''Ainda não vi ninguém que ame a virtude tanto quanto ama a beleza do corpo.''
A luz azulada da tela piscou uma última vez antes do contrato se fechar. Somente alguns cliques, e eu estava oficialmente dentro. "Resultados visíveis em 48 horas", dizia a propaganda. Não era um milagre, era tecnologia de ponta. Uma cama revolucionária que prometia moldar meu corpo enquanto eu dormia, comprimindo meses de treinamento intenso em poucas noites de sono. Tudo que eu precisava para estar impecável na sexta-feira.
O pacote chegou na quarta. O entregador me lançou um olhar curioso ao ver o enorme caixote metálico deslizando pela porta. Toquei a superfície fria do equipamento. O design cromado brilhava sob a luz do teto, emitindo uma vibração quase imperceptível ao toque, como se estivesse vivo. O visor no encosto exibia gráficos detalhados do que aconteceria comigo durante as próximas noites. Entre promessas e algoritmos, a garantia era clara: músculos esculpidos, pele tonificada, um metabolismo otimizado como o de um atleta olímpico.
Deitei-me e um calor suave percorreu minha espinha. O colchão moldou-se ao meu corpo, envolvendo-me em um abraço tecnológico. O zumbido baixo da máquina embalava meus pensamentos. A consciência se dissipou antes que eu pudesse processar o que aconteceria a seguir.
Na manhã seguinte, o espelho revelou um reflexo ligeiramente diferente. O contorno do meu rosto parecia mais definido, e a pele, antes marcada pelo cansaço da rotina, exibia um brilho sutil. No segundo dia, os músculos dos braços e pernas começaram a surgir como sombras sob a pele, delineando uma estrutura que jamais consegui atingir nos treinos esporádicos da academia. O vestido que comprei um mês antes, escolhido para cair perfeitamente no corpo que eu esperava ter, agora escorregava pelo ombro com folga.
Sexta-feira chegou como um relâmpago. O salão de festas estava lotado, um oceano de pessoas vestidas para impressionar. O brilho dos lustres se refletia nos copos erguidos em brindes. Passei por colegas e superiores, sentindo seus olhares deslizando por mim, alguns admirados, outros desconfiados. Cada passo era leve, preciso, como se meu próprio corpo tivesse sido redesenhado para se mover com perfeição.
O nome ecoou no microfone. O prêmio pela melhor estética do ano seria meu. Subi ao palco, um sorriso ensaiado iluminando meu rosto. O CEO segurava a estatueta dourada, os olhos avaliando cada detalhe da minha transformação. Estendi a mão para pegar o troféu e, no instante em que meus dedos o tocaram, um espasmo sacudiu meu braço. Um tremor percorreu minha espinha. As luzes incandescentes destacaram algo sob minha pele—uma sutil flacidez ao redor dos olhos, uma leve hesitação nos músculos. A grande tela projetou meu reflexo aumentado, e o murmúrio do público tomou conta do salão.
O vestido, tão justo na cintura naquela manhã, agora parecia folgado demais. O aperto nos ombros deu lugar a um leve desencaixe. Um calafrio subiu por minha espinha quando percebi: minha pele começava a perder o viço, as articulações rangiam em um protesto silencioso. O que antes parecia um metabolismo otimizado agora se revelava como uma ampulheta de areia acelerada.
A máquina cumpriu sua promessa. Moldou-me, esculpiu-me, entregou o corpo perfeito em tempo recorde. Mas o tempo não havia sido apagado. Havia sido consumido. Um ano de transformação comprimido em poucas noites. E diante do brilho das câmeras, sob os olhares atentos de todos, paguei o preço pela perfeição.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, em uma empresa onde beleza e saúde são tão valorizadas quanto a produtividade, uma mulher decide recorrer à mais tecnologia de ponta para atingir a forma perfeita antes da grande festa corporativa. Com uma assinatura simples, ela recebe uma cama revolucionária que promete transformar seu corpo enquanto dorme, comprimindo meses de treino intenso em poucas noites. A cada despertar, seu reflexo no espelho se aproxima da perfeição—até que, no momento de sua consagração, uma terrível verdade se revela. A máquina cumpriu sua promessa, mas a perfeição tem um preço, e ela o pagará diante de todos. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
Inspirado no filme laureado com o Oscar de Melhor Maquiagem e Penteados em 2025.
REFERÊNCIAS
1. O filme "A Substância" (2024), dirigido e roteirizado por Coralie Fargeat, é um terror corporal que explora temas como padrões de beleza e envelhecimento. A trama acompanha Elisabeth Sparkle (interpretada por Demi Moore), uma celebridade em declínio que, após ser demitida de seu programa de ginástica por conta da idade, decide experimentar uma droga misteriosa chamada "A Substância". Essa droga cria uma versão mais jovem e "melhorada" dela mesma, interpretada por Margaret Qualley
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Um conto que me fez viajar 😂😂
ResponderExcluirÓtimo conto,amor.Parabéns! Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirMuito bom!!
ResponderExcluirExcelente!
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