois, mas vários. Quando enfim voltei à cama, dormi pesado. No dia seguinte, havia um mural no muro da Rua Treze de Maio. Era ela. Perfeita. Imensa. Feita no meu estilo, com as mesmas cores que eu deixava secar no galpão. Eu não lembrava de pintar, mas as manchas de tinta no meu braço e as marcas nas minhas solas diziam outra coisa. Pensei em blecaute alcoólico. Mas eu não bebo.
Outros começaram a notar. Alguns diziam ser arte conceitual, uma crítica à sociedade, uma expressão da angústia urbana. Falaram em matéria de jornal, pediram entrevista. Recusei tudo. Porque a cada novo mural, o sonho voltava e a coisa no sonho ficava mais próxima. Os murais começaram a se multiplicar. Estações de metrô, muros de escolas fechadas, o viaduto da Santa Ifigênia. E eu nunca lembrava de tê-los feito. Mas minhas mãos sim. Elas estavam sempre sujas, mesmo quando eu lavava.
Então as pinturas começaram a aparecer em casa. No início, eram traços leves. Riscos na parede do corredor. Formas que pareciam testadas, rabiscadas na porta do armário. Uma curva aqui, uma espiral ali. A princípio achei que eu estava surtando. Fotografei, raspei, pintei por cima. Voltavam no dia seguinte, maiores. Depois vieram os símbolos — olhos desenhados nos cantos, garras nos espelhos, bocas entreabertas que pareciam esperar alguma coisa. Meu apartamento virou um esboço vivo.
Certa noite, fui até a cozinha e vi. Não um mural. Uma figura. Parada. No escuro. Como se a pintura tivesse descido da parede. Tinha meu tamanho. Minha altura. Mas não era humana. Era um borrão de carne, contornos pintados, olhos sem brilho, corpo incompleto. E ainda assim, parecia sorrir. Pisquei. Ela não estava mais lá. Mas havia tinta fresca no chão. E pegadas que levavam de volta ao meu quarto.
Depois disso, parei de sair. Tranquei portas. Apaguei as redes sociais. Os muros da cidade continuaram sendo pintados. Novas criaturas surgindo. Algumas deformadas, outras elegantes como mármore. Todas... familiares. Como se fossem parte de algo maior. Um corpo fragmentado que se reconstruía em pedaços, mural por mural.
As paredes do meu apartamento começaram a emanar um cheiro metálico. Às vezes, ouço sussurros vindos das tomadas, como se a energia da casa tivesse virado canal para outra coisa. Meus móveis rangem sem motivo. A televisão liga sozinha. E só transmite estática com formas dançando, contorcendo-se. O mais perturbador: vi meu reflexo sorrir antes de mim.
Essa noite, sonhei com uma cidade coberta de murais mas nenhum deles no plano real. Era uma cidade vazia, suspensa no que parecia ser uma imensa galeria infinita. As criaturas andavam por ali. Pinturas que saíram das paredes e tomaram forma. Tinham olhos como portais e bocas feitas para engolir significados. E no centro, havia um trono, feito de pincéis usados, ossos de artista, quadros rasgados. Nela, sentava a criatura do primeiro mural. Agora, com meu rosto.
Acordei. Havia um novo mural na parede da sala. Não desenhado. Gravado. Como se a parede tivesse sido entalhada por dentro. Era uma pintura minha. Retrato. E ao redor do meu rosto, dezenas de mãos estendidas. Todas de tinta negra. Todas vindo me buscar.
Não saí mais do quarto desde então. Mas escuto passos. Alguém riscando a parede do lado de fora. Rindo. A risada é fina e molhada, como se viesse de uma garganta cheia de verniz. Tentei rasgar as telas, destruir os sprays, quebrar tudo. Inútil. Eles continuam aparecendo. Agora, até meu corpo parece manchado. O antebraço está mais escuro. O tom da minha pele... parece tinta óleo secando.
Ontem, o chão começou a afundar. Como se eu estivesse sobre um quadro sendo mergulhado num solvente. E a coisa na sala... entrou. Não abriu a porta. Não atravessou. Ela escorreu. Como um borrão que decidiu viver. Enquanto escrevo isso, escuto as batidas. Uma de cada lado da parede. Ritmadas. Como aplausos invertidos. A arte não pode ser desfeita. Só terminada. E ela me escolheu para ser sua assinatura final.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, um artista de rua começa a pintar murais inspirados em sonhos perturbadores, retratando criaturas abstratas e distorcidas. Quando decide parar, os murais continuam surgindo misteriosamente pela cidade, como se fossem criados por mãos que não são suas. À medida que as pinturas se espalham, o artista começa a perceber que o que está nos murais parece ganhar vida, envolvendo-o em um pesadelo de criação fora de controle. A linha entre arte e realidade começa a se desfazer, enquanto uma presença desconhecida o persegue. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
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Ótimo texto,amor. Ansiosa pelos próximos.
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